A Era do Robô

Se você não lê ficção científica, pergunte a seu  filho como será o mundo no final do próximo século.

Ele dirá que os robôs farão praticamente tudo.

Haverá robô para limpar a casa e robô para buscar comida no supermercado.

Já há robô, que chamamos de e-mail, para entregar cartas em todas as partes do mundo.

Daqui a 100 anos, as máquinas farão tudo para nós e ninguém terá de trabalhar.

Estaremos todos em férias.

Há quem diga que será um horror.

Já imaginou todo mundo sem nada para fazer?

A maioria das pessoas já ouviu dizer que, após seis meses, todo aposentado sobe pelas paredes e implora para voltar a trabalhar.

É uma grande mentira.

Para quem se prepara corretamente, a aposentadoria é uma delícia. Eu sei.

Não ter de trabalhar dia nenhum, no futuro, também será.

Dura será a vida desses trabalhomaníacos unidimensionais, que só pensam no batente como forma de se colocar à prova.

Com os robôs suprindo nossas necessidades, poderemos nos devotar a atividades muito mais interessantes do que o trabalho.

São 72 000 livros publicados a cada ano para ser lidos.

Mais de 1 milhão de sites interessantes para pesquisar, 8 000 cursos diferentes em que ingressar.

Isso sem falar do edificante trabalho comunitário e voluntário que pode ocupar as 24 horas do dia.

O grande problema da humanidade não será a vida sem trabalho. Será a transição da era atual para a era do robô.

Quando todo mundo trabalha não há problema.

Quando todo mundo viver em férias também não será.

A questão do mundo atual, e poucos políticos percebem isso, é que essa transição já está em curso.

Os especialistas sempre acalmaram os trabalhadores com o argumento de que as novas tecnologias que eliminavam alguns empregos ocupariam muito mais pessoas nas indústrias encarregadas de produzir essas tecnologias. Isso de fato aconteceu no passado.

Um dia robô fabricará robô.

Ou seja, desempregados daqui para frente serão desempregados para sempre.

Hoje, 8% do trabalho no mundo já é feito por robôs. Isso vai aumentar rapidamente.

Daqui a pouco serão 25%, 30%, 50%. Em algum momento do futuro, metade da população terá trabalho.

A outra metade, não.

Se essa transição ocorresse em poucos dias, tudo bem. Acontece que ela deve demorar décadas.

O correto, na verdade, seria os países que produzem esses robôs trabalharem cada vez menos.

Nós, enquanto isso, continuaríamos condenados a dar duro oito horas por dia até chegamos ao mesmo padrão de vida deles.

Dessa maneira, o equilíbrio se manteria. Não é o que está acontecendo.

Os americanos, ano após ano, trabalham seis horas a mais em relação ao ano anterior.

Deveriam trabalhar cada vez menos.

Como não fazem isso, os robôs e as tecnologias, em vez de reduzir o trabalho americano, acabam desempregando brasileiros.

Alguém pode dizer que a solução para o problema seria proibir os produtos feitos por robôs de entrar no Brasil.

(Se artigos produzidos por mão-de-obra infantil no fundo desempregam adultos americanos e, por essa razão, não podem ser exportados, por que não tomamos uma atitude semelhante contra os produtos que tiram a ocupação dos adultos brasileiros?)

A solução, porém, não é essa.

O problema do mundo não é econômico, é de estilo de vida.

Precisamos encontrar um jeito de convencer os povos dos países desenvolvidos a relaxar, a curtir a vida.

Poderíamos, por exemplo, mandar fazer uns adesivos para os carros deles com frases como “Take it easy”, “Curta a vida”, “Carpe diem”, enfim “Relax”.

Povos como os americanos e os japoneses precisam aprender a trabalhar menos, a cuidar mais de suas famílias e a tirar mais férias, de preferência em praias brasileiras.

Tem gente que acha o máximo tudo o que vem dos Estados Unidos, especialmente na área de administração e de negócios.

Eu acho o máximo que o brasileiro ponha a família em primeiro lugar.

Que o Brasil tire férias em dezembro e só retome o ritmo depois do Carnaval.

Que o país inteiro pare durante a Copa do Mundo.

Que toda criança brasileira saiba dançar e batucar. Estamos mil vezes mais bem preparados para a era do robô do que os anglo-saxões e os orientais.

 

Revista Veja,  janeiro de 1999, página 12

 

(Lido por 298 pessoas até agora)

UA-1184690-14