Nos Bastidores do Poder

Decidi contar um pouco da minha vida pública.

Uma das partes mais elucidativas foi quando trabalhei no Governo, e descobri como as decisões econômicas do governo são realmente tomadas.

Acho que mais administradores que participaram do Governo deveriam contar como esse país é (pessimamente) administrado, para sabermos quais são nossos verdadeiros problemas.

O então Ministro do Planejamento me levou aos Estados Unidos, para que eu expusesse meu “Plano de Renegociação da Dívida Externa” para o Paul Volcker, Presidente do Banco Central Americano.

Fui o primeiro a usar em Economia uma planilha eletrônica para resolver um problema econômico.

Nesse caso descobri que nossa dívida era pagável porque seria totalmente corroída pela inflação americana.

Gritos de Moratória, romper com o sistema internacional, que acabaram fazendo, eram equivocados porque nosso problema era a inflação americana e não os juros “brasileiros”.

Nenhum outro economista chegara a essa conclusão, porque nenhum havia feito o fluxo de caixa até o final dos 30 anos.

Fui um dos poucos, portanto, a perceber que o problema não eram os juros, diagnóstico de 100% dos economistas da época, mas a inflação americana que havia disparado.

Ao simular os pagamentos para os 30 anos seguintes com inflação zero, hipótese maluca por isso ninguém fez, descobri que o problema se resolvia imediatamente.

Para quem não sabe nossa História Econômica, nossos Ministros da Fazenda da era Militar assinaram vultosas dívidas externas com bancos internacionais para estimular os investimentos em infraestrutura.

Só que, pasmem, assinaram esses contratos sem estabelecerem previamente os juros a serem pagos pela duração desses contratos, digamos 6% ao ano.

Assinaram contratos com juros “flutuantes”, que flutuavam APÓS a assinatura do contrato, e, portanto, incluíam imediatamente os picos de inflação.

Fazem isso até hoje, se comprometem a pagar a “Selic”, e não digamos 4%.

Quando historiadores econômicos acusam “Volcker elevou os juros para 19% que afetou todo mundo”, eles omitem que esse aumento só afetou de fato países que “assinaram juros que flutuavam após a assinatura do empréstimo”.

Quem assinou juros fixos ou pré determinados, escapou, óbvio.

Volcker não aumentou os juros retroativamente aos contratos já assinados, algo sempre esquecido.

Meu plano mereceu um editorial da Revista Euromoney, “Entra Em Cena O Alquimista”, que era eu, que achara a verdadeira causa do problema, a inflação americana.

Economistas brasileiros não leem Euromoney e aqui a tese não “pegou”, mas graças ao editorial eu passei a negociar a minha solução com os banqueiros internacionais.

Achamos dezenas de fundos de pensão americanos que queriam comprar um título com juros reais fixos (3,5% e não os 16% da época) pela duração do contrato.

Em troca, no final dos 30 anos pagaríamos a dívida sem ser corroída pela mesma inflação, com exportações que sobem naturalmente com a mesma inflação.

Era tudo o que eu e eles desejávamos.

Seria um ganha-ganha para o Brasil e para esses Fundos de Pensão, eliminando assim o risco da incerteza atuarial, e para nós, o risco dos juros flutuantes.

Divulguei esse Plano de Renegociação em mais de 100 jornais e revistas, e uma cópia está aqui www.spell.org.br/documentos/download/19132.

Vocês, professores de Economia, têm um interessante Estudo de Caso para discutirmos mais um erronomics que a turma fez.

O “Plano de Renegociação” foi eleito um dos 10 melhores pelo Internacional Finance Corporation.

Junto com o plano do Pablo Kuczynski do Peru, únicas propostas vindas de intelectuais dos países devedores.

Só assim chamou a atenção dos economistas do Governo Brasileiro, que não leram o Euromoney, e me levaram para explicar pessoalmente ao Volcker.

Minha reunião com Volcker foi na Embaixada Brasileira e curta.

Ministro do Planejamento- “Mr. Volcker, quero apresentar Stephen Kanitz, formado em Harvard, que tem uma proposta para Renegociar a Dívida Brasileira, e gostaria que o ouvisse.”

Volcker- “Pois não.”

Kanitz- “Eu tenho uma “solução de mercado” e, já tenho os fundos de pensão, e os atuais bancos que aceitam fazer um Swap de Juros Nominal-Real.”

Volcker (rindo)- “Você deve ser o único economista brasileiro que está propondo uma “solução de mercado”, em vez de “perdão da dívida”, “moratória”, “pagar somente % das exportações”, ou atrelar ao crescimento.”

Kanitz- “Exatamente Mr. Volcker. Por isso preciso da sua ajuda e total apoio.”

Volcker- “Está dado.”

Agradeci, virei as costas e saí da sala.

