São as duas classes verdadeiramente importantes para entender o Brasil.

Por 500 anos mentiram para nós.

Esconderam um dado muito importante sobre o Brasil.

Disseram-nos que éramos brasileiros.

Que éramos cidadãos brasileiros, que deveríamos ajudar os outros, pagando impostos sem reclamar nem esperar muito em troca.

Esconderam todo esse tempo o fato de que o termo brasileiro não é sinônimo de cidadania, e sim o nome de uma profissão.

Brasileiro rima com padeiro, pedreiro, ferreiro.

Brasileiro era a profissão daqueles portugueses que viajavam para o Brasil, ficavam alguns meses e voltavam com ouro, prata e pau-brasil, tiravam tudo o que podiam, sem nada deixar em troca.

Brasileiros não veem o Brasil como uma nação, mas uma terra a ser explorada, o mais rápido possível. Investir no país é considerado uma burrice.

Constituir uma família e mantê-la saudável, um atraso de vida.

São esses brasileiros que viraram os bandidos e salafrários de hoje, que sonham com uma boquinha pública ou privada, que só querem tirar vantagem em tudo.

Só que você, caro leitor, é um brasiliano.

Brasiliano rima com italiano, indiano, australiano.

Brasiliano não é profissão, mas uma declaração de cidadania.

Rima com americano, puritano, aqueles abnegados que cruzaram o Atlântico para criar um mundo melhor, uma família, uma nova nação.

Que vieram plantar e tentar colher os frutos de seu trabalho, sempre dando algo em troca pelo que receberam dos outros.

Gente que veio para ficar, criar uma comunidade, um lar.

Que investiu em escolas e educação para os filhos e produziu para consumo interno.

Foram os brasilianos que fizeram esta nação, em que se incluem índios, negros e milhões de imigrantes italianos, espanhóis, japoneses, portugueses, poloneses e alemães que criaram raízes neste país.

Brasilianos
 investem na Bolsa de Valores de São Paulo.

Brasileiros investem em offshores nas Ilhas Cayman ou vivem seis meses por ano na Inglaterra para não pagar impostos no Brasil.

Brasileiros adoram o livro O Ócio Criativo, de Domenico de Masi, enquanto os brasilianos não encontram livro algum com o título O Trabalho Produtivo, algo preocupante.

Como dizia o ministro Delfim Netto, o sonho de todo brasileiro é mamar nas tetas de alguém.

Quem está destruindo lentamente este país são os brasileiros, algo que você, leitor, havia muito tempo já desconfiava.

Infelizmente, o IBGE não pesquisa a atual proporção entre brasileiros e brasilianos neste país.

São as duas classes verdadeiramente importantes para entender o Brasil.

Mais importante seria saber qual delas está aumentando e qual está diminuindo rapidamente, uma informação anual e estratégica para prevermos o futuro crescimento do país.

Não vou fazer estimativa, deixarei o leitor fazê-la com base nas próprias observações, para sabermos se haverá crescimento ou somente a continuação do “conflito distributivo” deste país.

O eterno conflito entre aqueles que se preocupam com a geração de empregos e aqueles que só pensam na distribuição da renda.

Os brasilianos desta terra não têm uma Constituição, que ainda é negada a uma parte importante da população.

Uma Constituição feita pelos verdadeiros cidadãos, que estimule o trabalho, o investimento, a família, a responsabilidade social, a geração de renda, e não somente sua distribuição.

Uma Constituição de obrigações, como a de construir um futuro, e não somente de direitos, de quem quer apenas garantir o seu.

Precisamos escrever e reescrever nossos livros de história.

Em vez de retratarmos o que os brasileiros (não) fizeram, precisamos retratar os belos exemplos e contribuições do povo brasiliano para esta terra.

Um livro sobre a História Brasiliana, da qual teríamos muito que nos orgulhar. Vamos começar 2008 tentando ser mais brasilianos e menos brasileiros.

São 500 anos de cultura brasileira que precisamos mudar, a começar pela nossa própria identidade, pelo nosso próprio nome, pela nossa própria definição.

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About Author

Stephen Kanitz

MBA pela Harvard Business School. Criador de Melhores e Maiores, Filantropia.org, Voluntarios.com, Prêmio Bem Eficiente para o Terceiro Setor. Autor de A Missão do Administrador, Controladoria, Brasil Que Dá Certo.

  • Diogo

    Devemos começar hoje a tentativa de mudar a imagem que o mundo tem do Brasileiro ou Brasiliano, não importa o termo, nos gabamos de tirar vantagem em tudo ou vivemos uma ilusão de felicidade quando conquistamos algo sem sacrifício, é comum ouvirmos a seguinte frase, “não fiz nada hoje no trabalho” com um sorriso no rosto de quem parece ter conquistado algo espetacular, vergonhoso…

  • Eu penso na distribuição de renda onde o empresário, se produtor, paga bem para que se produza.

  • Ney S. Monteiro

    Barbara,
    Com relação aos Estados Unidos você esqueceu, ou omitiu, alguns dados de grande importância.
    O valor das pessoas é medido pela quantidade de dólares porque se atribui isso à capacidade de trabalho e de inteligência criativa.
    Outro dado muito importante, talvez o que marcamais a diferença entre eles e nós brasileiros, é que lá, a MENTIRA é algo extremamente condenável e que levou um presidente ao impeachment.
    No Brasil, a mentira é considerada ESPERTEZA, tendo chegado ao ponto de um presidente mentir diariamente, atribuindo a si e ao seu governo, políticas governamentais positivas executadas por governos anteriores.
    E se escondendo na mentira para negar atos de corrupção, ou dizendo ignorar o que se passava ao seu redor, mentindo e mentindo a cada dia.

  • Os italianos chamam de “brasiliano” as pessoas nascidas no Brasil (e eventualmente tb a lingua portuguesa, muitos apesar de saberem que se chama portoghese, gostam de especificar dizendo “brasiliano”).
    Muito interessante o ponto de vista. Nunca tinha parado para pensar sobre a origem do termo “brasileiro”.
    No fundo acho que é preciso inventar um novo sistema: esse consumismo desenfreado e as diferenças sociais aberrantes não são saudáveis. Nem no Brasil, nem em outros lugares do mundo. Espero que a idéia venha aí do Brasil, um país que está se reinventando e felizmente, melhorou muito nos últimos anos (pelo menos as consequencias desse novo potencial a gente sente aqui na Italia, onde sim vivem italianos, mas o “ano” não é garantia de sociedade perfeita).
    Aliás, se posso ser honesta, o Brasil baba muito ovo para os EUA, um país onde o valor das pessoas é medido pela quantidade de dólares que elas produzem e por quantas coisas inúteis os cidadãos conseguem consumir no menor tempo possível.
    Quem sabe as novas idéias podem surgir aí do Brasil, nesse momento de otimismo e vontade de mudar?
    Até a próxima,
    Abs
    Barbara