Entenda o Sacrifício de Isaque

 

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Algo que sempre me intrigou na história antiga e na Bíblia, foram os rituais de sacrifício do primogênito aos Deuses, como o caso de Abraão. Como poderia uma religião aceitar o sacrifício de primogênitos, que de fato existia na época?

Como Deus poderia sequer sugerir o sacrifício do primogênito, para no fim e mandar interromper o sacrifício?

Para entender tudo isto, precisamos lembrar os problemas do início da agricultura.

Naquela época a população de humanos começava a ultrapassar a capacidade do ecossistema de sustentá-los.

O chamado Paraíso onde haviam frutas, castanhas e alimentos em abundância não sustentava mais a população, e começava a surgir a luta do bem versus o mal, lutas territoriais entre seres primitivos.

Daí a descrição de Gênesis da saída do Paraíso, “semeiem e reproduzam-se”.

Gênesis conclama todos a começar a semear, ou pior, ainda a trabalhar em vez da vida mansa, o que não deve ter sido uma proposição fácil de sugerir e de ser aceita.

Mas era vital que todos acreditassem na agricultura, para a sobrevivência dos povos na terra.

Para piorar a situação, a agricultura no seu início foi um desastre. Por isto veio a necessidade de uma religião, uma fé inquestionável neste novo modo de vida, porque a tentação em desistir era grande.

Por exemplo, a vantagem da agricultura era a possibilidade de estocar nos sete anos gordos, para usar nos sete anos magros.

Só que o mesmo grão que poderia ser comido no inverno ou nestes sete anos, era o grão que seria usado como semente na safra seguinte.

Errar neste cálculo poderia ser fatal. Se faltassem grãos estocados, o povo morreria de fome. Mas se comessem o estoque de sementes futuras morreriam também, só que mais tarde.

E, de tempos em tempos, os líderes tinham uma escolha cruel a fazer.

Em invernos mais prolongados ou secas mais longas do que o planejado, ou se morria por falta de grãos ou se morria no ano seguinte por falta de semente.

O que fazer se no meio do inverno se descobrisse que iria faltar comida? Ou morria todo mundo, ou alguns teriam de se sacrificar para a sobrevivência dos demais.

Sacrifícios portanto eram parte do dia a dia, não era a coisa brutal que imaginamos hoje, mas algo necessário para a sobrevivência do grupo.

Tornar este sacrifício uma cerimônia religiosa fazia todo o sentido.

Você tem cinco filhos e dois deles precisarão ser sacrificados. Como você faria esta escolha?

Primeira escolha óbvia é manter as filhas vivas. Filhas garantem netos, duas filhas garantem o dobro de netos do que dois filhos. Então quatro filhas e um homem é bem melhor do que uma filha e quatro homens, em termos de Genética Evolutiva.

Do ponto de vista da Genética Comportamental, é totalmente contra a lógica da sobrevivência da família assassinar um filho, especialmente como oferenda sem nada receber em troca.

A tese de que Deus estava testando a obediência de Abraão não convence. Sugerir matar o filho para no final dizer, “Pare, foi só uma brincadeira de mau gosto”, não é digno de nenhum Deus, nem como brincadeira.

Daí os inúmeros tratados filosóficos para explicar o inexplicável, como de Kierkegaard a Suspensão Temporária da Ética. Uma forma de conciliar este pedido estranho de Deus.

Sabemos que o sacrifício de filhos adolescentes era uma prática comum no início da agricultura. Minha tese para esta prática um tanto bárbara é a seguinte:

Coloque-se numa pequena tribo que descobre que não tem estoque de comida suficiente, e que não haverá sementes para o próximo ano se tudo for comido.

Ou morrem todos no ano seguinte por falta de sementes ou alguém terá que se sacrificar agora (não comendo) para o bem dos outros.

Afinal, se eliminarmos dois ou três membros da família, ou do grupo, sobrará comida e sementes suficientes.

Problema cruel!

Quem você mataria?

Seus filhos homens ou suas filhas mulheres?

Ou sua esposa?

Mulher é o recurso escasso na população.

Mate todos os homens, menos um, e mesmo assim o número de netos permanecerá igual.

Mate todas as filhas, menos uma, e sua tribo será logo reduzida a zero.

Portanto, dois ou três filhos serão.

E, o primeiro candidato é justamente o jovem adolescente que está comendo por quatro pessoas com seu apetite voraz.

E aí, vem o problema daquele que não planejou corretamente os estoques.

Como dizer para a mãe que você pretende matar o Júnior, para o bem de todos.

Complicado. Melhor dizer que Deus o comandou, que Deus pediu uma oferenda, que o Júnior irá morrer para que todos os demais possam se salvar.

Vemos esta mesma analogia, quando o filho de Deus, Jesus, morre para que todos os demais possam se salvar.

Digo tudo isto somente para refrisar porque o controle de estoques se tornou uma atividade tão crucial, ao ponto de se criar a contabilidade, a escrita e os primeiros cálculos matemáticos.

Ninguém queria passar por esta situação.

Portanto, Controle de Estoques é a minha candidata para a atividade administrativa mais antiga do mundo.

Talvez, a administração seja a profissão mais antiga do mundo.

 

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