A Verdadeira Crise do Capitalismo

 

Assustador ler hoje artigo de Martin Wolf, Financial Times, culpando o “capitalismo” por esta crise, e colocando suas sugestões de como modificá-la.

Como todos sabem, meu objetivo neste blog sem fins lucrativos é sempre mostrar um lado da questão nunca abordado, ajudando a eliminar preconceitos, memes e ajudando o leitor a pensar mais no assunto.

Não foi o Capitalismo que causou esta crise, muito menos o Neoliberalismo, algo que vai ser difícil, eu sei, a esta altura do campeonato provar.

Vamos definir corretamente de que capitalismo estamos falando, quais os valores deste capitalismo que causaram a crise, lembrando que hoje temos vários capitalismos, como temos inúmeras versões possíveis de socialismo.

Eu defendo o Capitalismo Democrático, enquanto que Martin Wolf defende o Capitalismo de Estado.

Um dos valores do capitalismo tradicional e do liberalismo é: “coloque todos os seus ovos numa cesta, e cuide bem desta cesta”.

Poderá parecer estranho para muitos, porque o mantra do Financial Times tem sido “diversificar seus investimentos e não colocar tudo numa única cesta“.

Mas este conselho, “cuide bem da cesta” está nos Axiomas de Zurique, de Max Gunther, uma das bíblias deste tipo de capitalismo.

Estes capitalistas à moda antiga são a favor da governança, da responsabilidade no trato das finanças, da competência e da dedicação.

Os liberais e os neoliberais querem que você tenha liberdade de escolher o Fundo de Garantia de Emprego que quiser, não aquele que rende menos que a inflação, determinado pelo Capitalismo de Estado.

Você escolhe o seu Fundo de Pensão ou cuida você mesmo de uma carteira de ações, ao invés de entregar 30% do seu salário ao Fundo de Pensão do INSS, determinado pelo Capitalismo de Estado.

Cuidar do seu próprio dinheiro faz parte do direito do homem, infelizmente esquecido pelos nossos governos.

Depositem 40% de impostos, comprem 100% de títulos públicos, que cuidaremos da sua “cesta”, da sua saúde, ensino e aposentadoria.”

Será que entregar a sua cesta para outros cuidarem funciona?

Martin Wolf acredita que sim.

Martin Wolf acha que entregar sua poupança para um bando de jovens de Hedge Funds, Fundos Fechados, Fundos de todos os tipos, e diversificar em 10 aplicações diferentes que você honestamente não entende nada, funciona.

Mas isto não é capitalismo. Entregar a sua cesta para outros cuidarem é uma santa ingenuidade, mas é isto que hoje chamamos de Wall Street, não muito diferente do que prega o Capitalismo de Estado.

Dê-me seu dinheiro, e eu cuidarei dele por você. Deu o que deu nos EUA e agora na EUROPA, duas faces da mesma moeda. “Cuidaremos de você e dos seus problemas.”

Liberais e neoliberais acham que entregar dinheiro para os outros é uma furada. Por isto, são contra governos que tomam para si, e Hedge Funds que afirmam que cuidarão de você.

Liberais acham que é melhor você cuidar do seu dinheiro, da educação do seu filho e da sua saúde que dá mais certo, liberdade hoje negada pelo Capitalismo de Estado e desaconselhada por jornalistas do Financial Times, em nome de seus anunciantes.

Entregar 40% da sua renda para o Estado e não acompanhar o que eles fazem com o seu dinheiro gera incentivo à corrupção, óbvio.

Colocar sua aposentadoria e fé numa promessa do Estado, é no mínimo ser irresponsável.

Comprar títulos públicos sem saber o que os Capitalistas de Estado fazem de fato com seu dinheiro é comodismo, e novamente irresponsabilidade das grandes.

Liberdade requer responsabilidades, a começar com o seu próprio capital, por menor que seja.

A crise, nos Estados Unidos, foi devida aos milhares de americanos que em vez de cuidarem de suas “cestas”, entregaram o dinheiro de que dependerão para se aposentar a Fundos de Pensão.

