NOMINALISMO - Stephen Kanitz https://blog.kanitz.com.br/artigos/administracao-economica/economia-administracao-economica/nominalismo/ Blog para se Pensar Fri, 06 Aug 2021 20:35:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.5 https://blog.kanitz.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephenkanitz-favicon-150x150.png NOMINALISMO - Stephen Kanitz https://blog.kanitz.com.br/artigos/administracao-economica/economia-administracao-economica/nominalismo/ 32 32 Trump Reduz Dedução de Juros Imobiliários https://blog.kanitz.com.br/juros-imobiliarios/ Sat, 06 Jan 2018 12:40:14 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=24353   A crise de 2008 foi um divisor de águas para mim, ao mostrar a total incompetência e incapacidade de análise dos maiores especialistas americanos. “Quem não analisar corretamente seus problemas irá revivê-los.” Pesquise na internet e você vai achar que a crise de 2008 foi causada por especuladores, por uma bolha, por bancos que […]

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A crise de 2008 foi um divisor de águas para mim, ao mostrar a total incompetência e incapacidade de análise dos maiores especialistas americanos.

“Quem não analisar corretamente seus problemas irá revivê-los.”

Pesquise na internet e você vai achar que a crise de 2008 foi causada por especuladores, por uma bolha, por bancos que emprestavam para todo mundo, perfeitos idiotas que eram.

Acho que fui um dos poucos a apontar como culpado a política Econômica vigente de “dedução dos juros imobiliários do imposto de renda” como o verdadeiro culpado. O MID, Mortgage Interest Deduction.

Isso provavelmente porque nós brasileiros somos mais aptos a entender os efeitos a longo prazo da inflação, e que juro nominal não é juro.

Mais uma vez, os culpados são as políticas econômicas do governo e não a “exuberância do mercado”, segundo Greenspan.

Permitem o abatimento do IR dos juros nominais, que é um erro elementar, especialmente para pessoas que estavam na faixa de 45% de imposto de renda.

Graças a esse incentivo Keynesiano, não somente o juro real se tornava zero, mas até uma parte da amortização saía de graça.

Para os bancos bastava o tomador não perder seu emprego, e somente 4% o perdiam, que a ciranda funcionava.

Nem entrada seria necessário, o próprio governo pagava a sua casa, ou praticamente 80% segundo meus cálculos.

Mas aí um professor de NY, Daniel Roubini, iraniano e marxista, saiu na imprensa gritando FOGO, afirmando que todos os bancos estavam tecnicamente quebrados, e o pânico ficou disseminado, como no mês passado com o Bitcoin.

Fico feliz que Trump na sua reforma fiscal, reduziu o limite de isenção dos juros nominais para a casa própria, em 25%.

Que somada a inflação de 2008 para cá reduz em 50% esse problema.

Trump não eliminou totalmente esse subsídio, porque o lobby das construtoras e do Partido Democrata, que adora subsidiar o setor, não deixaria.

E a bolha imobiliária está aí novamente como eu previ na época, espero que essa medida do Trump consiga reverter sua explosão a tempo.

Ninguém está dando conta, e se ela estourar também, não haverá QE que salve a economia americana. Isso é muito sério e ninguém está percebendo.

http://www.businessinsider.com/housing-bubble-fed-charts-20…

Para quem está interessado nos princípios da Administração Responsável das Nações eis o que escrevi sobre o assunto em mais detalhe.

https://blog.kanitz.com.br/a-origem-da-crise-mundial/

https://blog.kanitz.com.br/a-crise-keynesiana/

https://blog.kanitz.com.br/culpem-ganancia/

A Little Known Fact, And Good News, About This Crisis
http://www.seekingalpha.com/article/108727

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Juros de 7,5% é Fake News https://blog.kanitz.com.br/fake-news/ Sat, 25 Nov 2017 11:44:01 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=24226   “Juros no Brasil Chegam a 0 %, Poupadores em Pânico.” Essa deveria ter sido a manchete do dia num país administrativamente responsável. Os juros não são de 7,5% ao ano, nem de perto. Isso é Fake News, é propaganda enganosa para que você continue comprando títulos do Governo. Se você comprar títulos do Governo, […]

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“Juros no Brasil Chegam a 0 %, Poupadores em Pânico.”

Essa deveria ter sido a manchete do dia num país administrativamente responsável.

Os juros não são de 7,5% ao ano, nem de perto.

Isso é Fake News, é propaganda enganosa para que você continue comprando títulos do Governo.

Se você comprar títulos do Governo, a primeira coisa que eles descontam são os 20% do Imposto de Renda na fonte. Ou seja, você receberá somente 6% do seu investimento e não 7,5%.

Mas a inflação embutida nesses juros não é juro, é despesa, que vai corroer seu investimento nos próximos 12 meses.

Quanto será a inflação nos próximos 12 meses, que vai corroer esses 7,5%?

NINGUÉM SABE.

Vou repetir, só tem palpiteiros por aí, pode ser de 3%, pode ser 6% ou mais, que é a minha opinião.

Ou seja, os juros que você acha serem 7,5% poderão ser de 0% até 2,5%. Poderá até ser negativo, quem sabe?

Temer está introduzindo finalmente o Capitalismo de Risco, onde vocês renteiros contumazes de títulos sem risco vão ter que investir agora em atividades produtivas.

Para isso, precisamos de uma imprensa responsável noticiando esse novo paradigma.

Há uma enorme diferença entre noticiar “Abaixaram os Juros Para 7% Fixo”, e “Juro provável de 0% ao Ano é Convite Para Investir na Bolsa”, por exemplo.

 

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Nominalismo Econômico: Por Que a Ciência Econômica Não Funciona Abaixo do Equador? https://blog.kanitz.com.br/nominalismo-economico/ Sat, 20 May 2017 10:40:52 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=14120   A ciência econômica tem tido uma série de revezes nos últimos vinte anos. Teorias que explicavam os acontecimentos econômicos perderam seus poderes de explicação. Medidas econômicas que funcionaram no passado deixaram de ser eficazes. Como nenhuma ciência é perfeita, a resposta científica tem sido a de tentar aprimorar as teorias anteriores e criar novas […]

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A ciência econômica tem tido uma série de revezes nos últimos vinte anos.

Teorias que explicavam os acontecimentos econômicos perderam seus poderes de explicação.

Medidas econômicas que funcionaram no passado deixaram de ser eficazes.

Como nenhuma ciência é perfeita, a resposta científica tem sido a de tentar aprimorar as teorias anteriores e criar novas teorias que expliquem as novas condições econômicas do mundo.

A tese proposta neste artigo é a de que o problema é mais grave do que isso.

A tese aqui proposta é que muito desses revezes advém de uma forma equivocada de observar os fatos econômicos.

Ela atinge uma das premissas da ciência econômica, atinge até a própria epistemologia da ciência, a forma dela contabilizar os eventos econômicos.

A boa notícia é que a maioria das teorias econômicas não precisa ser modificada como defendem alguns, mas a má notícia é que exige uma enorme mudança na forma de se observar a realidade econômica.

I. Introdução

Nos últimos 70 anos a ciência econômica tem sido dominada pela escola nominalista de economia, sem saber.

Os nominalistas enxergam os fatos econômicos pelos seus valores nominais.

Mais especificamente, eles usam coordenadas nominais para representarem os dados econômicos.

Isto não impede que descubram valores reais, como o juro real, apesar de usarem de coordenadas nominais.

Mas, explicar o mundo real usando coordenadas nominais gera enormes complicações.

A proposta no final desta série de trabalhos é sugerir que se observe o mundo por um sistema de coordenadas reais, e não nominais.

Isto tem consequências epistemológicas muito curiosas e importantes para análise.

Para o realista, o “juro real” é um pleonasmo.

Para nós realistas, a palavra juros sempre significa juro real.

Se o verdadeiro juro é o juro real, por pura semântica, o juro nominal passa a ser uma ficção, uma mentira.

Se um juro real é o verdadeiro juro, o juro nominal é uma aberração epistemológica, seria o juro irreal, o que não faz o menor sentido econômico.

Mas os nominalistas insistem em dizer o contrário.

Deixarei para outro artigo a questão epistemológica, é algo que vai além deste artigo, um assunto por demais complexo para ser introduzido neste momento.

A atenção nesse artigo será de simplesmente mostrar as consequências nefastas causadas pela visão nominalista ao longo da história econômica, e tentar mostrar aos leigos e principalmente aos estudantes do primeiro ano de economia os erros causados por esta visão equivocada dos fatos econômicos.

Neste artigo vou me ater a um único problema econômico, que afetou mais de trinta países, que causou a década perdida dos anos 80 no Brasil, e que foi a crise da dívida externa de mais de 30 países subdesenvolvidos.

A crise da dívida externa afetou a vida de mais de 1 bilhão de seres humanos, e foi causado exclusivamente pela incapacidade dos nominalistas de enxergarem o mundo pelo seu lado real.

Ao enxergarem o problema pelo sistema de coordenadas nominais, eles apontaram soluções totalmente equivocadas que em vez de resolver o problema nos afastou ainda mais da solução.

Mas esse não foi o único problema causado pelo nominalismo econômico.

A escola nominalista é responsável por muitos outros problemas, muitos que ainda nos afetam hoje, e que serão discutidos num momento posterior.

II. A Crise de 1929

Mais de 5000 livros já foram escritos sobre a crise de 1929, atribuído a dezenas de causas desde a especulação financeira, falta de visão fiscalista Keynesiana, erro na condução de políticas monetárias e assim por diante.

Nenhum dos estudiosos que escreveram sobre o assunto percebeu que o governo americano reduziu os juros nominais até o mínimo de 1%, e nada acontecia para melhorar a economia.

Não reduziram o juro nominal para 0%, porque isto para um nominalista seria um total absurdo.

Mais ridículo seria reduzir os juros nominais para – 11% a ano, algo jamais feito na história econômica.

Para um economista da escola realista não haveria nada de absurdo numa medida dessas, diante de uma perspectiva de deflação de -13% que de fato ocorreu após 1929.

Para o economista realista, política monetária tem que se basear em juros reais, o verdadeiro juro, não em juros nominais, que não são os verdadeiros juros.

A crise de 1929 se iniciou como uma simples recessão como tantas outras que ocorrem de tempos em tempos.

Mas, com a deflação que ocorreu ao longo de 1930, de -13% dependendo do índice que você usar, a encrenca se agravou.

Os juros reais foram inadvertidamente aumentados para 15%, justamente num início de recess.ão, mas o nominalismo dos economistas nào permitiu que percebessem

O que obviamente agravou e aprofundou uma simples recessão para uma depressão com consequências nefastas para o mundo.

Muitos atribuem à ascensão de Hitler, a recessão americana que se alastrou mundo afora.

Aumentar o juro (real) para 15% justamente no início de uma recessão é uma heresia.

Até os economistas nominalistas irão concordar, mas na época ninguém olhava o mundo real, só o nominal.

Por usarem o sistema de coordenadas nominais, os nominalistas não perceberam o crescimento do juro real da economia americana, resultado de uma deflação nos preços.

III. A Crise Mundial da Dívida

Vamos apresentar um problema concreto e observar este problema pelos dois prismas.

