Nominalismo Econômico: Por Que a Ciência Econômica Não Funciona Abaixo do Equador?

 

A ciência econômica tem tido uma série de revezes nos últimos vinte anos.

Teorias que explicavam os acontecimentos econômicos perderam seus poderes de explicação.

Medidas econômicas que funcionaram no passado deixaram de ser eficazes.

Como nenhuma ciência é perfeita, a resposta científica tem sido a de tentar aprimorar as teorias anteriores e criar novas teorias que expliquem as novas condições econômicas do mundo.

A tese proposta neste artigo é a de que o problema é mais grave do que isso.

A tese aqui proposta é que muito desses revezes advém de uma forma equivocada de observar os fatos econômicos.

Ela atinge uma das premissas da ciência econômica, atinge até a própria epistemologia da ciência, a forma dela contabilizar os eventos econômicos.

A boa notícia é que a maioria das teorias econômicas não precisa ser modificada como defendem alguns, mas a má notícia é que exige uma enorme mudança na forma de se observar a realidade econômica.

I. Introdução

Nos últimos 70 anos a ciência econômica tem sido dominada pela escola nominalista de economia, sem saber.

Os nominalistas enxergam os fatos econômicos pelos seus valores nominais.

Mais especificamente, eles usam coordenadas nominais para representarem os dados econômicos.

Isto não impede que descubram valores reais, como o juro real, apesar de usarem de coordenadas nominais.

Mas, explicar o mundo real usando coordenadas nominais gera enormes complicações.

A proposta no final desta série de trabalhos é sugerir que se observe o mundo por um sistema de coordenadas reais, e não nominais.

Isto tem consequências epistemológicas muito curiosas e importantes para análise.

Para o realista, o “juro real” é um pleonasmo.

Para nós realistas, a palavra juros sempre significa juro real.

Se o verdadeiro juro é o juro real, por pura semântica, o juro nominal passa a ser uma ficção, uma mentira.

Se um juro real é o verdadeiro juro, o juro nominal é uma aberração epistemológica, seria o juro irreal, o que não faz o menor sentido econômico.

Mas os nominalistas insistem em dizer o contrário.

Deixarei para outro artigo a questão epistemológica, é algo que vai além deste artigo, um assunto por demais complexo para ser introduzido neste momento.

A atenção nesse artigo será de simplesmente mostrar as consequências nefastas causadas pela visão nominalista ao longo da história econômica, e tentar mostrar aos leigos e principalmente aos estudantes do primeiro ano de economia os erros causados por esta visão equivocada dos fatos econômicos.

Neste artigo vou me ater a um único problema econômico, que afetou mais de trinta países, que causou a década perdida dos anos 80 no Brasil, e que foi a crise da dívida externa de mais de 30 países subdesenvolvidos.

A crise da dívida externa afetou a vida de mais de 1 bilhão de seres humanos, e foi causado exclusivamente pela incapacidade dos nominalistas de enxergarem o mundo pelo seu lado real.

Ao enxergarem o problema pelo sistema de coordenadas nominais, eles apontaram soluções totalmente equivocadas que em vez de resolver o problema nos afastou ainda mais da solução.

Mas esse não foi o único problema causado pelo nominalismo econômico.

A escola nominalista é responsável por muitos outros problemas, muitos que ainda nos afetam hoje, e que serão discutidos num momento posterior.

II. A Crise de 1929

Mais de 5000 livros já foram escritos sobre a crise de 1929, atribuído a dezenas de causas desde a especulação financeira, falta de visão fiscalista Keynesiana, erro na condução de políticas monetárias e assim por diante.

Nenhum dos estudiosos que escreveram sobre o assunto percebeu que o governo americano reduziu os juros nominais até o mínimo de 1%, e nada acontecia para melhorar a economia.

Não reduziram o juro nominal para 0%, porque isto para um nominalista seria um total absurdo.

Mais ridículo seria reduzir os juros nominais para – 11% a ano, algo jamais feito na história econômica.

Para um economista da escola realista não haveria nada de absurdo numa medida dessas, diante de uma perspectiva de deflação de -13% que de fato ocorreu após 1929.

Para o economista realista, política monetária tem que se basear em juros reais, o verdadeiro juro, não em juros nominais, que não são os verdadeiros juros.

