Sociedades Que Geram Aproveitadores e Espertos

 

Leio muitos livros, mas poucos conseguiram me tirar o sono como The Philosophy of Artificial Life.

Pensei várias vezes escrever este artigo quando estava na Veja, mas me faltou coragem.

O livro trata de uma nova ciência que provavelmente revolucionará a ociologia: Denomina-se Vida Virtual ou Vida Artificial.

Surgiu há menos de 15 anos quando se percebeu que vida nada mais é do que troca e armazenamento de informações.

Troca que poderia ser recriada eletronicamente no computador, em vez de quimicamente numa pipeta.

O DNA é somente um complicado sistema químico de troca de informação.

Nada nesta ciência é definitivo, mas uma das experiências mais aterradoras pelas suas possíveis repercussões foi o Projeto Terris que vou resumir.

Criaram uma bactéria virtual, um programa de 14 instruções, que usava energia do computador e se reproduzia a cada ciclo e sofria mutações aleatórias.

Encheram o computador com 1 bilhão destas bactérias e depois de 1 milhão de ciclos abriram o computador para ver como tudo evoluiu.

A bactéria original havia sido eliminada por outra mais forte como era de se esperar, mas surgiram também um monte de bichos estranhos.

Bactérias bem menores que a rigor não deveriam sobreviver, conseguiam sobreviver porque roubavam.

Roubavam informações genéticas, pirateavam energia, usavam os outros para se reproduzirem, enganavam, distorciam informações.

Enfim, eram o que nós conhecemos como aproveitadores, espertos e parasitas.

Parasitas do ponto de vista científico são definidos como pessoas que nada ou pouco produzem, vivem do trabalho e energia dos outros. Podem até ajudar o hospedeiro, devolvendo 20% da energia em algo útil, mas é bem diferente de seu amigo que também lhe ajuda em 20% mas não vive da sua comida, da sua casa, da sua inteligência. Estes são os primeiros a usaram o argumento biológico da simbiose, como sendo um benefício mútuo ter 20 bilhões de bactérias no seu intestino vivendo as suas custas. Falta quantificar a relação e perceber que os 20 bilhões ganham com isto muito mais do que você.

São os corpos moles, os corruptos, os Gersons, os que mamam nas tetas do governo, os que trabalham no governo sem fazer absolutamente nada, os puxa-sacos do seu chefe, os que colam nas provas, os que não fazem o trabalho de grupo e recebem a mesma nota que você.

Os cientistas fizeram esta experiência uma centena de vezes e em todas apareceram “parasitas” no sentido biológico do termo, algo pelo jeito inevitável, uma constante da vida.

Consolo para o Brasil.

Se você está enojado com a corrupção, ineficiência, aparelhamento do Estado, pessoas mamando nas tetas dos empreendedores e trabalhadores braçais brasileiros, fique tranquilo que isto é natural, faz parte da natureza.

Karl Marx viveu da mesada de sua mãe, da herança do seu pai, da herança do pai de seu amigo Engels, do capital dos investidores de seus dois jornais, e sequer publicou dois de seus grandes livros. O Grundrisse e o terceiro volume do Capital.  Mas contribuiu imensamente para a literatura econômica do mundo, deve ter sido o economista mais influente que o mundo teve, influenciou a economia, até hoje, de uns 15 países.

Países que dão certo, segundo esta visão, não são os que têm gênios como Presidentes, PHds como Ministros, mas os que lutam incessantemente contra o surgimento inevitável de aproveitadores, espertos e enganadores.

Algo que não fazemos. Damos oportunidades para que todos possam administrar órgãos públicos sem o mínimo preparo, e todo mundo acha isto sensato. Por que dar uma “reserva de mercado” para quem se prepara, como fazemos com jornalistas, advogados e médicos?

Aproveitadores, espertos e enganadores se movimentam sempre na direção do dinheiro e do poder.

Por isto tendem a migrar para a política, paras as finanças do governo, para as licitações que detém 40% do nosso PIB.

São os que bajulam os grandes políticos e empresários.

O grande erro do socialismo foi sonhar que eliminariam o grande parasita da época, os engenheiros que criaram aquelas máquinas de produtividade, e queriam ficar com a mais valia produzida, que com o tempo viraram a burguesia e os capitalistas.

Não imaginaram, como a pesquisa científica mostra ser natural, simplesmente estariam criando um novo tipo de agente aproveitador, esperto e enganador.

Em administração sabemos que com o tempo toda instituição começa a ter desejos próprios e não mais lutam pelas causas que a originaram.

Por isto somos contra cargos vitalícios, privilégios, organizações sem accountability, governança, auditoria e controle.

Seja no governo ou num departamento de uma grande empresa. Temos um termo para isto, empresas elefantes.

Não é fácil combater aproveitadores, espertos e enganadores.

A única forma de combater aproveitadores, espertos e enganadores é tolher a fonte de energia que sugam dos outros.

Cortando as suas fontes, suas mamatas, obrigando-os a trabalharem, a serem criativos, a produzirem algo de valor para a sociedade, propiciando assim um merecido sustento.

Mas o resultado mais inquietante da ciência da Vida Virtual é a constatação de que as sociedades que dão certo não são as que estabelecem políticas econômicas ou reengenharias sociais coletivas, mas as que se concentram no combate aos enganadores sociais.

Somos atrasados não porque temos mais aproveitadores do que os outros, os condenados portugueses que foram trazidos para cá.

Somos atrasados porque não lutamos ferozmente contra os enganadores que temos.

O socialismo provou que criam enganadores tanto quanto o capitalismo, o liberalismo, o fascismo.

A tragédia do Século XX e XXI é que tantos lutaram simplesmente para trocar 6 por meia dúzia.

Algo para se pensar.

 

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