Como a escola nominalista analisou a questão, e como o problema teria sido avaliado se tivéssemos usado os princípios do realismo econômico.

Vejamos a questão da crise da dívida externa que afetou mais de 30 países do terceiro mundo.

Os nominalistas observaram os seguintes dados econômicos para tecerem a suas conclusões:

  1. A taxa de inflação nos Estados Unidos sobe para 12% ao ano em 1981.
  2. A taxa de juros (nominais) sobe para 16% ao ano em 1981.
  3. O Patrimônio Líquido dos 8 maiores bancos americanos de US$ 20,3 bilhões em 1981, passa a ser US$ 22,1 bilhões em 1982, um aumento de 6%.

Qual o problema em sua opinião?

Na visão de muitos nominalistas “the dramatic rise in interest rates which raised the cost of debt service substantially”.

Ou seja, segundo todos os economistas do mundo houve um aumento substancial no custo do dinheiro.

Que solução você daria para o Presidente da República do seu país?

Uma solução nominalista, adotada no Brasil por Celso Furtado, foi pedir mais prazo para o pagamento dos juros, negociando uma Moratória de 3 anos, durante a qual os juros seriam acumulados ao capital.

Outra solução nominalista, proposta por Mario Henrique Simonsen era a de tentar negociar um limite de pagamento de juros a 30% das nossas exportações.

Paulo Nogueira Batista Jr. sugeriu limitar o pagamento dos juros para 2,5 % do PIB.

Bresser Pereira tentou negociar um perdão de 30% da dívida, o que reduziria os juros futuros em 30%, e foi expulso pelo Secretário do Tesouro Americano[1].

Economistas mais à esquerda, sugeriam um calote na dívida externa, já que o Patrimônio Líquido dos bancos americanos estava crescendo com a desgraça alheia.

Nesta mesma linha, como a dívida era “impagável”, muitas propostas sugeriam a conversão de dívida em investimentos, o que deu origem à onda de privatizações no terceiro mundo.

Agora vamos olhar este mesmo problema usando o sistema de coordenadas reais, e veja como o diagnóstico muda totalmente.

  1. A taxa de inflação nos Estados Unidos sobe para 12% ao ano em 1981.
  2. A taxa de juro (real) CAI de 4% para 3,5%, como muitas vezes ocorre quando há uma aceleração na inflação. Aplicadores perdem dinheiro por não terem estimado corretamente a inflação futura embutida nos seus títulos e CDBs.
  3. O Patrimônio Líquido dos 8 maiores bancos americanos cai de US$ 20,3 bilhões, para US$ 19,6 bilhões, uma redução de 6%.

O que diferiu na percepção nominalista e realista?

Ambos viram os aumentos de inflação dos preços, que é uma variação real.

Só que a escola nominalista não percebeu que o CUSTO do dinheiro não aumentou, pelo contrário, caiu ligeiramente, tornando a nossa dívida mais fácil de ser paga, e não mais difícil como achava a escola nominalista.

Se quiser, o custo do dinheiro se manteve quase inalterado, novamente nada que tenha deflagrado uma crise.

Dependendo da inflação que se usa, podemos até supor que o juro real aumentou para 4,5%, um aumento de 0,5%, e ainda teríamos um juro baixo, mais do que razoável e perfeitamente sustentado para um país em desenvolvimento.

Portanto, não houve um aumento insustentável do CUSTO do dinheiro, nem sinais de incapacidade de pagar o juro rea.

O que se tornou insustentável era o pagamento do juro nominal, que do ponto de vista econômico sequer era juro.

Por que então, estes economistas não propuseram pagar os juros até o limite do juro real, em vez destas fórmulas malucas de 30% das exportações ou 2,5% do PIB?

Do ponto de vista financeiro, ou de fluxo de caixa, a dívida de fato ficou mais difícil de ser paga devido ao uso de juros nominais, os juros tão queridos pela escola nominalista, porque elas embutem uma inflação maior.

Mas novamente, inflação não é juro, é inflação.

Como investidor você compraria um título que limita o pagamento a 2,5% do PIB brasileiro, ou 30% das exportações? Como seria feito este rateio?

Por outro lado você compraria um título que oferecesse um juro real pré-determinado?

A maioria dos administradores financeiros do Brasil está cansada de comprar títulos com IGP mais uma taxa pré-determinada, como 6% da caderneta de poupança de antigamente.

Queda no Patrimônio Líquido dos Bancos Internacionais

O mais importante é que nenhum economista do mundo observou esta “estranha” queda do Patrimônio Líquido dos Bancos Americanos, porque em termos nominais não há queda alguma.

Só quando se usa o realismo e suas coordenadas reais é que se percebe esta anomalia.

Neste caso, quem é parcialmente culpado são os contadores americanos.

Nos Estados Unidos, como no Brasil após 1994, os contadores americanos não corrigem o Patrimônio Líquido de seus balanços e demonstrações financeiras.

Antes de falar mais sobre esta questão, eu vou ter que introduzir mais um conceito nominalista, que é praticado por todos os bancos centrais do mundo, que é o limite estabelecido pelo órgão controlador dos bancos.

Trata-se do limite de endividamento bancário, atualmente chamado de Capital Adequacy Ratio.

A maioria dos Bancos Centrais do mundo estabelecia na época um limite de endividamento de 10 a 12 vezes o Patrimônio Líquido do banco. Bancos poderiam emprestar “x” vezes o seu patrimônio, mas não mais do que isto.

Isto era um forte limitador para o crescimento de um banco, e uma das razões pela qual os bancos perseguem lucros com uma intensidade muito maior do que os demais setores da economia.

Muito está em jogo.

Um banco que tem um lucro de 1 bilhão de dólares poderá fazer novos empréstimos no total de 10 bilhões ou 12 bilhões de dólares, uma enorme diferença. Uma empresa só pode reinvestir o lucro do ano.

Um banco com patrimônio de US$ 20 bilhões poderá emprestar no máximo US$ 240 bilhões, se o Capital Adequacy Ratio for de 12 para 1, ou 8% dependendo de como se calcula, de baixo para cima ou de cima para baixo.

“Bancos Comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido” seria um exemplo desta regra adotada por quase todo país que tenha o BC regulador.

Existe algo fundamentalmente errado nesta regra bancária, e é um bom momento para o leitor testar se é um nominalista ou um realista. Qual o erro fundamental nesta frase? Dica: lembre-se da inflação americana de 1981 de 12%.

Os realistas percebem o seguinte absurdo na regra, que eles leem da seguinte forma:

“Os bancos comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido, corroída pela inflação acumulada desde o seu aporte.”

Como não existe correção dos valores contábeis nos Estados Unidos e nem no Brasil após 1994, um realista percebe de imediato o que está ocorrendo, um nominalista não.

Um nominalista acha que o patrimônio continua igual, já que os valores nominais permanecem inalterados.

Reduzir o patrimônio contábil de um banco pela inflação do ano é um absurdo monumental.

Primeiro, porque o patrimônio real do Banco não deve ter caído na vida real, já que ele deve ter se valorizado pela mesma inflação.

Muitos nominalistas no Brasil, na época da inflação de 2 dígitos ao ano, incluíram a “correção monetária do patrimônio dos bancos”, na regra do Banco Central Brasileiro.

“Os bancos comerciais não poderão emprestar mais do que dez vezes o seu patrimônio líquido, corrigido pela inflação acumulada desde o seu aporte.”

Se os negociadores da dívida externa tivessem lutado para substituir a regra nominalista por esta acima, em vez de lutar pela moratória, limitação, perdão e conversão da dívida, não teríamos a crise da dívida externa do terceiro mundo.

O mais assustador é que agora o leitor percebe que ela nunca foi uma crise de dívida externa dos países do terceiro mundo. Ela teria sido chamada “A crise do patrimônio líquido dos Bancos do Primeiro Mundo.”

A crise do patrimônio líquido dos Bancos do Primeiro Mundo

Vejamos o que realmente ocorreu.

Somente os 8 maiores bancos americanos tiveram seu patrimônio nominal reduzido em 600 milhões de dólares, que multiplicado por 12 dá US$ 7,2 bilhões, equivalente a 12% dos seus empréstimos aos países subdesenvolvidos.

Isto obriga os Bancos a chamarem de volta, 12% de todos os seus empréstimos, igual à taxa de inflação, antes do tempo acordado.

Como os juros assinados pelos economistas nominalistas eram, em parte, flutuantes, a devolução se fez via juros, não via amortizações

Os bancos pararam de financiar o crescimento dos países emergentes, que cresciam em média 8% ao ano, e começaram a recolher os empréstimos em termos reais.

Ou seja, de um ano para o outro tivemos uma mudança de direção da ordem de 20%.

Em dois anos, foi de quase 40%. Óbvio que surgiu uma enorme crise, mas não de dívida e sim causada pelo patrimônio dos bancos não reavaliados pela inflação de seus próprios países.

Segunda Fase, Write Off patrimonial.

Graças a economistas como Celso Furtado e sua campanha de moratória, os bancos começaram a ser pressionados pelos acionistas e depositantes a se livrarem de nossas dívidas.

No ano seguinte, estes 8 maiores bancos fizeram um “write off”, de US$ 1,2 bilhões de dívidas de crédito duvidoso. Até o Papa dizia que nossa dívida que custava somente 4,5% ao ano, era impagável.

Multiplique US$ 1,2 bilhões por 12, e temos mais US$ 14 bilhões de empréstimos que precisam ser recolhidos para que a regra bancária seja cumprida, só num único ano.

Lembre-se: “Toda redução no patrimônio de um banco, requer o recolhimento de 10 vezes o montante em empréstimos.” Uma enorme bola de neve foi colocada em movimento, e levou 20 anos para ela parar de rolar.

Aliás, nem parou ainda.

Até hoje, e desde 1994 no Brasil, os bancos internacionais só podem emprestar “x” vezes o seu patrimônio corroído anualmente pela inflação.

Em 2004, os bancos americanos tinham um patrimônio consolidado de US$ 600 bilhões, que os possibilita emprestarem US$ 7 trilhões.

Qual seria estimativa do patrimônio dos bancos americanos em 1981, 20 anos atrás, numa economia madura, onde o setor bancário não cresceu tanto, justamente por causa destes problemas todos?

Se você estimou US$ 400 bilhões ou US$ 300 bilhões, você estaria correto, mas os valores nominais apontam hoje para somente US$ 118 bilhões, porque boa parte do patrimônio dos bancos foi corroída pela inflação do período.

Corrigindo os US$ 118 bilhões teríamos um valor de US$ 350 bilhões, dos quais US$ 230 bilhões, evaporou. Em somente 20 anos, economistas nominalistas destruíram a capacidade de empréstimos dos bancos americanos em nada menos que US$ 2,9 trilhões.

Pior, nenhum economista do mundo menciona este fato nos mais de 500 livros escritos sobre a dívida externa, nem mesmo os economistas brasileiros que conheciam correção monetária dos balanços, que há muito era uma prática adotada por todo contador brasileiro.

Obviamente que esta redução do montante de empréstimos não foi equitativa em 12% de toda a base de clientes.