A crise de 1929 se iniciou como uma simples recessão como tantas outras que ocorrem de tempos em tempos.

Mas, com a deflação que ocorreu ao longo de 1930, de -13% dependendo do índice que você usar, a encrenca se agravou.

Os juros reais foram inadvertidamente aumentados para 15%, justamente num início de recess.ão, mas o nominalismo dos economistas nào permitiu que percebessem

O que obviamente agravou e aprofundou uma simples recessão para uma depressão com consequências nefastas para o mundo.

Muitos atribuem à ascensão de Hitler, a recessão americana que se alastrou mundo afora.

Aumentar o juro (real) para 15% justamente no início de uma recessão é uma heresia.

Até os economistas nominalistas irão concordar, mas na época ninguém olhava o mundo real, só o nominal.

Por usarem o sistema de coordenadas nominais, os nominalistas não perceberam o crescimento do juro real da economia americana, resultado de uma deflação nos preços.

III. A Crise Mundial da Dívida

Vamos apresentar um problema concreto e observar este problema pelos dois prismas.

Como a escola nominalista analisou a questão, e como o problema teria sido avaliado se tivéssemos usado os princípios do realismo econômico.

Vejamos a questão da crise da dívida externa que afetou mais de 30 países do terceiro mundo.

Os nominalistas observaram os seguintes dados econômicos para tecerem a suas conclusões:

  1. A taxa de inflação nos Estados Unidos sobe para 12% ao ano em 1981.
  2. A taxa de juros (nominais) sobe para 16% ao ano em 1981.
  3. O Patrimônio Líquido dos 8 maiores bancos americanos de US$ 20,3 bilhões em 1981, passa a ser US$ 22,1 bilhões em 1982, um aumento de 6%.

Qual o problema em sua opinião?

Na visão de muitos nominalistas “the dramatic rise in interest rates which raised the cost of debt service substantially”.

Ou seja, segundo todos os economistas do mundo houve um aumento substancial no custo do dinheiro.

Que solução você daria para o Presidente da República do seu país?

Uma solução nominalista, adotada no Brasil por Celso Furtado, foi pedir mais prazo para o pagamento dos juros, negociando uma Moratória de 3 anos, durante a qual os juros seriam acumulados ao capital.

Outra solução nominalista, proposta por Mario Henrique Simonsen era a de tentar negociar um limite de pagamento de juros a 30% das nossas exportações.

Paulo Nogueira Batista Jr. sugeriu limitar o pagamento dos juros para 2,5 % do PIB.

Bresser Pereira tentou negociar um perdão de 30% da dívida, o que reduziria os juros futuros em 30%, e foi expulso pelo Secretário do Tesouro Americano[1].

Economistas mais à esquerda, sugeriam um calote na dívida externa, já que o Patrimônio Líquido dos bancos americanos estava crescendo com a desgraça alheia.

Nesta mesma linha, como a dívida era “impagável”, muitas propostas sugeriam a conversão de dívida em investimentos, o que deu origem à onda de privatizações no terceiro mundo.

Agora vamos olhar este mesmo problema usando o sistema de coordenadas reais, e veja como o diagnóstico muda totalmente.

  1. A taxa de inflação nos Estados Unidos sobe para 12% ao ano em 1981.
  2. A taxa de juro (real) CAI de 4% para 3,5%, como muitas vezes ocorre quando há uma aceleração na inflação. Aplicadores perdem dinheiro por não terem estimado corretamente a inflação futura embutida nos seus títulos e CDBs.
  3. O Patrimônio Líquido dos 8 maiores bancos americanos cai de US$ 20,3 bilhões, para US$ 19,6 bilhões, uma redução de 6%.

O que diferiu na percepção nominalista e realista?

Ambos viram os aumentos de inflação dos preços, que é uma variação real.

Só que a escola nominalista não percebeu que o CUSTO do dinheiro não aumentou, pelo contrário, caiu ligeiramente, tornando a nossa dívida mais fácil de ser paga, e não mais difícil como achava a escola nominalista.

Se quiser, o custo do dinheiro se manteve quase inalterado, novamente nada que tenha deflagrado uma crise.

