A Verdadeira Luta de Classes é Entre os Quantitativos Versus os Verbais

 

Os seres humanos se dividem em dois grandes grupos: os quantitativos e os verbais.

Os primeiros são bons em números, e os segundos hábeis na fala.

É a grande divisão do ensino: exatas versus humanas, clássico versus científico.

Os bons de fala irão tornar-se advogados, jornalistas, sociólogos, economistas governamentais, políticos.

Tendem a ser românticos e de esquerda.

Tendem a acreditar na autoridade da palavra e nas soluções de cima para baixo.

Os bons em números irão tornar-se engenheiros, cientistas, químicos, empresários, contadores, administradores.

Tendem a ser pragmáticos, apolíticos.

Tendem a acreditar nas soluções de baixo para cima. Falam mal, escrevem pior ainda, têm pouca influência política.

Ao contrário do que se pensa, os economistas governamentais não são bons em números.

Eles fazem parte do grupo verbal da sociedade.

Normalmente falam bem e escrevem melhor ainda.

Seus artigos, porém, são recheados de analogias, não de números.

Observem em seus artigos assinados, que a argumentação é verbal, teológica, com poucas fórmulas, deduções, números, muito menos projeções de resultados.

Seus artigos primam pelas analogias verbais, não pela quantificação numérica. “Somos um Boeing sem rumo”, “precisamos de um choque de credibilidade”, “política do feijão-com-arroz”.

Seus planos não são quantificados – são mais um jogo de palavras do que planos operacionais concretos.

Por isso não dão certo.

Um dos poucos economistas governamentais brasileiros que entendia de números, Mário Henrique Simonsen, tinha sólida formação em Engenharia. É a exceção que confirma a regra.

Eles não são numerosos porque nosso ensino tem sido voltado aos verbais.

Afinal, é mais barato formar um verbal do que um quantitativo.

Bastam um professor e um quadro-negro, do que um computador por aluno e um laboratório de física.

Não é por menos que o Brasil forma mais sociólogos, filósofos e economistas do que engenheiros, quando no Japão a relação é oposta a esta e é de 100 para 1.

Apesar de desprovidos das capacidades necessárias para comandar uma nação, dominam nossas vidas.

Simplesmente, porque os verbais falam na mesma frequência dos políticos e são, por isso, seus principais assessores.

Empolgam os políticos pelo discurso e pela visão utópica de que podem consertar o mundo de cima para baixo.

Karl Marx era formado em filosofia e seu grande inimigo eram os engenheiros que inventaram as máquinas industriais, que ele rotulou de capitalistas.

É o óbvio que quem constrói uma máquina é seu dono, dono do seu capital. Mas estes novos engenheiros, com a enorme produtividade que imprimiram à produção humana, deveriam se tornar novos líderes sociais desbancando os filósofos como Hegel e Feuerbach.

A bem da verdade, os economistas governamentais erram em seus planos não por sadismo, não por ignorância, mas por incapacidade genética. São pessoas verbais.

A nova luta de classes será entre os verbais que controlam os políticos brasileiros, e os quantitativos que são os apáticos que pagam 90% dos impostos.

A questão que se coloca é esta: mexam-se ou serão mexidos.

 

Publicado na Revista Exame, Editora Abril, de 27 de junho de 1990, página 122

 

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Comentários

13 Responses

  1. Vejo que não haverá mudanças nesta situação. Sabemos que nosso país é formado por cerca de 70% de analfabetos com diplomas, e nestas circunstâncias, as pessoas realmente deleitam-se pelos discursos inflamados nas épocas de campanhas; imaginem estes discursos sendo feitos num país alemão, sueco, reino unido ou estados unidos! é claro que ninguem aceita!