O Agravamento da Crise

Devido a economistas como Celso Furtado e a sua campanha de moratória, os bancos decidiram manter seus empréstimos para as grandes empresas americanas, sacrificaram um pouco as pequenas e médias empresas, e concentraram o grosso do recolhimento aos seus empréstimos externos, a países como o Brasil.

Tanto é que em 1981 aumentou o número de falências e concordatas nas pequenas e médias empresas americanas em 42%, a maior taxa em 20 anos.

Mas quem mais sofreu fomos nós, em vez de termos uma redução de 12%, os bancos nos reduziram em 100%, venderam nossos títulos no mercado secundário a brasileiros, e fim de papo.

Ou seja, o problema não tinha nada a ver com o Brasil, Argentina, Colômbia, Filipinas e outros países que tiveram que pedir socorro ao FMI.

Até hoje, você pode consultar a Internet e achar centenas de teses de economistas nominalistas discutindo o problema dos “países super endividados”. Vejam este exemplo:

The International Debt Crisis

Ken S. Ewert

Once there was a man with a large sum of money.

He decided to lend a considerable portion of it to a man from a faraway country who offered him a high rate of return. But the foreigner wasted some of the money in riotous living, he was careless and allowed some of the money to be stolen, and what he did invest soon soured because of his poor investment skills.

It wasn’t long before he had trouble making the payments on his debt.

The lender saw the debtor’s poor stewardship, but not wanting to admit his own mistake in lending to the man, lent him still more money in the hopes that the debtor would begin to prosper.

But the debtor continued his thriftless ways, and the lender soon found himself in serious financial trouble.

This simple story describes, by analogy, what economists call the “world debt crisis.”

In our parable, the lender symbolizes the several large commercial banks (American, Japanese, and European) which made substantial international loans during the 1970s and early 1980s, and the debtor represents countries such as Brazil, Mexico, and other less developed countries (LDCs) which borrowed heavily during that period.

Most people understand this story as far as it goes – how the international debt problem happened. But most of us are still in the dark as to why it happened, and how this crisis is likely to be resolved.

“A culpa é dos bancos gananciosos”, diz o comentário acima, “dos ministros econômicos irresponsáveis que tomaram empréstimos sem intenção de pagá-los”, e admite no final que ninguém sabe o que aconteceu.

Pelo menos agora, você leitor tem uma melhor ideia.

Pela análise acima fica claro que a questão não era de super endividamento.

O problema era de sub-capitalização dos bancos internacionais, gerados por uma regra nominalista de não corrigir os balanços dos bancos americanos pela inflação acumulada.

Os bancos foram obrigados a puxar o tapete por uma regra do banco central de seus países.

Por que ninguém percebeu isto antes?

Não posso responder esta questão.

Na maioria dos anos a taxa de rentabilidade dos bancos e do crescimento do seu patrimônio era positiva em termos reais, já que a rentabilidade era muito maior do que a inflação do período.

Ou seja, o problema nunca chegou a reduzir o patrimônio líquido real dos bancos, embora reduzisse a sua taxa de crescimento.

Muitos economistas nominalistas, e conversei com todos nestes últimos 30 anos, alegam que os próprios juros nominais superestimam a rentabilidade dos bancos, o que é verdade.

Um juro nominal superestima a rentabilidade de um banco, razão pela qual os economistas ligados a bancos, na sua maioria, são ferrenhos nominalistas.

Mas tem um detalhe, se não existissem impostos nem distribuição de dividendos, não haveria, de fato, muita diferença entre a visão nominalista e a visão realista, nesta questão específica.

A rentabilidade superestimada da visão nominalista compensaria exatamente na mesma proporção a erosão inflacionária do patrimônio líquido dos bancos.

Infelizmente, o imposto de renda americano também é nominalista, e a maioria dos bancos distribuiu 50% do lucro (nominal) como dividendos, já descontado de 50% de impostos.

É por isso que o patrimônio dos bancos em 1981 teve uma queda gigantesca de 6% num único ano.

Com base nesta análise, você lutaria por uma moratória?

Uma moratória que levaria a maioria dos bancos conservadores a fazerem um imediato write off de sua dívida, deprimindo ainda mais o patrimônio dos bancos?

Foi o que vários economistas fizeram e continuam querendo fazer, em vez de lutarem pela mudança nas regras dos bancos centrais.

Em vez do “Fora o FMI”, você lutaria para modificar a regra de endividamento bancário do banco central americano?

Exigir algo do tipo: “os bancos comerciais poderão a partir de agora emprestar até o limite de doze vezes o seu patrimônio líquido corrigido pela inflação americana.”

Você tentaria negociar o limite de juros nominais até 30% das exportações brasileiras, ou tentaria negociar o pagamento dos juros reais ano ao ano, e transferir a parte nominal dos juros (nominais) ao saldo da dívida a ser paga ao longo da duração do contrato?

A proposta com base na escola realista da renegociação da dívida externa brasileira se encontra num outro artigo acessível neste mesmo site.

O Brasil acabou optando pela moratória, e em nenhum momento exigiu essas mudanças na legislação bancária americana.

Para a maioria dos investidores americanos, o Brasil simplesmente deu uma de caloteiro e pagamos o preço até hoje.

Pior, em nenhuma das infinitas negociações da dívida externa feita por economistas como Pedro Malan, se abordou a necessidade de mudar a regra branca americana para uma visão realista.

Para piorar a situação, economistas da escola nominalista americana e europeia começaram a exigir novas regras de endividamento bancárias mais rígidas e mais restritivas, para impedir os bancos de fazerem empréstimos novamente a países caloteiros como o Brasil.

Foi aí que surgiu o movimento dos Acordos da Basiléia, que são acordos nominalistas e que agem exatamente no sentido contrário do que está sendo apresentado aqui.

Depois de 1981, os bancos americanos começaram a entrar em decadência, pelas razões expostas.

Limitados na sua capacidade de crescer devido a uma regra nominalista equivocada, os bancos americanos perderam seu lugar para os bancos japoneses que não tinham essa cláusula restritiva.

Lá se pode corrigir o patrimônio pela valorização imobiliária dos seus ativos, que levou a uma outra encrenca.

Os bancos americanos perderam a sua capacidade de fazer empréstimos, chamados on-balance, e passaram a inventar métodos de fazerem empréstimos off-balance, empréstimos que não apareciam nos balanços e não entravam na regra nominalista.

Os Acordos da Basileia de 2004, foram redigidos para corrigir estes abusos, um bom exemplo de como um erro, leva a outro erro, que é corrigido erroneamente, e que nos afasta cada vez mais do erro original.

Quem acredita na teoria do Caos, outro erro semântico pois não tem nada haver com caos mas sim como um fato pequeno no início da simulação e pode gerar consequências enormes no final.

A tal batida de asa de borboleta no Amazonas que gera um tufão na Índia.

Por causa deste absurdo contábil, os bancos do mundo inteiro começaram a inventar uma série de derivativos, um mais maluco que o outro. Começaram a sair do ramo de empréstimos bancários propriamente ditos, e a entrar no ramo dos mais variados serviços.

Pior ainda, começaram a lentamente a esquecer toda a tecnologia de análises de crédito, e assim aumentamos o risco e os defaults por empréstimos mal concedidos. Vide Enron.

Hoje, a maioria dos “empréstimos” é feita por fundos de pensão sem a menor estrutura de análise de crédito.

Os “empréstimos” se tornaram compra de debêntures, baseados na avaliação de duas empresas precárias em termos de capacitação de análise de crédito, a Standard & Poor´s e a Moddy´s.

Em vez de termos 10.000 departamentos de análise de crédito, um por fundo de pensão pelo menos, criamos dois sistemas Caixa Preta, porque nem a Standard & Poor´s nem a Moody´s revelam-nos detalhes como elas avaliam os riscos de todo mundo.

Foi assim que os Bancos Comerciais perderam espaço para os grandes Bancos de Investimento, que inventaram os malfadados “junk bonds” que tantos problemas geraram na década de 80 e 90.

O “junk bond” era vendido para fundos de pensão e não mais para bancos, porque um fundo de pensão não tem o limite de endividamento estabelecido pelo Banco Central.

Colocado de outra forma, na versão da economia realista, o fundo de pensão pode emprestar uma vez o seu capital, e este capital é naturalmente corrigido pela inflação, porque no fundo de pensão não há impostos nem distribuição de dividendos.

Só que com o movimento de “junk bond” perdeu-se a capacidade de análise de crédito que os Bancos Comerciais usavam rigorosamente nos seus empréstimos. Os 10.000 analistas de crédito demitidos pelos bancos não foram contratados pela Standards & Poor´s.

Nenhuma essas empresas de “credit rating” sequer fazem os ajustes necessários nos balanços das empresas e dos bancos para transformar a visão nominalista em uma visão realista. Ao perceberem que o Patrimônio Líquido dos bancos não estava acompanhando o crescimento real da economia, começaram a rebaixar os conceitos creditícios dos bancos internacionais, piorando ainda mais a bola de neve.

Por exemplo, já é fato comum, de que a indústria de aviação não realizou lucro desde a sua concepção, 60 anos atrás.

Que somando os prejuízos com os poucos lucros que obtiveram não se tem superávit sequer ao longo de seis décadas.

Isso deveria soar absolutamente errado para a maioria das pessoas, e a primeira reação a este dado é de descrença.

Esta intuição inicial das pessoas é correta, temos mais um erro de observação do nominalismo econômico.

As indústrias de aviação, como as demais indústrias, lançam a totalidade do juro nominal como despesa, ao invés de lançarem como despesa somente o juro real, que é o verdadeiro juro.

Ou seja, superestimam as despesas sem lançar as receitas da correção dos ativos pela mesma inflação do ano.

Ou seja, a inflação que está embutida nos juros nominais acaba não sendo excluída e esta é uma das razões destes prejuízos.

Como isso não é feito, as empresas de credit rating baseadas em informações incorretas, abaixam o rating, que aumenta a taxa de juros das empresas de aviação e que dificulta ainda mais a obtenção de lucros.

A dificuldade de convencer os economistas nominalistas deste erro é para mim intrigante.

É muito difícil convencer um economista nominalista a jogar fora tudo que já escreveu na vida, jogar fora tudo que estudou na vida, jogar fora o seu PHD, o seu mestrado, os seus anos de assessor de um governo onde presidiu o Banco Central.

Imaginem a reação da imprensa ao descobrir que uma equipe médica que está há mais de 60 anos tratando um paciente com uma febre inexplicável, ser surpreendido por um estudante de medicina que descobre que o termômetro usado é que estava mal calibrado.

Os próprios jornalistas, a maioria dos quais já escreveu páginas e mais páginas de notícias equivocadas baseadas na visão nominalista, serão os últimos a quererem admitir o que fizeram.

Se você caro leitor se convenceu, pelo menos em parte, do que foi escrito aqui, é provavelmente por que você ainda é um estudante de economia com menos de 22 anos, ainda não impregnado com a doutrina nominalista, e portanto aberto a alternativas do mantra hegemônico.

Infelizmente, são assim que as ideias são propagadas.

Não pela livre discussão de ideias, onde adultos equivocados dão a mão à palmatória e se convertem às melhores idéias apresentadas pelos seus colegas de profissão.