Dependendo da inflação que se usa, podemos até supor que o juro real aumentou para 4,5%, um aumento de 0,5%, e ainda teríamos um juro baixo, mais do que razoável e perfeitamente sustentado para um país em desenvolvimento.

Portanto, não houve um aumento insustentável do CUSTO do dinheiro, nem sinais de incapacidade de pagar o juro rea.

O que se tornou insustentável era o pagamento do juro nominal, que do ponto de vista econômico sequer era juro.

Por que então, estes economistas não propuseram pagar os juros até o limite do juro real, em vez destas fórmulas malucas de 30% das exportações ou 2,5% do PIB?

Do ponto de vista financeiro, ou de fluxo de caixa, a dívida de fato ficou mais difícil de ser paga devido ao uso de juros nominais, os juros tão queridos pela escola nominalista, porque elas embutem uma inflação maior.

Mas novamente, inflação não é juro, é inflação.

Como investidor você compraria um título que limita o pagamento a 2,5% do PIB brasileiro, ou 30% das exportações? Como seria feito este rateio?

Por outro lado você compraria um título que oferecesse um juro real pré-determinado?

A maioria dos administradores financeiros do Brasil está cansada de comprar títulos com IGP mais uma taxa pré-determinada, como 6% da caderneta de poupança de antigamente.

Queda no Patrimônio Líquido dos Bancos Internacionais

O mais importante é que nenhum economista do mundo observou esta “estranha” queda do Patrimônio Líquido dos Bancos Americanos, porque em termos nominais não há queda alguma.

Só quando se usa o realismo e suas coordenadas reais é que se percebe esta anomalia.

Neste caso, quem é parcialmente culpado são os contadores americanos.

Nos Estados Unidos, como no Brasil após 1994, os contadores americanos não corrigem o Patrimônio Líquido de seus balanços e demonstrações financeiras.

Antes de falar mais sobre esta questão, eu vou ter que introduzir mais um conceito nominalista, que é praticado por todos os bancos centrais do mundo, que é o limite estabelecido pelo órgão controlador dos bancos.

Trata-se do limite de endividamento bancário, atualmente chamado de Capital Adequacy Ratio.

A maioria dos Bancos Centrais do mundo estabelecia na época um limite de endividamento de 10 a 12 vezes o Patrimônio Líquido do banco. Bancos poderiam emprestar “x” vezes o seu patrimônio, mas não mais do que isto.

Isto era um forte limitador para o crescimento de um banco, e uma das razões pela qual os bancos perseguem lucros com uma intensidade muito maior do que os demais setores da economia.

Muito está em jogo.

Um banco que tem um lucro de 1 bilhão de dólares poderá fazer novos empréstimos no total de 10 bilhões ou 12 bilhões de dólares, uma enorme diferença. Uma empresa só pode reinvestir o lucro do ano.

Um banco com patrimônio de US$ 20 bilhões poderá emprestar no máximo US$ 240 bilhões, se o Capital Adequacy Ratio for de 12 para 1, ou 8% dependendo de como se calcula, de baixo para cima ou de cima para baixo.

“Bancos Comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido” seria um exemplo desta regra adotada por quase todo país que tenha o BC regulador.

Existe algo fundamentalmente errado nesta regra bancária, e é um bom momento para o leitor testar se é um nominalista ou um realista. Qual o erro fundamental nesta frase? Dica: lembre-se da inflação americana de 1981 de 12%.

Os realistas percebem o seguinte absurdo na regra, que eles leem da seguinte forma:

“Os bancos comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido, corroída pela inflação acumulada desde o seu aporte.”

Como não existe correção dos valores contábeis nos Estados Unidos e nem no Brasil após 1994, um realista percebe de imediato o que está ocorrendo, um nominalista não.

Um nominalista acha que o patrimônio continua igual, já que os valores nominais permanecem inalterados.

Reduzir o patrimônio contábil de um banco pela inflação do ano é um absurdo monumental.

Primeiro, porque o patrimônio real do Banco não deve ter caído na vida real, já que ele deve ter se valorizado pela mesma inflação.

Muitos nominalistas no Brasil, na época da inflação de 2 dígitos ao ano, incluíram a “correção monetária do patrimônio dos bancos”, na regra do Banco Central Brasileiro.