    1. Menos, menos.
      O que foi o Audacity of Hope (Audacy of Hype, segundo os adversários) de Obama, o que é o populismo do Tea Party e de boa parte do mainstream republicano (até o fim, Mitty Romney falou em cortar gastos, mas não conseguiu aparecer com uma lista de cortes que ele considerasse relevantes e aceitáveis) além de “discursos inflamados nas épocas de campanha”? O que é difícil de imaginar num país alemão (quantos existem?), sueco (quantas Suécias existem mesmo?), etc. é essa vontade louca de cuspir no próprio país e endeusar estrangeiros custe o que custar.

  2. Boa tarde, Professor. Sou geógrafo e um leitor assíduo dos seus artigos. Tenho duas perguntas: 1) o que o senhor sabe sobre os geógrafos e o seu papel na sociedade? 2) se os profissionais de ciências humanas tem algum papel a desempenhar ainda hoje e no futuro (outro dia li que as humanas tendem a desaparecer, enquanto profissões). Um abraço.

  3. Como o artigo é de 1990, cabe a pergunta: a solução então seria políticos engenheiros como Gilberto Kassab, Paulo Maluf e Mario Covas, todos engenheiros civis formados pela Poli/USP? Certamente não podemos esperar um novo Prestes Maia, o qual não surgiu nesses 23 anos… E quanto aos economistas não-verbais (ou que não eram verbais no começo, pelo menos), como José Serra e Delfim Netto? Tiveram seus bons momentos, é verdade, mas estão longe de serem um modelo a ser amplamente seguido, sobretudo nos dias atuais.

    Para mim, o embate maior não diz respeito à formação, aos caminhos acadêmicos que as pessoas escolhem, e sim ao que se propõe a fazer ANTES da vida pública e ao que fazem realmente DEPOIS de entrarem. Isso independe do currículo.

    Talvez, para que engenheiros, economistas, administradores e advogados não se deixem corromper após ingressarem na vida pública, o ideal seria as entidades representantes dessas classes elegerem um conselho que participasse ativamente das decisões públicas. Um grupo formado por especialistas em suas respectivas áreas, eleitos a cada dois anos, trabalhando sob parâmetros de transparência e fiscalização interna. Uma espécie de consultoria “oficial”, cujas análises e relatórios seriam divulgados publicamente, acessíveis pela internet a qualquer cidadão, incluindo prefeitos, vereadores, governadores, deputados, presidentes e presidentas… Assim, resolveríamos a questão das consultorias públicas atuais, que só servem para compra de favores e desvio de verbas, contratadas sem licitação ou sob licitação corrompida e também a questão das nomeações, as quais indicam por partidarismo ao invés de mérito.

  4. Acho um desperdicio de tempo e de recursos qualquer tipo de luta. Prefiro alianças. Equipes multidisciplinares trabalhando juntas. Sou um verbal, pois sou formado em direito. Falo e escrevo bem, do que me orgulho. Mas não sou um idiota para números e quando eles são complexos demais para meu QI recorro a ajuda de profissionais de formação diferente da minha. Quem esta no poder não é incompetente por que é verbal, mas por que é incompetente. Como o artigo tem 23 anos espero que o autor tenha mudado de ideia.

  5. Concordo , mas os verbais não tem partido pode ser de esquerda ou de direita, a formação acadêmica do nosso congresso de deputados, (550) a grande maioria é formada em direito.

  6. Esse professor Kanitz só pode estar maluco. Economistas com menos matemática que administração. Que mundo vc vive? Só escolas heterodoxas no Brasil não se ensina matemática em economia de maneira razoável e mesmo assim tem mais que em Administração. Vai lá ver se os economistas governamentais nos EUA e Inglaterra tem pouca matemática (para citar poucos exemplos). Por que vc não pegou uma cadeira de economia em Harvard para ver o quanto de matemática tinha? Só para uma ilustração, verifique quais as formações (BA/BSc e majors) das maiores notas no GMAT (para entrar em MBAs nos EUA). Compare também as provas para entrar nos mestrados em economia e administração no Brasil (Anpec vs. Anpad). Vá lá no CV dos professores de business de Harvard para ver qtos tem formação em economia. Faça isso para outras escolas de business nos EUA. Estude um pouco mais de economia para não ficar arrotando merda…

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