No ramo acadêmico, infelizmente isso não existe, somente no ramo empresarial. A maioria dos empresários não tem o menor prurido de copiar uma boa ideia. O intelectual acadêmico prefere morrer a admitir que estivesse errado.

Portanto, o mundo depende de jovens como vocês ainda não influenciados pelos erros das velhas gerações.

Vocês que ainda estão na fase de querer observar e entender este mundo maluco que é ensinado na academia.

Pense em tudo que foi escrito, converse com seus colegas, descubram outras implicações do que foi dito, escrevam sobre alguma falha minha, para mim de preferência, e espalhem a verdade para que o Brasil possa sair desta encrenca.

[1] O governo americano teria um prejuízo de metade deste valor, devido ao crédito de Imposto de Renda que este maciço write desligado causaria para o Tesouro Americano. Como a dívida somente seria paga em digamos 20 anos, o valor presente deste desconto de 30% exigido por Bresser, resultaria num abatimento efetivo de somente 2,5% para o Brasil. “Vocês ganham 2,5%, e nós perdermos 15%, vocês não sabem é fazer conta. Terminada a negociação.” De fato, fazer contas não era o forte de Bresser Pereira.

[2] A resposta seria porque este é o verdadeiro custo do dinheiro, este é o verdadeiro juro segundo qualquer escola econômica que se queira escolher.

 

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Por Que Economistas e Jornalistas Mentem Sobre Esses 12,25% de Juros? https://blog.kanitz.com.br/economistas-e-jornalistas-mentem/ Tue, 21 Mar 2017 08:29:30 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=20879   Tempo de leitura: 1 minuto Economistas conhecem muito bem o termo “juro real” . Significa o verdadeiro juro, aquele que você realmente ganha numa aplicação, descontada a inflação futura que é uma despesa. Todo economista sabe muito bem que os 12,25% não são juros reais. São juros irreais. Mas pelas razões que vou explicar, […]

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Tempo de leitura: 1 minuto

Economistas conhecem muito bem o termo “juro real” .

Significa o verdadeiro juro, aquele que você realmente ganha numa aplicação, descontada a inflação futura que é uma despesa.

Todo economista sabe muito bem que os 12,25% não são juros reais.

São juros irreais.

Mas pelas razões que vou explicar, eles os denominam de “juros nominais”, apesar de não serem juros.

São a soma de juro mais inflação futura.

Em vez de publicarem 12,25% deveriam publicar 5% de juros incertos, dependendo da inflação futura.

Deveriam publicar algo como 5% + – 2%, variando para mais ou para menos, dependendo das possibilidades da inflação futura.

Você poderá ganhar 3, 4 ,5, 6, 7%, só Deus sabe, com 95% de probabilidade.

E ainda tem 5% de probabilidade de nem isso ser.

Honestamente, você compraria títulos públicos sabendo que vão pagar só 5% que podem virar 3% ou 4%?

Ações que dão dividendos de 3% são mais seguras, têm lastro real, e valorizam mais.

Por isso eles têm que mentir.

Mentir dizendo que você vai ganhar três vezes mais.

Te enganam dizendo que 12,25% é juro, mas não é. É Fake Economics.

Quando me acusam de ser muito crítico de economistas, me apontando que existem os economistas bons como existem os administradores ruins, eu fico procurando esses economistas bons, mas não acho.

Todos usam o termo “juro nominal”. Ou pior, simplesmente “juro” ou Selic, que nunca foi juro.

Só para facilitar a vida dos banqueiros e do Tesouro a colocar seus títulos podres, mentindo.

Entenderam a jogada?

 

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Nominalismo e a Crise da Dívida Externa https://blog.kanitz.com.br/nominalismo-e-crise-da-divida-externa/ https://blog.kanitz.com.br/nominalismo-e-crise-da-divida-externa/#respond Tue, 14 Mar 2017 12:59:00 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=14151   A prática nominalista de embutir indiretamente a inflação do país emprestador nas taxas de juros, em vez de embuti-la nas amortizações, foi uma das principais causas do ingente problema da dívida externa do Brasil. (Este artigo foi escrito originalmente em 1984, e foi responsável pela minha ida ao governo em 1986. Eu atualizei o […]

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A prática nominalista de embutir indiretamente a inflação do país emprestador nas taxas de juros, em vez de embuti-la nas amortizações, foi uma das principais causas do ingente problema da dívida externa do Brasil.

(Este artigo foi escrito originalmente em 1984, e foi responsável pela minha ida ao governo em 1986. Eu atualizei o artigo para os dias de hoje, e acrescentei algumas anotações históricas ocorridas desde então. Assim, mantive o valor predito do artigo que previu uma série de acontecimentos que de fato ocorreram, sem tornar o artigo desatualizado ou datado a uma época que muitos não presenciaram.)

O erro do nominalismo econômico fica absolutamente claro na Crise da Dívida Externa de 1981.

Bastaria um exercício intelectual que cada negociador aprende a fazer, de inverter as posições.

Suponhamos que a Tennessee Valley Authority (TVA), a única estatal norte-americana, tivesse tomado um empréstimo de 90 bilhões de reais, na época cruzeiros, de banqueiros brasileiros para construir uma usina nuclear, nos moldes dos contratos adotados pelos nominalistas (Quadro 1).

Os padrões de observação dos nominalistas, aliados à taxa de juros nominal na época de 99%, ao ano, levariam a um pagamento de juros nominais no total de: 89,1 bilhões de reais ao final do primeiro ano do empréstimo – um pouco menos que o total do empréstimo original, um absurdo.

Como as nossas hidroelétricas, que estavam sendo construídas, a TVA estava ainda no período de carência do financiamento hipotético, período em que a obra está ainda em construção e portanto não possuía renda própria.

Na impossibilidade de pagar estes juros nominalistas, a TVA seria forçada a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para um empréstimo de emergência.

Os economistas do FMI concluiriam que a TVA, obviamente, estava gastando demais e ganhando ou “exportando” pouco, e aconselhariam os diretores da companhia a reduzir suas “importações”, cortar os salários, despedir 15% dos empregados, diminuir os programas de educação técnica e, culminariam com o absurdo de propor ao Governo Americano reduzir a inflação americana na época por volta dos 4% ao ano para 0,5 por ano em dezembro de 1984 – exatamente as mesmas medidas que o FMI impôs ao Brasil.

QUADRO1 Empréstimo jumbo de 90 bilhões de cruzeiros

 quadro1

A imprensa americana ficaria enfurecida com a afronta à soberania dos Estados Unidos e os pedidos de moratória, vindos dos deputados e senadores democratas, e irritariam sobremaneira os banqueiros brasileiros.

A Primeira Ministra Margaret Thatcher sairia a público dizendo que a TVA deveria arcar com as consequências, e o prêmio Nobel de Economia Milton Friedman, iniciaria uma campanha contra o Fundo Monetário e a imprensa brasileira, noticiando a corrupção da diretoria da TVA, a incapacidade administrativa dos executivos americanos e a moleza inerente do povo norte-americano.

Obviamente, alguma coisa está errada com a análise feita pelo FMI e o prêmio Nobel de Economia Milton Friedman.

O erro é a visão nominalista.

O problema neste cenário hipotético nada tem a ver com a diretoria da TVA, nem com a sabedoria de seus investimentos mas, neste caso, exclusivamente com a inflação brasileira, que estaria embutida nas taxas de juros nominais, pactuadas por ambas as partes no contrato de financiamento.

Este exemplo, torna bem claro que o problema na época não era a falta de previdência brasileira mas, exclusivamente, os juros da escola nominalista de economia.

O Prime Rate nos Estados Unidos, principal fonte do capital emprestado ao Brasil, também atingiu dois dígitos em 1981, embora nunca tivesse chegado aos 99% deste nosso caso hipotético.

Mas não há limite de dois dígitos abaixo do qual as taxas são toleráveis e acima do qual as taxas são intoleráveis. Os juros americanos alcançaram 17% em 1981.

Nós, brasileiros, fomos vítimas de um sistema internacional de financiamento criado numa época em que os países não possuíam uma inflação muito acentuada, o que não ocorre hoje.

Por isto, mantiveram a visão nominalista de observar e precificar os fatos econômicos.

Até hoje, livros de economia americanos definem o juro real como a taxa nominal subtraída da inflação, um menos o outro, e não o cálculo mais aprimorado que requer uma divisão.

A prática nominalista de embutir indiretamente a inflação do país emprestador nas taxas de juros, em vez de embuti-la nas amortizações, foi uma das principais causas do ingente problema da dívida externa do Brasil.

A mesma análise se aplica a dezenas de outros países em desenvolvimento da época, que também tiveram problemas. A pior recessão mundial pós-guerra e a crise financeira internacional foram causadas por uma falácia nominalista.

Os nominalistas da época acharam que se propagara uma crise de burrice coletiva entre os bancos centrais de 30 países ao mesmo tempo, e não perceberam que todos os países eram vítimas da única coisa comum entre eles: o nominalismo da economia americana.

Em 1986 fui convidado pelo governo Sarney a tentar implantar um sistema de financiamento internacional baseado em taxas de juros reais, mantendo o poder de compra das amortizações, vale dizer, do principal.

A tentativa foi parcialmente bem sucedida, vide no www.kanitz.com.br o Editorial da Revista Euromoney, a mais influente na época em financiamentos internacionais.

Este editorial gerou interesse do Tesouro Americano, que criaram o TIPS, com juros reais pré-determinados.

Como reconheceu tardiamente um banqueiro americano, se os juros em 1980 tivessem chegado a 100% eles teriam levado o mundo à falência.

Mas como somente chegaram aos 20%, os nominalistas não perceberam o erro de sua posição epistemológica.

O erro da Moratória

O Brasil não precisava de uma moratória para resolver os seus problemas financeiros.

Embora tal fato fizesse um bem danado para o amor próprio da nação, seria péssimo para o futuro financeiro de nossos filhos, como de fato foi.

As simulações que fiz da Proposta de Moratória do economista Celso Furtado, mostraram que a moratória seria uma solução de muito curto prazo e em 1992 estaríamos de volta às portas do FMI.

A moratória mantinha a visão nominalista, a causadora do problema original.

Uma moratória seria também um reconhecimento público da nossa incapacidade de pagar os juros da dívida, e isto, simplesmente, não era verdade.

Infelizmente, Celso Furtado acabou influenciando economistas como João Sayad e Paulo Nogueira Batista Jr. e a moratória acabou sendo decretada em 1987.

A equipe que eu estava coordenando no Ministério do Planejamento, e que com base no editorial da Euromoney estava conseguindo todo o interesse de fundos de pensão americanos, teve seu trabalho ceifado.

A moratória trouxe nefastas consequências para o Brasil.

O risco Brasil subiu para nunca mais baixar pelos próximos 20 anos.

O Brasil estava em dia quanto ao pagamento de seus juros reais, mas Celso Furtado e os demais economistas da escola nominalista, não percebiam isto.

O problema é que o sistema financeiro internacional ainda não funciona com base em juros reais, mas sim com base em juros nominais, mais corretamente, juros irreais (Quadro 2).