“Os bancos comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido, corrigido pela inflação acumulada desde o seu aporte.”

Se os negociadores da dívida externa tivessem lutado para substituir a regra nominalista por esta acima, em vez de lutar pela moratória, limitação, perdão e conversão da dívida, não teríamos a crise da dívida externa do terceiro mundo.

O mais assustador é que agora o leitor percebe que ela nunca foi uma crise de dívida externa dos países do terceiro mundo. Ela teria sido chamada “A crise do patrimônio líquido dos Bancos do Primeiro Mundo.”

A crise do patrimônio líquido dos Bancos do Primeiro Mundo

Vejamos o que realmente ocorreu.

Somente os 8 maiores bancos americanos tiveram seu patrimônio nominal reduzido em 600 milhões de dólares, que multiplicado por 12 dá US$ 7,2 bilhões, equivalente a 12% dos seus empréstimos aos países subdesenvolvidos.

Isto obriga os Bancos a chamarem de volta, 12% de todos os seus empréstimos, igual à taxa de inflação, antes do tempo acordado.

Como os juros assinados pelos economistas nominalistas eram, em parte, flutuantes, a devolução se fez via juros, não via amortizações

Os bancos pararam de financiar o crescimento dos países emergentes, que cresciam em média 8% ao ano, e começaram a recolher os empréstimos em termos reais.

Ou seja, de um ano para o outro tivemos uma mudança de direção da ordem de 20%.

Em dois anos, foi de quase 40%. Óbvio que surgiu uma enorme crise, mas não de dívida e sim causada pelo patrimônio dos bancos não reavaliados pela inflação de seus próprios países.

Segunda Fase, Write Off patrimonial.

Graças a economistas como Celso Furtado e sua campanha de moratória, os bancos começaram a ser pressionados pelos acionistas e depositantes a se livrarem de nossas dívidas.

No ano seguinte, estes 8 maiores bancos fizeram um “write off”, de US$ 1,2 bilhões de dívidas de crédito duvidoso. Até o Papa dizia que nossa dívida que custava somente 4,5% ao ano, era impagável.

Multiplique US$ 1,2 bilhões por 12, e temos mais US$ 14 bilhões de empréstimos que precisam ser recolhidos para que a regra bancária seja cumprida, só num único ano.

Lembre-se: “Toda redução no patrimônio de um banco, requer o recolhimento de 10 vezes o montante em empréstimos.” Uma enorme bola de neve foi colocada em movimento, e levou 20 anos para ela parar de rolar.

Aliás, nem parou ainda.

Até hoje, e desde 1994 no Brasil, os bancos internacionais só podem emprestar “x” vezes o seu patrimônio corroído anualmente pela inflação.

Em 2004, os bancos americanos tinham um patrimônio consolidado de US$ 600 bilhões, que os possibilita emprestarem US$ 7 trilhões.

Qual seria estimativa do patrimônio dos bancos americanos em 1981, 20 anos atrás, numa economia madura, onde o setor bancário não cresceu tanto, justamente por causa destes problemas todos?

Se você estimou US$ 400 bilhões ou US$ 300 bilhões, você estaria correto, mas os valores nominais apontam hoje para somente US$ 118 bilhões, porque boa parte do patrimônio dos bancos foi corroída pela inflação do período.

Corrigindo os US$ 118 bilhões teríamos um valor de US$ 350 bilhões, dos quais US$ 230 bilhões, evaporou. Em somente 20 anos, economistas nominalistas destruíram a capacidade de empréstimos dos bancos americanos em nada menos que US$ 2,9 trilhões.

Pior, nenhum economista do mundo menciona este fato nos mais de 500 livros escritos sobre a dívida externa, nem mesmo os economistas brasileiros que conheciam correção monetária dos balanços, que há muito era uma prática adotada por todo contador brasileiro.

Obviamente que esta redução do montante de empréstimos não foi equitativa em 12% de toda a base de clientes.

O Agravamento da Crise

Devido a economistas como Celso Furtado e a sua campanha de moratória, os bancos decidiram manter seus empréstimos para as grandes empresas americanas, sacrificaram um pouco as pequenas e médias empresas, e concentraram o grosso do recolhimento aos seus empréstimos externos, a países como o Brasil.