Mesmo no Brasil, a maioria não tem a menor ideia do que o Fundo de Pensão do INSS faz com o nosso dinheiro, nem o Fundo de Pensão da Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Vale do Rio Doce, e assim por diante.

Estes Fundos de Pensão americanos entregaram o dinheiro dos trabalhadores a Bancos de “Investimentos” como Lehman Brothers, Bear Stearns, etc…, sem saber exatamente o que eles fazem com o dinheiro.

Ben Bernanke, pasmem, não controlava os Bancos de “investimentos” porque não faziam parte do sistema bancário.

Isto não é capitalismo, isto se chama irresponsabilidade administrativa.

Por sua vez, estes Bancos de Investimento “diversificaram” o seu dinheiro em várias aplicações, como Títulos Hipotecários Subprime, sem conhecer um sequer dos 10.000 mutuários que estavam sendo lastreados.

Por sinal, tudo começou com um professor da Universidade de Chicago, Harry Markowitz.

Markowitz convenceu o mundo que “diversificar era preciso”.

Convenceu que não era o conteúdo das “cestas” o mais importante, e sim a variação e correlação entre as cestas que deveria ser estudada.

Segundo Markowitz, uma aplicação em Madoff era ótima, renda constante e variância da cesta baixo.

Olhar a “cesta” do Madoff não é escopo desta teoria e deu no que deu.

Portanto, foi “falta” de capitalismo o que causou esta crise. Ninguém efetivamente se preocupando com o seu próprio capital.

Converso com viúvas, e fica claro que não estão cuidando elas próprias das cestas dos seus maridos. 

Converso com médicos, e eles entregam sua poupança para pessoas que mal conhecem.

Converso com advogados que leem os contratos de gestão, mas eles não têm a menor ideia no que estão investindo.

Lamento, cuidar do seu dinheiro faz parte das responsabilidades de um cidadão, por mais chato que seja. Como fazer esteira todo dia. Mal necessário.

Por isto, os Republicanos foram contra salvar a Lehman Brothers, aumentar o limite da dívida, etc.

Eles acham que quem não cuida da sua “cesta”, deve arcar com os prejuízos.

E não, ver estes prejuízos “socializados” por Obama e Bernanke, imprimindo moeda descaradamente e chamando este crime econômico de Quantitative Easing.

Concordo que cuidar de “cestas” é deprimente.

Lidar com dinheiro e investimento é chato, é chatíssimo.

E, perigoso.

Só tem bandido e governos atrás do seu rico dinheiro, via impostos e taxas de administração, e até verdadeiras trapaças.

Mas é imperativo cuidar do seu dinheiro, e não o Ministro da Fazenda que quer tapar o buraco do déficit público.

Ou um funcionário do INSS, que nem sabe quem você é.

Ou um gestor de Fundo de Pensão, que também nem sabe quem você é.

Faltou capitalismo nesta crise, ambos nos EUA e na Europa.

Acabaram com o velho capitalismo, o do Tio Patinhas.

Hoje ninguém cuida do seu próprio dinheirinho.

Compram títulos de governos Europeus ou Títulos de Dívidas Hipotecárias simplesmente com base nas notas dadas pela Moody’s e Standard & and Poor’s, tidas como suficientes.

Capitalismo é cuidar do dinheiro, e cuidar bem dele. Algo que infelizmente não ocorre no Capitalismo de Estado e nestes outros capitalismos, como o Capitalismo de Hedge Funds ou o Capitalismo da Diversificação do Capital, defendido por Markowitz e Wolf.

Por isto, defendo o Capitalismo Democrático onde cada um é responsável pela sua poupança diretamente, com direito de voto.

O que não está acontecendo, prezado Mr. Martin Wolf, devido aos grandes anunciantes do Financial Times, que você sabe muito bem quem são.

Hedge Funds e Bancos que querem que seus leitores esqueçam da responsabilidade de cada cidadão de cuidar bem da sua “cesta”.