Somos vistos hoje na história financeira do mundo como uns caloteiros, quando na realidade fomos vítimas de um sistema financeiro internacional tecnicamente obsoleto.

Para que pedir uma Moratória e mais tempo para que possamos adaptar a nossa economia, quando quem precisa se adaptar à nova realidade internacional são eles?

A razão pela qual o Plano FMI não foi viável e a moratória não resolveu a situação como achavam estes nominalistas, é que ambos atacaram o problema errado.

As simulações (em anexo) do Plano FMI, do Plano Celso Furtado e outros, que pedem uma moratória de 3 a 5 anos, mostram claramente sua ineficácia do ponto de vista técnico e político.

 

 quadro2

Para resolver o impasse financeiro criado pelos juros irreais, erroneamente chamados nominais, propusemos as seguintes reformas para o mercado financeiro internacional. Estas propostas resolveriam não somente o problema do Brasil mas de todos os países em apuros:

Proposta n° 1: Juro Nominal não é Juro, é a soma de duas incertezas.

Ponto 1. A taxa de juros não deve refletir a inflação internacional. Países devedores não podem se comprometer a pagar taxas de juros reais desconhecidas. O sistema correto é termos contratos com juros reais pré-determinados.

Paul Volker era na época o Presidente do FED, e ele deu o seu apoio a este plano justamente porque a proposta admitia pagar os juros reais de mercado. Era segundo ele, uma solução de mercado, e nada tinha a ver com as soluções intelectualoides de pagar somente 30% das exportações brasileiras, por exemplo.

O apoio acabou sendo tão generoso, que fiquei até preocupado.

Mas Volker estava simplesmente querendo reduzir os juros americanos, e via esta tentativa brasileira como um boi de piranha, para eles lançarem o que acabaria sendo o TIPS.

Se o governo americano tivesse tomado esta iniciativa, os nominalistas estariam acusando Volker de introduzir a indexação nos Estados Unidos.

Um país estrangeiro como o Brasil estaria livre de tal absurda acusação. Volker estava correto na sua estratégia.

A inflação americana assim eliminada, seria paga, mas somente no momento certo.

Ela seria paga no momento da amortização da dívida, normalmente feita em parcelas que variam de 5 a 10 anos.

Pelo gráfico acima, percebe-se que os juros reais subiram de 3% para 4,5% enquanto os juros nominais subiram de 6% para 21%.

Do ponto de vista dos economistas realistas, um juro real de 4,5%, por um único ano somente, o de 1981, era facilmente absorvido e pagável, COMO DE FATO FOI.

O absurdo foi seguir a cartilha do nominalismo econômico.

Ponto 2. 0 Brasil pagaria além de um juro real, um juro adicional para cobrir esta diferença entre o juro-nominal e o juro-real, que denominaríamos juro-relativo-à-inflação, e que seria exatamente a taxa de inflação americana, determinada por algum índice combinado entre as partes.

Poderia ser o Consumer Price Index, o Wholesale Price Index ou a variação de preço de algum dos produtos que o Brasil exporta.

Esta solução resolveria a encrenca brasileira da Correção Monetária, tão atacada pelos nominalistas brasileiros, pois seria impossível introduzir o conceito de correção monetária nos Estados Unidos.

Em vez de se criar uma nova moeda, simplesmente defini correção do principal como sendo mais um juro a ser pago, o juro-inflação.

Nenhuma alteração contábil é necessária, somente mais uma rubrica de despesas de juros.

Este juro-inflação seria pago juntamente com as amortizações e a soma dos dois juros propostos, o juro-real e o juro-relativo-à-inflação, teoricamente seria idêntico ao juro nominal cobrado atualmente de uma vez só.

Os bancos e investidores estariam recebendo o mesmo juro, só que desdobrado em seus verdadeiros componentes. E com uma grande diferença.

O juro real seria conhecido previamente.

Os banqueiros internacionais não teriam nada a temer de um plano destes quanto à sua futura rentabilidade, uma vez que eles continuariam a cobrar taxas de intermediação fixas, acima da taxa de juros.

Só que agora seriam acima de taxas reais e não nominais. Inclusive, é fácil demonstrar que a lucratividade dos bancos iria até aumentar na medida que a dívida não é mais corroída pela inflação.

As projeções financeiras destes dois pontos iniciais mostram que somente esta medida já eliminaria a necessidade de pedir empréstimos emergenciais do FMI e nos devolveria as reservas internacionais de que tanto precisamos.

Quando escrevi a primeira versão deste artigo em 1984, usei pela primeira vez o novo programa de planilha eletrônica Visicalc, que possibilitava fazer simulações enormes, de 40 anos como esta da Dívida Externa, e testar as hipóteses mais malucas.

Como por exemplo, como ficaria a situação se os juros reais se mantivessem como estavam na época, mas a inflação despencasse para zero.

Nenhum pesquisador em sã consciência iria simular à mão uma hipótese absolutamente improvável como inflação zero nos Estados Unidos por 40 anos.

As planilhas eletrônicas mudaram isto, e permitiram a economistas e pesquisadores testarem as hipóteses mais malucas, em segundos.

Eu simulei inflação zero nos Estados Unidos, por erro de digitação, como tantas vezes ocorre na Ciência.

E para minha surpresa, nessa simulação sumiam os empréstimos de emergência necessários do FMI. Ou seja, o problema não era a DÍVIDA, nem os juros, era a inflação americana embutida nos juros.

O problema era o nominalismo econômico, que seria facilmente resolvido introduzindo-se o realismo econômico, sem termos de exigir sacrifícios da população brasileira, nem concessões dos banqueiros americanos.

Era somente precificar os juros corretamente.

O Brasil não estava atrasado em seus pagamentos de juros reais na época.

O sistema financeiro internacional é que estava atrasado na sua teoria contábil em regimes de inflação.

Os economistas do FMI, e nossos nominalistas também, estavam lançando amortizações da dívida na nossa conta de lucro e perdas o que é um erro contábil e econômico de primeira grandeza.

Amortização não é despesa, é redução do passivo da empresa ou do país.

Colocado de outra forma, para quem entende o mínimo de contabilização de dados econômicos, estavam lançando as despesas nominais de juros, mas não estavam reconhecendo a receita “não realizada da corrosão da nossa dívida” pela inflação americana.

Proposta 2: Uma forma de reduzir os juros reais

O segundo problema que o Brasil enfrentava e enfrenta refere-se à elevada taxa de juro-real do mercado atual.

Além dos juros nominais estarem elevados porque incorporam a inflação americana, também os juros reais estão elevados devido ao deficit do tesouro americano e a instabilidade e insegurança do mercado financeiro internacional.

Por isto, o investidor exige uma taxa de juros mais elevada para investir num banco que empresta para o Brasil do que se investisse em Letras do Tesouro Americano.

Só o agiota está disposto a emprestar ao Brasil – dado o clima de insegurança reinante – e cobra caro pelo seu risco.

Não temos dúvida que a implantação dos dois primeiros pontos já contribuiria para reduzir o clima de insegurança e, por conseguinte, as taxas de juros.

É só analisar as projeções financeiras da Proposta 1 apresentada. Mas podemos reduzi-los ainda mais. Como?

Ponto 3. O Brasil garantirá um juro real positivo, à taxa que for combinada entre as partes.

Hoje, o investidor americano não possui este tipo de garantia além do TIPS que foram introduzidos em 1990.

Obviamente o Brasil irá cobrar caro por esta garantia, sob a forma de oferecer juros-reais-garantidos muito inferiores aos juros reais esperados.

Um investidor somente conhece o juro real depois de transcorrido o período de aplicação e por isto o chamamos de juros-reais-esperados, erroneamente denominados de pós-fixados pelos nominalistas.

Na realidade o que o mercado quer é juros reais pré-fixados, ou seja garantidos.

Esta insegurança quanto à remuneração, obviamente eleva a taxa de juros para o Brasil.

E o Brasil paga este ágio à toa.

As taxas de juros reais no mercado internacional estão por volta dos 4,0%, enquanto a média histórica tem sido de 2%.

Agora, pergunte a qualquer investidor estrangeiro qual das opções ele prefere:

a) Um provável juro real de 4%, mas incerto?

b) ou um juro real garantido de 3,5%?

Os 12 banqueiros americanos e jornalistas internacionais a quem colocamos esta pergunta na época, escolheram os 3,5%, e que é a taxa média dos TIPS hoje.

Continuavam a preferir 3,5% garantidos aos 4% incertos.

Somente quando abaixamos os juros para 2,5% é que alguns preferiram correr o risco dos 4% incertos.

Mas fica claro que a grande maioria prefere um juro real menor, mas garantido, do que um juro real maior, mas incerto.

Somente esta medida reduziria a nossa taxa de juros entre 0,5% a 1,5% ao ano proporcionando uma economia de mais de 1 bilhão de dólares ao ano para a nação brasileira.

Por sinal, essa garantia é uma consequência direta e automática da Proposta 1 que garante também, através dos juros-relativos-à-inflação, a manutenção do poder de compra do dinheiro depositado pelo investidor.

Parece que estamos dando boas vantagens – mas na realidade estamos nos beneficiando mais do que eles. É que hoje já garantimos a inflação americana – disfarçada que ela está nos juros.

Nossa proposta é que tornemos esta garantia explícita em contrato e cobremos por esta garantia através de taxas de juros mais baixas.

Pode o Brasil garantir a inflação americana?

A resposta é positiva.

Na realidade o Brasil já a garante, embutida que está nos juros.

E se a inflação americana subir 100%?

Provavelmente os preços de nossas exportações também subirão entre 95% a 105%.

Contanto que o Brasil tenha uma pauta de exportações mais ou menos diversificada, e a tem, não há problemas. E seriam muito menores do que uma Prime Rate de 102% que esta inflação geraria.

Nossas projeções mostram que seria muito mais fácil garantir a inflação americana usando a Proposta 1 do que usando a sistemática atual de renegociação da dívida.

Proposta 3: Devolvendo estabilidade financeira ao mercado

Uma das regras básicas da atividade bancária é que empréstimos de longo prazo devem ser lastreados por depósitos aplicados por período idêntico ao empréstimo.

Deveria haver um perfeito casamento entre os recursos financeiros e os empréstimos no que concerne ao período de aplicação.

Mas esta regra não tem sido obedecida devido às incertezas introduzidas pelo nominalismo econômico.

A maioria dos bancos é hoje obrigada a captar recursos devido à incerteza nominalista.

Emprestar por um prazo longo, onde é possível ter operações não lastreadas com períodos a descoberto, aumenta a instabilidade financeira internacional e, de vez em quando, ocorre uma crise de liquidez.

Os banqueiros internacionais não são totalmente culpados por esta prática, um tanto arriscada: o verdadeiro culpado é o nominalismo econômico que impera desde 1920.

Foi este nominalismo que destruiu o mercado de aplicações a longo prazo, uma vez que o risco da inflação se tornou muito elevado.

Ninguém mais sabe qual vai ser a inflação americana daqui a dois anos, muito menos daqui a 30 anos, e por isto a maioria dos aplicadores somente investe em títulos de 6 meses ou 1 ano.