Tanto é que em 1981 aumentou o número de falências e concordatas nas pequenas e médias empresas americanas em 42%, a maior taxa em 20 anos.

Mas quem mais sofreu fomos nós, em vez de termos uma redução de 12%, os bancos nos reduziram em 100%, venderam nossos títulos no mercado secundário a brasileiros, e fim de papo.

Ou seja, o problema não tinha nada a ver com o Brasil, Argentina, Colômbia, Filipinas e outros países que tiveram que pedir socorro ao FMI.

Até hoje, você pode consultar a Internet e achar centenas de teses de economistas nominalistas discutindo o problema dos “países super endividados”. Vejam este exemplo:

The International Debt Crisis

Ken S. Ewert

Once there was a man with a large sum of money.

He decided to lend a considerable portion of it to a man from a faraway country who offered him a high rate of return. But the foreigner wasted some of the money in riotous living, he was careless and allowed some of the money to be stolen, and what he did invest soon soured because of his poor investment skills.

It wasn’t long before he had trouble making the payments on his debt.

The lender saw the debtor’s poor stewardship, but not wanting to admit his own mistake in lending to the man, lent him still more money in the hopes that the debtor would begin to prosper.

But the debtor continued his thriftless ways, and the lender soon found himself in serious financial trouble.

This simple story describes, by analogy, what economists call the “world debt crisis.”

In our parable, the lender symbolizes the several large commercial banks (American, Japanese, and European) which made substantial international loans during the 1970s and early 1980s, and the debtor represents countries such as Brazil, Mexico, and other less developed countries (LDCs) which borrowed heavily during that period.

Most people understand this story as far as it goes – how the international debt problem happened. But most of us are still in the dark as to why it happened, and how this crisis is likely to be resolved.

“A culpa é dos bancos gananciosos”, diz o comentário acima, “dos ministros econômicos irresponsáveis que tomaram empréstimos sem intenção de pagá-los”, e admite no final que ninguém sabe o que aconteceu.

Pelo menos agora, você leitor tem uma melhor ideia.

Pela análise acima fica claro que a questão não era de super endividamento.

O problema era de sub-capitalização dos bancos internacionais, gerados por uma regra nominalista de não corrigir os balanços dos bancos americanos pela inflação acumulada.

Os bancos foram obrigados a puxar o tapete por uma regra do banco central de seus países.

Por que ninguém percebeu isto antes?

Não posso responder esta questão.

Na maioria dos anos a taxa de rentabilidade dos bancos e do crescimento do seu patrimônio era positiva em termos reais, já que a rentabilidade era muito maior do que a inflação do período.

Ou seja, o problema nunca chegou a reduzir o patrimônio líquido real dos bancos, embora reduzisse a sua taxa de crescimento.

Muitos economistas nominalistas, e conversei com todos nestes últimos 30 anos, alegam que os próprios juros nominais superestimam a rentabilidade dos bancos, o que é verdade.

Um juro nominal superestima a rentabilidade de um banco, razão pela qual os economistas ligados a bancos, na sua maioria, são ferrenhos nominalistas.

Mas tem um detalhe, se não existissem impostos nem distribuição de dividendos, não haveria, de fato, muita diferença entre a visão nominalista e a visão realista, nesta questão específica.

A rentabilidade superestimada da visão nominalista compensaria exatamente na mesma proporção a erosão inflacionária do patrimônio líquido dos bancos.

Infelizmente, o imposto de renda americano também é nominalista, e a maioria dos bancos distribuiu 50% do lucro (nominal) como dividendos, já descontado de 50% de impostos.

É por isso que o patrimônio dos bancos em 1981 teve uma queda gigantesca de 6% num único ano.

Com base nesta análise, você lutaria por uma moratória?

Uma moratória que levaria a maioria dos bancos conservadores a fazerem um imediato write off de sua dívida, deprimindo ainda mais o patrimônio dos bancos?

Foi o que vários economistas fizeram e continuam querendo fazer, em vez de lutarem pela mudança nas regras dos bancos centrais.

Em vez do “Fora o FMI”, você lutaria para modificar a regra de endividamento bancário do banco central americano?