O Ministro do Planejamento saiu correndo atrás de mim.

“Espera aí, você não vai explicar o seu plano? Nós lhe trouxemos aqui para isso.”

“Claro que não. Você não ouviu que ele já me deu seu total apoio?

Agora eu posso ligar para todos os bancos irem em frente e só preciso repetir essa frase do Volcker que você acaba de ouvir.

Se começasse a entrar nos pequenos detalhes, como você quer, poderíamos perder esse apoio.”

Infelizmente, meses depois esse mesmo Ministro boicotou o trabalho da nossa equipe de oito pessoas, ao assinar a Moratória da Dívida Externa Brasileira em 1988.

Essa moratória foi irresponsável, pois a dívida era pagável e nos causou quase duas décadas perdidas.

Sem crescimento a juros baratos de 3,5% ao ano que eu já havia acertado com os Fundos de Pensão.

Ou seja, o problema não era o Brasil nem o Volcker, mas o tipo de juro negociado, nominal em vez de real.

Quem baixar a planilha que fiz em 1986, verá que projetava Reservas Internacionais de US$ 348 bilhões em 2016, 30 anos depois.

Não conheço economista que acertou uma previsão de 30 anos.

Tenho a absoluta certeza de que os Ministros que assinaram essas dívidas sequer fizeram planilhas para projetar as consequências futuras de suas decisões arriscadas.

Administração Responsável das Nações, precisamos tornar essa matéria obrigatória em todos os cursos de Economia e Administração.

(Lido por 1729 pessoas até agora)

17 Comments on Nos Bastidores do Poder

  1. Fantastico! Simplesmente fantastico! Uma solucao elegante e exequivel! Mas a tradicao politica interferiu para destruir tudo. Ja vimos este filme centenas de vezes!

  2. Caro Kanitz,
    Seria interessante mencionar que seu plano de rolar a dívida por meio de títulos com juros pré fixados protegidos da inflação foi copiado e implementado pelo tesouro americano em 1997, vide Treasury Inflation-Protected Securities or TIPS.
    Grande abraço,

  3. Kanitz, você é um gênio!!!Conhecí seus pais no Guarujá, na casa de Mr Bartlett!Abçs.!!!

  4. Juros Flutuantes, ministros de encomenda, moratória, e o despreparo do governo, sempre nos atrapalharam, tomou emprestado tem que pagar e não tentar mágicas que sempre acabam em desastre.

  5. Professor Kanitz;
    Francisco Dornelles, Dilson Funaro, Bresser Pereira e Maílson da Nóbrega.
    Ministros da Fazenda do Brasil de março de 1985 a março de 1990.
    Fonte Wikipedia consulta de hoje-11/10/2020

    Seu Plano foi publicado na Revista de Administração nº 19 (2) de junho/1984 após o interino Carlos Viacava – ministro da fazenda do governo Figueiredo até março de 1983.
    Quem foi o ministro da fazenda de março de 1983 a março de 1985?
    Em 1988, assinatura da moratória, o ministro era Maílson da Nóbrega.

  6. Pela rápida pesquisa que fiz aqui o ministro da época era o Antonio Delfim Netto,apesar de participar do governo militar, sempre teve um perfil progressista e por ai já da pra começar a entender porque ele não apoiou sua ideia…

  7. E você não vai mencionar o nome deste Ministro do Planejamento? Ora, tenha coragem de dizer para que possamos começar a dar o nome aos bois desta republiqueta chamada Brasil!

  8. Excelente Professor !!!! Infelizmente responsabilidade não dá votos em nenhum lugar do mundo.
    Onde posso baixar esta sua planilha de 1986 ?

    At.
    Avelino

  9. Também já estive nesta situação e fica claro a máxima de que quem tem um olho em terra de cego vira rei.

  10. Kanitz, escreva um livro incluindo também declarações de outros administradores. Será muito útil

  11. Lendo o texto, tenho a nítida impressão de que os economistas da época, se preocuparam somente no “quanto” eu levo nisso. Me lembro que na época li em algum lugar: “se puserem um “criado mudo” como ministro da economia, as coisas melhorariam”.

  12. Este trecho deveria ser reescrito assim:
    “Para quem não sabe nossa História Econômica, nossos Ministros da Fazenda da era Militar ASSUMIRAM vultosas dívidas externas com bancos internacionais para estimular os investimentos em infraestrutura.”

    “Só que, pasmem, assinaram esses contratos CONVENIENTEMENTE AOS AMERICANOS sem estabelecerem previamente os juros a serem pagos pela duração desses contratos, digamos 6% ao ano.”

  13. Não sou economista, mas um aspreciador de suas ideias lúcidas a muito tempo. Lamento não vê-las mais e que o meu nicho, a educação, leia tão pouco sobre economia. Obrigado por partilha-las.

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