Para contornar este problema, os banqueiros internacionais criaram contratos de empréstimos, com taxas de juros flutuantes, uma saída que pareceu muito inteligente na época.

Inteligente para eles, não para os tomadores.

Com taxas flutuantes os banqueiros puderam novamente aplicar a longo prazo apesar de estar captando somente a curto, porque nossos economistas que serviram os militares na época se comprometiam a pagar a taxa de juros nominais de curto prazo em vigor a cada 6 meses, QUALQUER QUE FOSSE ESTA TAXA.

Embora fossem operações não lastreadas, eles poderiam rolar a dívida facilmente com depósitos a curto prazo, uma vez que a taxa já estava garantida por estes contratos denominados de “juros flutuantes”.

A história presente mostrou que este foi o erro financeiro do século, e que foram as taxas flutuantes que nos colocaram nesta crise internacional sem precedentes, além de manter os juros reais elevados. Vejamos:

Verdade seja dita, o Brasil não tinha outra alternativa na época a não ser aceitar contratos com juros em aberto e, na década de 70, quando a maior parte da dívida foi contraída, a inflação americana era baixa.

Nossos economistas que contraíram estas dívidas com juros em aberto, Mario Henrique Simonsen, Delfim Netto e Roberto Campos não poderiam ter imaginado, quando assinaram os contratos de empréstimos, que a taxa de juros chegaria aos níveis de 20% como chegaram em 1980 e 1981.

Mas esta forma de contrato, com juros nominais e reais em aberto, foi o início dos nossos problemas.

A proposta de juro real fixo traria de volta a segurança financeira para o Brasil. Saberíamos de antemão a verdadeira taxa de juros que estaríamos pagando.

Poderíamos também oferecer taxas maiores para investimentos a longo prazo, hoje totalmente inexistentes. Ninguém aplica por 5 anos a taxas fixas com medo da inflação.

Mas, à medida que o Brasil garanta a inflação americana, investimentos a longo prazo voltarão a existir se remunerarmos com uma taxa de juro real maior do que o juro oferecido para aplicações a curto prazo.

E este ágio adicional não precisa ser muito grande.

Se remunerarmos com 2%, aplicações por 1 ano, muitos investidores serão atraídos por um bond ou debênture de 5 anos que ofereça 2,75%. Obviamente, os investidores comprariam um pouco de cada tipo de prazo.

Companhias seguradoras certamente iriam ser atraídas por prazos maiores e taxas maiores.

Com este novo sistema, estaríamos lentamente eliminando a perigosa prática bancária internacional de captar a curto prazo (6 meses em média) e aplicar a longo prazo (5 anos em média).

De início, recomendaríamos aos países devedores a oferecer estas vantagens de juros-reais-garantidos somente para aplicações superiores a 2 anos, por exemplo, ou para contratos ainda mais longos com repactuação de juros somente a cada dois anos.

Um contrato de 4 anos teria um juro real fixo por 2 anos, ao fim dos quais seria repactuado com a taxa de juro real da época. Uma grande diferença com relação ao que acontece hoje, quando um contrato deste prazo teria oito taxas de juros diferentes e não somente duas.

Em todo caso, é bom lembrar que juros reais variam muito menos do que juros inflacionados ou nominais.

Infelizmente, o governo FHC lançou o Global 40, um título com juros nominais de 13% ao ano, por nada menos que 40 anos.

Cada vez que há uma variação nos juros reais da economia, este título é descontado em 40 anos, gerando enorme volatilidade. Mas isto faz parte do jogo.

O que não deveria fazer parte, é a volatilidade causada pelas variações de expectativas inflacionárias.

Temos duas fontes de variação: o juro e a inflação. Por que não eliminar pelo menos a inflação, usando títulos com juros reais?

Antonio Delfim Netto, que se declara nominalista, explicou para um colega, a vantagem desta minha proposta com uma curta frase. “Variância zero”.

Títulos com juros reais pré-determinados são os únicos títulos financeiros com variância zero em termos de rentabilidade futura. Ações, títulos nominais, imóveis, todos têm variâncias, e existe uma ciência de portfolio management em torno de como administrar estas variâncias, correlacioná-las , etc.

O que mostra que mesmo um nominalista acaba sendo obrigado a perceber a vantagem de um título real, mesmo que não aceite que todos títulos sejam desta natureza.

Administradores financeiros serão os primeiros a perceber que o título originário do mundo financeiro é um título real, e que o nominalismo pode ser definido como um título real sobre o qual se fez um hedge inflacionário.

Ao vender um futuro de inflação, todo título real se torna um título real, mas não vice-versa.

Na maioria dos anos, a taxa de juros reais se manteve entre 0 e 1,8% ano após ano, enquanto que os juros inflacionados variaram de 4 a 20%, uma diferença de 16% entre o máximo e o mínimo.

Não somente estaríamos melhorando a segurança e diminuindo a instabilidade financeira internacional, mas dando real sentido aos períodos de carência.

O Brasil descobriu um tanto tarde que o período de 3 anos obtidos para construir Itaipu de nada adiantou, dada às taxas de juros de 20% que prevaleceram em 1980 e 1981.

Tivemos que pagar 60% da dívida durante o dito período de carência quando o projeto nem estava ainda na fase operacional, e naturalmente, quebramos. E não por culpa nossa como alardeia a opinião pública internacional.

É por isto que quebramos logo após o México, apesar da assertiva do Delfim Netto de que isto não aconteceria conosco porque o Brasil tivera o cuidado de tomar empréstimos de longo prazo, pagando spreads de acordo.

De nada adiantaram empréstimos a longo prazo quando a inflação americana os tornou de curto prazo.

Este fenômeno não atingiu somente os países em desenvolvimento, por “estranha” coincidência.

Nos Estados Unidos o nível de falências e concordatas cresceu 45% em 1980 e 1981 e aproximadamente 44% somente no primeiro semestre de 1982.

O que a maioria dos americanos não percebeu é que este fato foi devido à inflação incorporada nos empréstimos e não a uma má administração financeira por parte das empresas americanas de um ano para outro.

Um terceiro problema que enfrentamos, especialmente depois da moratória, era que os banqueiros simplesmente estão nos cobrando um ágio adicional devido ao risco maior que estariam incorrendo.

Atualmente estamos pagando 1,7 a 2 % de spread além dos juros inflacionados. Normalmente estes spreads têm variado em torno de 0,5% a 1,00%.

Alguns banqueiros já perceberam que cobrar um spread muito elevado simplesmente aumentará ainda mais o seu risco e dificultará, senão inviabilizará, o recebimento da dívida.

Pela análise que estamos apresentando, o risco do Brasil ocorreu somente porque os bancos utilizaram juros nominais e não reais e que os juros nominais antecipam o pagamento de juros, causando assim crises de liquidez.

O risco portanto inexiste e os spreads mais elevados não se justificam.

Proposta 4: Superavit reais e não superavit nominais

O Fundo Monetário Internacional está exigindo que o Brasil consiga um superavit comercial superior às suas despesas de juros nominais, o que parece uma proposta muito lógica e sensata.

Afinal, se um país não conseguir obter um superavit que não cubra sequer os juros, como é que ele conseguirá pagar a dívida?

O Brasil paga por volta de 12 bilhões de dólares só de juros, por ano. Portanto, ele deveria ter um superavit de pelo menos 12 bilhões por ano.

Quando Margaret Thatcher diz que chegou a hora de acertar as contas, é a esta conta que ela se refere.

Então, se conseguirmos 13 bilhões, a rigor, o país poderia até amortizar 1 bilhão de dólares da dívida e neste ritmo, levaria 95 anos para quitar a dívida por inteiro. Meno male.

Mas, esta exigência econômica não somente é recessiva para a economia brasileira como é totalmente falaciosa.

O padrão de avaliação correto seria exigir que os países devedores cobrissem os seus pagamentos de juros-reais, com certa margem de folga, e não os seus pagamentos de juros-inflacionados ou nominais.

Em vez de cobrir juros inflacionados calculados sobre uma dívida fixa, propomos que o FMI mude a sua ridícula exigência nominalista atual para uma fórmula mais realista: os países deveriam cobrir os juros reais calculados sobre a dívida corrigida anualmente.
Este pequeno detalhe muda radicalmente o efeito recessivo das propostas do FMI.

Vejam o caso brasileiro em 1983: com um superavit de 6,5 bilhões alcançado em 1983 o Brasil já superava em 300% as suas despesas de juros-reais. Pagávamos os juros reais e ainda era possível amortizar uma boa parte da dívida.

Para 1984, com uma promessa feita pela equipe nominalista na época de 9 bilhões, estaríamos superando as nossas necessidades em 500%, com graves sacrifícios para a economia.

Para quê? Somente para satisfazer um padrão contábil de um sistema financeiro nominalista que desconhece os efeitos de sua própria inflação?

Por que forçar o país numa Montanha-Russa do FMI onde ficaria muito difícil, de 1983 até 1988, galgar as necessidades de superavit comerciais cada vez maiores e, a partir daí muito fácil atingi-los uma vez que seriam lentamente corroídos pela inflação americana?

Veja como mostra o Gráfico 1.

O Gráfico 1 é construído dentro do sistema de coordenadas realistas, e observa o mundo nominal sob coordenadas reais. Vejam a diferença. Ele mostra que demoraria até 2013 para saldar a dívida externa e com um fluxo de caixa totalmente irrealista, de enormes superavit no início e reduzidos superavit no final.

 quadro3

Depois de reorientar totalmente a nossa economia dentro de um modelo exportador para atingir 14 bilhões de superavit, é óbvio que não iríamos voltar atrás e reduzir estes superavit lentamente ano após ano.

E aí os americanos estariam reclamando deles, como fazem continuamente com o Japão.

Esta proposta de renegociação incluiria o compromisso do país de obter superavit nas suas transações comerciais de pelo menos 25% acima dos pagamentos de juros-reais nos primeiros anos, aumentando a cada ano até 100%, uma margem bastante aceitável para a maioria dos banqueiros internacionais.

Ponto 4. Os países tomadores se comprometeriam a conseguir um superavit comercial 25% maior do que o pagamento dos juros reais calculados sobre a dívida ou saldo devedor corrigido, nos primeiros dois anos, aumentando a margem gradualmente até 100% no período de 10 anos.

Não seriam mais obrigados a obterem superavit superiores aos juros nominais ou inflacionados.

No caso do Brasil, os superavit para 1983 e 1984 estariam entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões – ao invés dos hercúleos US$ 9 bilhões estabelecidos em carta de intenções ao FMI.

O Gráfico 2 é construído dentro de coordenadas cartesianas realistas, e com uma proposta destro da escola realista. Mostra de imediato uma forma muito mais correta de distribuição de superavit ao longo do período da dívida. Notem que em ambos os gráficos, a área de excedente corresponde exatamente aos 90 bilhões da dívida.

Ou seja, o nominalismo e o realismo não alteram os fatos econômicos, eles são formas diferenciadas de observar e ordenar o mundo.

Em ambos os casos nominal e real, o juro real é o mesmo, a divida é saldada no mesmo período, o fluxo de caixa é que é diferente.