Exigir algo do tipo: “os bancos comerciais poderão a partir de agora emprestar até o limite de doze vezes o seu patrimônio líquido corrigido pela inflação americana.”

Você tentaria negociar o limite de juros nominais até 30% das exportações brasileiras, ou tentaria negociar o pagamento dos juros reais ano ao ano, e transferir a parte nominal dos juros (nominais) ao saldo da dívida a ser paga ao longo da duração do contrato?

A proposta com base na escola realista da renegociação da dívida externa brasileira se encontra num outro artigo acessível neste mesmo site.

O Brasil acabou optando pela moratória, e em nenhum momento exigiu essas mudanças na legislação bancária americana.

Para a maioria dos investidores americanos, o Brasil simplesmente deu uma de caloteiro e pagamos o preço até hoje.

Pior, em nenhuma das infinitas negociações da dívida externa feita por economistas como Pedro Malan, se abordou a necessidade de mudar a regra branca americana para uma visão realista.

Para piorar a situação, economistas da escola nominalista americana e europeia começaram a exigir novas regras de endividamento bancárias mais rígidas e mais restritivas, para impedir os bancos de fazerem empréstimos novamente a países caloteiros como o Brasil.

Foi aí que surgiu o movimento dos Acordos da Basiléia, que são acordos nominalistas e que agem exatamente no sentido contrário do que está sendo apresentado aqui.

Depois de 1981, os bancos americanos começaram a entrar em decadência, pelas razões expostas.

Limitados na sua capacidade de crescer devido a uma regra nominalista equivocada, os bancos americanos perderam seu lugar para os bancos japoneses que não tinham essa cláusula restritiva.

Lá se pode corrigir o patrimônio pela valorização imobiliária dos seus ativos, que levou a uma outra encrenca.

Os bancos americanos perderam a sua capacidade de fazer empréstimos, chamados on-balance, e passaram a inventar métodos de fazerem empréstimos off-balance, empréstimos que não apareciam nos balanços e não entravam na regra nominalista.

Os Acordos da Basileia de 2004, foram redigidos para corrigir estes abusos, um bom exemplo de como um erro, leva a outro erro, que é corrigido erroneamente, e que nos afasta cada vez mais do erro original.

Quem acredita na teoria do Caos, outro erro semântico pois não tem nada haver com caos mas sim como um fato pequeno no início da simulação e pode gerar consequências enormes no final.

A tal batida de asa de borboleta no Amazonas que gera um tufão na Índia.

Por causa deste absurdo contábil, os bancos do mundo inteiro começaram a inventar uma série de derivativos, um mais maluco que o outro. Começaram a sair do ramo de empréstimos bancários propriamente ditos, e a entrar no ramo dos mais variados serviços.

Pior ainda, começaram a lentamente a esquecer toda a tecnologia de análises de crédito, e assim aumentamos o risco e os defaults por empréstimos mal concedidos. Vide Enron.

Hoje, a maioria dos “empréstimos” é feita por fundos de pensão sem a menor estrutura de análise de crédito.

Os “empréstimos” se tornaram compra de debêntures, baseados na avaliação de duas empresas precárias em termos de capacitação de análise de crédito, a Standard & Poor´s e a Moddy´s.

Em vez de termos 10.000 departamentos de análise de crédito, um por fundo de pensão pelo menos, criamos dois sistemas Caixa Preta, porque nem a Standard & Poor´s nem a Moody´s revelam-nos detalhes como elas avaliam os riscos de todo mundo.

Foi assim que os Bancos Comerciais perderam espaço para os grandes Bancos de Investimento, que inventaram os malfadados “junk bonds” que tantos problemas geraram na década de 80 e 90.

O “junk bond” era vendido para fundos de pensão e não mais para bancos, porque um fundo de pensão não tem o limite de endividamento estabelecido pelo Banco Central.

Colocado de outra forma, na versão da economia realista, o fundo de pensão pode emprestar uma vez o seu capital, e este capital é naturalmente corrigido pela inflação, porque no fundo de pensão não há impostos nem distribuição de dividendos.