Eles anunciam e você sempre escreve para todos diversificarem e não colocarem tudo numa única cesta, e cuidar bem desta cesta.

Você quer que todos apliquem com seus anunciantes.

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17 Comments on A Verdadeira Crise do Capitalismo

  1. O problema, professor Kanitz, é o que o capitalismo é isso que está sendo aplicado. Os socialistas também dizem que aquilo que foi feito nos países comunistas não era o socialismo ‘de verdade’. Se financistas e governos ‘traíram’ o capitalismo, essa versão é a que venceu. A forma de denominação é o que menos importa – capitalismo, socialismo, social-democracia, liberalismo – pois a solução é que precisamos mesmo criar um novo sistema.

  2. Parabéns por este texto Prof. Kanitz. Educação financeira, querendo ou não, faz parte da vida de todos, e deveria ser matéria obrigatória nas escolas a partir do ensino de primeiro grau.

  3. Markovitz parte de pressupostos falsos na elaboração da Teoria de Portifólio. O principal é o da racionalidade permanente dos mercados (pessoas). A segunda é a de que a variância nos retornos é o que determina o risco de um investimento (vide fórmulas acima do post).
    Então, ele acredita que a diversificação reduz o risco não-sistemático. No entanto, percebemos pelos últimos anos, que o risco não-sistemático é quase irrisório e que o risco sistemático é muito mais significativo (ainda que eu tenha uma visão diferente sobre risco).
    Enfim, abrir uma empresa é, para Markovitz, algo de muito risco. Mas o que ele não vê é que este é um risco ADMINISTRÁVEL e pode ser mitigado: estudando administração e adotando as ferramentas administrativas adequadas. Quem se torna empresário e se prepara continuamente, pode-se dizer que corre menos riscos que alguém que depende de gestores de fundos….

  4. Caro Marcelo,
    Quem não entende da bolsa não deve administrar o seu dinheiro lá, como você colocou, mas o que acredito é que a melhor atitude a tomar é tentar conhecer a bolsa ao invés de passar o dinheiro para terceiros administrarem.
    Não se deve demonizar o mercado financeiro, mas se contestar alguns analistas de mercado.Se uma pessoa escolhe comprar ações diretamente pode ganhar 3% de dividendos ao ano enquanto que contratando un fundo poderá pagar taxas de administração superiores a 2% ao ano, ou seja, só por aí o cliente já pode perder 5% ao ano. Comprando ações diretamente e vendendo menos de 20 mil em um mês (perfeitamente possível para um cliente de classe média) não se paga imposto de renda enquanto em um fundo se paga. Outra questão: na crise de 2008 a bovespa atingiu 29 mil pontos e alguns especialistas defenderam que era “arriscado” investir na bolsa. Ora entrar nesse momento era o momento mais seguro e rentável. Então todas essas coisas deviam ser colocadas para o cliente pelos fundos de investimento e muitas vezes não são.

  5. Muitíssimo obrigado pelo seu cometário. Vei bem a calhar. Não aguento mais gerentes de bancos oferecendo investimentos bizarros, enquanto tento explicar que minhas reservas, são para manter a saúde financeira, segurança e capacidade de investimentos no próprio negócio, e não para tacadas arriscadas na base da confiança. Seu artigo também desmonta com louvor os argumentos dos esquerdiopatas, que se aproveitam da crise para taxar o capitalismo de todos os males do mundo.

  6. Olá prof Kanitz, dois parabéns hoje, pelo artigo, e por seu aniversário. Saude, e disposição para continuar nos ensinando.
    Ivan Violin

  7. Legal professor Kanitz. Um artigo extremamente esclarecedor sobre os rumos que um cidadão e diga-se de passagem um País deve seguir. Capitalismo democrático implica em leis transparentes e aplicáveis a todos, transparência e oportunidade, muito diferente do que estamos vendo na maioria dos países pelo mundo, incluindo nosso Brasil, onde a república sindical e o intervencionismo tomaram conta.