GRÁFICO 2
Fórmula Realista: Superavit comerciais maiores do que juros reais sobre principal corrigido

 quadro4

Notem que os juros agora são uma reta constante, previsível, exatamente aquela acordada entre as partes, ao contrário do que prega a escola nominalista: juros incertos, que incorporam amortizações na planilha de juros.

Com o aumento do saldo devedor, haveria um aumento mais ou menos correspondente nos preços de nossas exportações. Em termos de sapatos, por exemplo, o Brasil teria de exportar sempre o mesmo volume.

A solução nominalista é ilógica, uma vez que o Brasil e o mundo estarão crescendo nestes 30 anos e assim cresceriam as nossas exportações e superavit.

Com o compromisso de obtermos superavit superiores aos juros-reais e não juros-irreais, poderemos retomar o crescimento industrial e agrícola deste país, permitindo que as importações cresçam 25% em 1984.

A solução realista é uma solução elegante e vendável para ambos os lados. E o que é mais importante: permite a ambos os lados parecerem vitoriosos nos seus respectivos países, um aspecto que nenhum político pode deixar de apreciar.

O Brasil voltará a crescer e precisará de superavit menos recessivos, de acumular reservas e de criar uma estabilidade econômica e social.

Os banqueiros, apesar de fazerem algumas importantes concessões, poderão dizer aos seus acionistas que o Brasil se comprometeu a pagar um juro real e positivo, pela primeira vez na história, além de garantir o poder aquisitivo do dinheiro emprestado.

Nunca mais os países em desenvolvimento terão aquela “mamata” de desfrutarem taxas de juros negativas, às custas do investidor americano, como fizeram em 1974 e 1976. Taxas negativas acabam custando muito caro depois de alguns anos, como estamos sentindo na pele hoje.

Existe uma corrente que propõe soluções políticas para a dívida, o que significa negociações governo a governo, embora não seja muito clara a solução técnica a ser discutida entre ambos.

Agora, diante do péssimo trabalho de lobby feito pelo governo brasileiro perante a opinião pública mundial, as perspectivas de sairmos com vantagens destas negociações políticas são bastante remotas. No mínimo, teríamos por exemplo, que entregar a indústria de informática.

Esta proposta é elegante, no sentido científico da palavra, é uma solução tecnicamente lógica e correta, que permite uma saída política honrosa para ambos os lados.

O Journal of Commerce fez um editorial desta proposta com o título: “Uma saída para o impasse?”. O impasse sendo a provável recusa do povo brasileiro em “aguentar” o FMI, e a recusa deles em aceitar uma moratória.

Soluções do tipo pagarmos somente X% de nossas exportações não são operacionais nem políticas. Não há como incorporar esta solução no contrato de empréstimo entre o Wells Fargo Bank e uma empresa brasileira. Soluções deste tipo simplesmente centralizariam e estatizariam ainda mais nossa economia.

Esta proposta independe de governo.

É uma solução de mercado, não requer a boa vontade do FED, nem concessões políticas de nossa parte.

Mais cedo ou mais tarde, um sistema de juros-duplos será implantado, não há a menor dúvida. (de fato foi, com o TIPS americano).

Por uma razão muito simples: há um vasto mercado para ele.

Existem bilhões de dólares à espera de um instrumento financeiro que garanta a inflação. É só observar o mercado do ouro, que não rende juros e não garante totalmente a inflação.

Somente esperamos que essa implantação não seja feita tarde demais para a nação brasileira.

Finalmente, o sistema atual de financiamentos internacionais está conceitualmente errado. Só tem a tradição e inércia a seu favor.

Quem estudou na escola nominalista tem muita dificuldade em enxergar o mundo de outra forma. É a base da observação dos economistas desta escola.

Precisamos mostrar que o Brasil não está atrasado em seus pagamentos, mas que é o sistema internacional que está atrasado em sua contabilidade.

Precisamos também mostrar, de forma firme, que o Brasil não será o único a se adaptar às novas realidades financeiras internacionais e os banqueiros terão de se adaptar, mesmo que isto signifique mudar um ou outro regulamento bancário.

Agora, se eles acham que nós seremos os únicos a adaptarmo-nos, eles estão redondamente enganados.

quadro5

 

O Plano Nominalista do FMI

Nossas projeções financeiras mostram que se o Brasil renegociar sua dívida internacional de US$ 90 bilhões este ano, usando os atuais modelos contratuais nominalistas, teremos que recorrer sucessivamente ao FMI para obtenção de recursos adicionais, até o ano de 1998; por mais 15 anos.

Pior do que isso, estaremos sem reservas internacionais até aquele ano, comprometendo a segurança nacional e nos deixando, durante este período, sem nenhum poder de negociação.

Depois que as primeiras modestas reservas internacionais se acumularem – em 1999, se chegarmos até lá – serão necessários outros 15 anos, até 2013, para que o Brasil possa gerar reservas superiores à dívida, em 1983.

Finalmente, três anos mais tarde, em 2016 – 33 anos depois do acordo com o FMI – todos os atuais e futuros empréstimos estarão liquidados.

Além dos recorrentes apelos a novos auxílios do FMI – no mínimo mais 27 cartas de intenções não cumpridas – e dos longos períodos necessários para reconstruir as reservas e quitar a dívida de 1983, existem outros aspectos questionáveis sobre a viabilidade do plano do FMI.

Fica claro também que o plano do FMI não significa apenas 2 ou 3 anos de sacrifício, como muitos acreditam. Basta observar o número de anos que ficaremos sem reservas internacionais não é somente uma questão de segurança econômica, mas também de segurança nacional.

quadro6

Precisamos pelo menos mostrar ao mundo que a projeção foi feita usando conceitos antiquados.

O Brasil parece mal porque estão exigindo que o país pague toda a correção monetária de toda a sua dívida, todo ano: um absurdo da escola nominalista.

Não é à toa que o nosso balanço é ruim no início. Mas, à medida que a inflação vai corroendo o capital tomado, atingimos um ponto de equilíbrio em 1999. Depois tudo será muito mais fácil. O duro será chegarmos até lá.

A Tese Realista

Por outro lado, se adotássemos contratos com juros reais e uma estrutura ditada pela escola realista, a situação seria muito melhor.

O país já teria gerado reservas equivalentes a 20% da dívida por volta de 1992 e 30% em 1996, levando-nos a uma situação muito mais segura, sem precisar recorrer à ajuda do FMI. Hoje 2004, temos menos que 5%.

Se o leitor observar as projeções financeiras a seguir, irá notar que em nenhum ano sequer, o país precisaria recorrer ao Sistema Financeiro Internacional com mais recursos de emergência.

Até o ano 2002, daqui a 19 anos, o Brasil teria gerado reservas internacionais no valor de sua dívida de 1983 – inclusive corrigida – e estaria apto a liquidá-la, se quisesse.

Um período de dezenove anos é mais do que razoável, para qualquer banqueiro, especialmente se considerarmos que a dívida foi contraída para financiar projetos a longo prazo como usinas de aço, hidroelétricas, ferrovias etc.

Compare estas projeções com a do PLANO FMI, que usa as mesmas hipóteses básicas da economia.

É difícil acreditar que ambas as projeções se referem ao mesmo país. A primeira mostra um país quebrado. A outra, um país com reservas crescentes e sem depender do FMI em nenhum ano sequer. Ambas liquidam a dívida totalmente em 2016 com o mesmo superávit acumulado durante todos estes anos.

Em qual dos dois “países” você investiria? Para qual dos dois você, como banqueiro, emprestaria mais dinheiro?

Obviamente o segundo “país”. O que paga juros reais agora e juros-relativos-à-inflação quando ela deve ser paga.

Mesmo que não consigamos convencer os bancos e investidores a adotar este plano proposto, precisamos pelo menos mostrar nosso verdadeiro balanço, aquele elaborado dentro das técnicas contábeis corretas.

Agora, a prova dos nove: as projeções da hipótese de desdobramento dos juros seriam exatamente as projeções financeiras deste país – na hipótese de não existir inflação americana.

Exatamente iguais.

E aí chegamos à verdadeira conclusão: sem inflação americana as projeções brasileiras seriam lindas. Os juros cairiam.

Mas, por outro lado, há US$ 2,9 bilhões, crescendo, daí em diante.

Neste caso, mesmo com um superavit menor, nossas reservas cresceriam a partir de 1984 e teríamos reservas equivalentes a 20% da dívida em 1990 e chegariam a 30% em 1994.

QUADRO 5
Escola Realista (somente o desdobramento dos juros)
Hipótese – Exatamente as mesmas utilizadas na análise do plano FMI: Prime Rate
incluindo spread = 13% em 83 e 84 aumentando para 15% em 85 em diante. Inflação americana de 5% em 83 e 84 aumentando para 7% em 85 em diante. Superavit de 9 bi em 84 aumentando 3.6% ao ano.
Juro real efetivo de 7.8%.
Resultados: Nenhuma ajuda do FMI necessária. Reservas internacionais crescentes a partir de 1984.
No ano de 2002 a dívida original é liquidada, e em 2016 saldaremos as dívidas subsequentes.
Exatamente o mesmo ano do plano FMI.

 quadro7

De que modo o Brasil poderia implementar esta reforma?

Primeiro, poderia renegociar os contratos, caso por caso e banco por banco, substituindo-os por contratos novos ou títulos, que ofereceriam taxas de juros reais e mais os juros-relativos-à-inflação. Poderíamos insinuar que eles não teriam outra alternativa.

Se os bancos não fossem receptivos, o que não tem sido a nossa experiência, o Brasil poderia denunciar os contratos como inconstitucionais pois foram negociados com cláusulas de juros flutuantes.

Poderíamos também impor este sistema aos bancos americanos de forma retroativa.

Poderíamos argumentar, de forma incisiva, que já pagamos os juros reais de nossa dívida pelos próximos 12 anos e que os futuros pagamentos seriam compensados de acordo.

Uma forma de se fazer uma moratória com classe. O Quadro 6, a seguir, mostra como seriam as nossas contas se o sistema internacional tivesse utilizado, desde 1978, uma contabilização correta.

Neste caso teríamos terminado o ano de 1983 com uma dívida maior, de fato, mas também teríamos reservas de 33 bilhões de dólares. O que significa que o Brasil acabou pagando antecipadamente os juros dos próximos 8 a 12 anos e terminou 1983 sem reserva alguma.

QUADRO 6
Se este plano tivesse sido implantado em 1978

 quadro8    

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Como reduzir a dívida com toda esta má vontade política?           

Só existe uma forma de reduzir os juros em um país.

A única forma de reduzir os juros é reduzindo a dívida.

Todos estes apelos para reduzir os juros diretamente são ingênuos, porque o problema é outro.

Se o governo chegasse para os bancos e dissesse: “Toma seu dinheiro de volta, não quero mais estes empréstimos caríssimos”, os bancos ficariam com um monte de dinheiro parado nas mãos e teriam de reduzir os juros e emprestar novamente para o setor produtivo.

O Estado pagaria juros menores, e mais importante, sobre um total de dívida menor.

Só que todos os nossos governos se recusam a devolver as dívidas que governos anteriores contraíram.

Não há interesse nem estímulo político em pagar o que o governo anterior tomou emprestado e gastou.