Só que com o movimento de “junk bond” perdeu-se a capacidade de análise de crédito que os Bancos Comerciais usavam rigorosamente nos seus empréstimos. Os 10.000 analistas de crédito demitidos pelos bancos não foram contratados pela Standards & Poor´s.

Nenhuma essas empresas de “credit rating” sequer fazem os ajustes necessários nos balanços das empresas e dos bancos para transformar a visão nominalista em uma visão realista. Ao perceberem que o Patrimônio Líquido dos bancos não estava acompanhando o crescimento real da economia, começaram a rebaixar os conceitos creditícios dos bancos internacionais, piorando ainda mais a bola de neve.

Por exemplo, já é fato comum, de que a indústria de aviação não realizou lucro desde a sua concepção, 60 anos atrás.

Que somando os prejuízos com os poucos lucros que obtiveram não se tem superávit sequer ao longo de seis décadas.

Isso deveria soar absolutamente errado para a maioria das pessoas, e a primeira reação a este dado é de descrença.

Esta intuição inicial das pessoas é correta, temos mais um erro de observação do nominalismo econômico.

As indústrias de aviação, como as demais indústrias, lançam a totalidade do juro nominal como despesa, ao invés de lançarem como despesa somente o juro real, que é o verdadeiro juro.

Ou seja, superestimam as despesas sem lançar as receitas da correção dos ativos pela mesma inflação do ano.

Ou seja, a inflação que está embutida nos juros nominais acaba não sendo excluída e esta é uma das razões destes prejuízos.

Como isso não é feito, as empresas de credit rating baseadas em informações incorretas, abaixam o rating, que aumenta a taxa de juros das empresas de aviação e que dificulta ainda mais a obtenção de lucros.

A dificuldade de convencer os economistas nominalistas deste erro é para mim intrigante.

É muito difícil convencer um economista nominalista a jogar fora tudo que já escreveu na vida, jogar fora tudo que estudou na vida, jogar fora o seu PHD, o seu mestrado, os seus anos de assessor de um governo onde presidiu o Banco Central.

Imaginem a reação da imprensa ao descobrir que uma equipe médica que está há mais de 60 anos tratando um paciente com uma febre inexplicável, ser surpreendido por um estudante de medicina que descobre que o termômetro usado é que estava mal calibrado.

Os próprios jornalistas, a maioria dos quais já escreveu páginas e mais páginas de notícias equivocadas baseadas na visão nominalista, serão os últimos a quererem admitir o que fizeram.

Se você caro leitor se convenceu, pelo menos em parte, do que foi escrito aqui, é provavelmente por que você ainda é um estudante de economia com menos de 22 anos, ainda não impregnado com a doutrina nominalista, e portanto aberto a alternativas do mantra hegemônico.

Infelizmente, são assim que as ideias são propagadas.

Não pela livre discussão de ideias, onde adultos equivocados dão a mão à palmatória e se convertem às melhores idéias apresentadas pelos seus colegas de profissão.

No ramo acadêmico, infelizmente isso não existe, somente no ramo empresarial. A maioria dos empresários não tem o menor prurido de copiar uma boa ideia. O intelectual acadêmico prefere morrer a admitir que estivesse errado.

Portanto, o mundo depende de jovens como vocês ainda não influenciados pelos erros das velhas gerações.

Vocês que ainda estão na fase de querer observar e entender este mundo maluco que é ensinado na academia.

Pense em tudo que foi escrito, converse com seus colegas, descubram outras implicações do que foi dito, escrevam sobre alguma falha minha, para mim de preferência, e espalhem a verdade para que o Brasil possa sair desta encrenca.

[1] O governo americano teria um prejuízo de metade deste valor, devido ao crédito de Imposto de Renda que este maciço write desligado causaria para o Tesouro Americano. Como a dívida somente seria paga em digamos 20 anos, o valor presente deste desconto de 30% exigido por Bresser, resultaria num abatimento efetivo de somente 2,5% para o Brasil. “Vocês ganham 2,5%, e nós perdermos 15%, vocês não sabem é fazer conta. Terminada a negociação.” De fato, fazer contas não era o forte de Bresser Pereira.

[2] A resposta seria porque este é o verdadeiro custo do dinheiro, este é o verdadeiro juro segundo qualquer escola econômica que se queira escolher.

 

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