  8. Colocar ovos na mesma cesta é tese de Lucratividade mas não de Risco. Markowitz enfatiza diversificação para diminuição de Risco.
    Entregar o dinheiro ao Estado é tão simplório quanto entregar a um Capitalista sem supervisioná-lo. Aliás pior, porque o Estado nunca é eficientemente produtivo com nossos dinheiro. Veja-se por exemplo as aplicações das reservas (60 e tantos porcento) nos EUA a taxas ínfimas. Também lido com dinheiro só que acho divertido, embora angustiante. Mas concordo, é perigoso, extremamente técnico e complicado.Por isso alíás somos remunerados.A correição na administração já é questão de caráter e ética. Coisas que faltaram a Merril Lynch, Leeson, Adoboli, Madoff e tantos outros.

  9. Parabens pelo brilhante artigo, os governos fazem graca e politica barata c nosso dimheiro, fazem as besteiras, comecam a chorar e a se desesperar, e mandam a conta para o dono do dinheiro

  10. So se deve delegar aquilo que cc entende. Gestores devem fazer o que voce nao tem tempo de fazer.

  11. Samuel,
    Permita-me discorrer um pouco sobre o seu post que traz uma questão muito importante. A grande questão é que se um investidor não tem capacidade para escolher um gestor que melhor se enquadre em seu perfil de risco / retorno, a chance de quel este mesmo investidor saiba escolher uma ação ou qualquer outro ativo não é muito alta. Para mim, a lição do texto é ter responsabilidade sobre o seu dinheiro, independente se vai comprar um papel/ativo ou aplicar junto a um gestor. “Demonizar” o mercado financeiro não é o caminho…
    Abraços,
    Marcelo

  12. Prezado Kanitz, parabéns por mais um texto excepcional, entretanto, quero ressaltar o perigo de generalizar e “crucificar” gestores de recursos como foi feito no texto. Acabei a leitura com um sentimento dúbio: por um lado, concordo plenamente que cada um é responsável pelo seu dinheiro. Nesta linha, é contraditório o próprio texto dizer que os bancos de investimento e gestores de fundos (pensão ou não) são responsáveis por tudo! Responsável é aquele que não lê prospectos de investimento. Que se julga o super-esperto quando o seu fundo sobe, mas fala mal do gestor quando cai sem ter idéia do ativo base. Enfim, se não sabe o que está fazendo, não faça! Do contrário, não culpe o outro! Abraços e lhe convido a ler alguns artigos correlatos no meu blog: http://www.mnfurtado.com

  13. É muito melhor investir diretamente em ações recebendo dividendos do que investir em fundos que cobram altas taxas de admnistração. Mais uma vez você foi brilhante: nenhum “especialista” na praça aconselha as pessoas a cuidarem do seu dinheiro porque querem que elas virem clientes dos seus fundos de investimento.

  14. Como sempre, vc ve o outro lado da moeda. Eu aprendi, em um MBA de uma das melhores escolas de adm do pais, que diversificar é a regra numero 1. Mas vamos a questoes praticas! Qual seria entao, a melhor opcao para investimento, segundo o capitalismo democrático? Colocar tudo em uma única ação é colocar tudo em uma única cesta? Mas não estaríamos deixando tudo nas mãos de administradores que não conhecemos? Como minoritarios, qual a chance que temos de influir na administração da empresa?

  15. Bom dia, Professor Kanitz. Li, reli, enfim, achei seu texto genial. Tanto pelo assunto como a forma pela qual o tema foi tratado. Gostaria de, com sua permissão, adaptar o texto, de modo a facilitar o entendimento por parte de meus alunos, que em sua maioria, são adolescentes sem grande interesse na leitura de textos, muito menos sobre economia. O objetivo é tentar “reverter” esse quadro de desinteresse. Mais uma vez, parabéns pelo texto. Genial. Fantástico. Um forte abraço.
    Jorge.

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