Todo prefeito, governador e presidente quer gastar em obras, para se reeleger.

Marta Suplicy se recusou a devolver uma dívida de um bilhão de São Paulo na época, e isso nos custou uns 30 nos próximos 20 anos.

Economistas do PT falavam abertamente em repúdio às dívidas.

Pagar dívida de outro, de fato, não tem a menor graça.

O ex-Ministro da Fazenda Delfim Netto ficou famoso em 1982, ao defender que “Dívida não se paga. Dívida se rola”.

Foi o que todo governo fez desde então, aumentando a dívida cada vez mais ao longo do caminho, e por tabela, os juros.

Como reduzir a dívida com toda esta má vontade política?

O truque seria enganar os políticos, levando-os a devolver finalmente a dívida de governos passados sem que eles soubessem disto.

Nisto está a sutileza e o maquiavelismo da Proposta do Deficit Nominal Zero.

A proposta agora não é mais “rolar a dívida”, mas que o governo pague todas as suas despesas incluindo o “Juro Nominal” da dívida.

1 O “juro” nominal não é juro, é uma ficção da Escola Nominalista, mas todo mundo, a imprensa, a maioria dos professores de economia, os próprios investidores acreditam.

O “juro” nominal é na realidade a soma de um juro real (o verdadeiro juro) mais uma inflação futura, ambos incertos.

2 Pagando-se os “juros” nominais na sua totalidade, a dívida não se manterá constante, como muitos irão acreditar, mas a dívida interna diminuirá em termos reais.

Portanto, o truque é esse.

A inflação embutida no juro, é uma amortização ou devolução do seu próprio empréstimo.

Você fica feliz achando que está ganhando um juro elevado, mas na realidade é seu próprio dinheiro que estão devolvendo.

Esta prática é feita para enganar o aplicador, que acha os “juros” maiores do que “realmente” são e o “juro” nominal mais atraente ao aplicador facilita a vida do Ministro da Fazenda, que tem de colocar títulos do governo no mercado.

Mas com um governo falido, isto se torna um tiro no pé. Nem devolver parte da dívida eles são capazes de fazer.

O Deficit Nominal Zero, simplesmente obriga o governo a reduzir despesas ao ponto de terem como reduzir a dívida em termos reais, e não mais como uma porcentagem do PIB como vinha acontecendo.

Agora a dívida cai mesmo, em vez de aumentar, embora menos do que o PIB. Se a inflação for de 3,5% em 2006, 3,5% da dívida interna será devolvida. Se em 2007 a inflação for de 9%, a dívida será corroída ou devolvida, via “juro” nominal, em 9%.

Este é o primeiro problema do plano, ele sofre da incerteza quanto a inflação futura.

O plano do Deficit Nominal Zero, nunca saberá ao certo em quanto a dívida será reduzida, muito menos quanto de despesas precisam ser cortadas.

Em termos de gestão o plano é impossível de ser gerido.

Se tivermos 100% de inflação a dívida cairia pela metade, mas o governo conseguiria cortar a metade de suas despesas?

O Deficit Nominal Zero, evita o uso das palavras Superavit e Lucro, palavras riscadas do ideário nacional.

Usam o termo Deficit, tão querido pelos intelectuais e economistas de governo.

O Deficit Nominal Zero é na realidade um Superavit Real Positivo.

Um investidor ficará mais tranquilo se ouvir que finalmente haverá de fato um Superavit Positivo ou se ele ouvir esta bobagem semântica de Deficit Nominal Zero?

Paulo Skaf, Presidente da Fiesp, também não entendeu a proposta, ao declarar em nome dos empresários de São Paulo, “Queremos um Superavit Nominal, ainda que seja de 1% ou menos.

Precisamos pagar todas as contas e juros, e ainda sobrar algum dinheiro.

Do contrário, não adiantará nada, o esforço será desperdiçado.”

Não há necessidade de se ter um superavit nominal, o Deficit Nominal Zero já é superavitário, vai sobrar dinheiro até para devolver parte da dívida!

Todos os economistas entrevistados nos primeiros dias de discussão não entenderam.

Uns falaram que só daria para reduzir a dívida se reduzisse os juros, ou seja, justamente o contrário da proposta do Delfim.

O que preocupa é que mentira tem perna curta.

Algum professor de Economia da Unicamp vai ler este meu artigo e descobrir a verdade.

É tão elementar o truque proposto, que não demorará outros descobrirem o que escrevo por si mesmos.

E o plano já recebe “fogo amigo” da Fiesp, porque o plano não é claro, como tudo no Nominalismo.

E se não é claro, como fazer um choque de gestão, se gestão requer ação conjunta sobre metas claras e definidas?

Se não é claro, por que os “juros” iriam despencar de um dia para outro, por que os investidores ficariam mais tranquilos com esta falta de clareza? Um economista realista ou administrador financeiro teria proposto algo muito mais operacional e transparente.

Teria proposto uma política onde o Estado se comprometeria a pagar a totalidade de um juro-real, transparente e definido, o que por si só reduziria os juros pela metade. Seria o juro de mercado, o que permitiria o Banco Central a fazer uma política monetária.

Pérsio Arida também não entendeu o plano do Delfim.

Ao mesmo tempo, o Estado se comprometeria a devolver ao povo brasileiro, digamos, 3, 4 ou 5% da dívida interna ao ano, ou outra taxa politicamente viável.

Seria uma política clara e transparente, o que reduziria ainda mais os juros, por antecipação.

Em 10 anos poderíamos reduzir a dívida em 30, 40, ou até 50%.

De uma forma clara e transparente. Isto sim, reduziria os juros. Na fórmula do Delfim, daqui a 10 anos a dívida terá sido reduzida em quanto? Ninguém sabe, mesmo depois de 10 dias de manchetes, com mais de 50 economistas sendo entrevistados.

Assusta a persistência do pensamento Nominalista neste país que engloba praticamente todas as faculdades de economia daqui, e está por trás de quase todos os nossos erros econômicos nesta história recente.

O brasileiro quer ser enganado para sempre? Engenheiros, contadores, juízes, advogados, professores, psicólogos, querem ser enganados por economistas Nominalistas para sempre?

Vocês querem comprar títulos que dizem pagar 19,75% de “juros” nominais, e achar que estão de fato ganhando esta mentira para sempre?

3 Pior, O Deficit Nominal Zero, deixará os banqueiros torcendo por uma inflação zero, o que mantém a dívida e os juros como estão.

Os industriais, por sua vez, irão torcer por uma inflação de 20%, para que o governo devolva rapidamente a dívida, permitindo que estes recursos sejam reciclados pelos bancos para uma atividade produtiva.

Uma Ideia Antiga.

A ideia do Deficit Nominal Zero é antiga, e foi a causa da estagnação da economia brasileira por 10 anos. A década perdida!

Na crise da dívida externa, nossos ministros da economia, incluindo Delfim, adotaram esta ideia, sem saber.

Nossos economistas Nominalistas da época não perceberam que ao pagar o “juro” nominal aos bancos internacionais, eles estavam pagando muito mais do que os juros, estavam também amortizando a dívida, de forma acelerada, antecipada e injusta.

Gerou uma recessão brutal e desnecessária, mas reduziu, como previ na época, a dívida em termos reais a ponto de não ser mais um problema nacional. Mas, se Delfim tivesse estudado economia real e não nominal teria percebido na época que este mesmo Deficit Nominal Zero foi exatamente o que o FMI e os Bancos na época nos impuseram.

Deficit Nominal Zero não é um plano administrativamente bem construído, porque seus resultados dependem de fatores fora de seu controle, isto é, a inflação futura, mas é um enorme avanço no pensamento social-democrata deste país, ao admitir que dívidas precisam ser devolvidas após um certo tempo, e que a sociedade, o povo e seus trabalhadores não podem pagar juros indefinidamente só para manter a dívida na mão do Estado.

Talvez, somente com a ilusão monetária que o Deficit Nominal Zero proporciona, ao não revelar as suas verdadeiras intenções, possamos iniciar o processo de redução da dívida interna.

A clareza e transparência do Realismo Econômico viriam depois.

 

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No meu artigo “Perdoem o meu Desabafo”, publicado na Revista Veja de 14 de janeiro de 2004, eu questionava mais uma vez, a informação amplamente divulgada por economistas nominalistas, jornalistas econômicos, pelo próprio Presidente do Banco Central e pelo Vice-Presidente da República, que o governo brasileiro pagou de juros em 2003, nada menos do que 9% do PIB, ou 1/3 do orçamento público.

Todos citam a cifra monstruosa de R$ 150 bilhões de juros que alegam terem sido pagos pelo governo, o que obviamente inviabiliza o crescimento econômico, os gastos públicos no social, sugere que a dívida interna é insustentável, e impede a redução da taxa de juros.

Resumindo minha argumentação para quem não leu o artigo.

R$ 30 bilhões destes juros sequer são pagos pelo governo, pois R$ 30 bilhões são automaticamente retidos como Imposto de Renda na fonte.

O desembolso para o governo é de R$ 120 bilhões, e não R$ 150 bilhões como publicado, isto não dá para contestar.

Vou fazer uma analogia.

Seu dinheiro não dá para comprar um carro, até o dia em que a sua esposa é contratada por uma concessionária com direito a uma comissão de 20%.

O carro agora vai ser seu.

Aí sua esposa, como os Ministros de Lula, lhe informa que ela pretende gastar os 20% da comissão em roupas, e você fica sem carro e ela sem a comissão.

Nós ficamos sem juros baixos e os ministros sem crescimento.

Temos um governo unido ou somos um grupo de ministros defendendo seus próprios interesses?

Minha solução, que já escrevi na Veja por umas quatro vezes, tal meu desespero com a ignorância contábil dos nossos intelectuais, seria criar o equivalente aos bônus municipais americanos, títulos das prefeituras que pagam 30% a menos de juros por serem isentos de imposto de renda.

Isto reduziria os juros para níveis mais tranquilos, reduziria as greves e pressões para gastar este superavit que no fundo não existe.

O segundo ponto do artigo era que dos R$ 120 bilhões de juros nominais líquidos, só R$ 40 bilhões são juros reais, algo que todo administrador e contador sabe, mas nossos economistas nominalistas insistem em ignorar.

O governo teve no ano passado um ganho de capital de R$ 80 bilhões de reais, devido à inflação, que o governo simplesmente não contabiliza.

Portanto, quando o Banco Central abaixa os juros em 0,25% e nada acontece, é porque na realidade eles só abaixaram 0,09% do juro real. Simples!

Tem mais.

Outro leitor me informou que o Banco Central apresentou um lucro em 2003 de R$ 32 bilhões, vendendo futuro de câmbio a R$ 3,60 e recomprando um ano depois a R$ 2,89.

Os idiotas dos especuladores que apostaram contra o governo Lula tiveram um tremendo prejuízo, e quem lucrou foi o governo.

Ou seja, dos R$ 40 bilhões de juros reais que os bancos e especuladores receberam do governo, R$ 32 bilhões voltaram para o Banco Central.

O total de juros que o governo pagou para o setor financeiro como um todo não foi de R$ 150 bilhões, mas somente de 8 bilhões, uma tremenda diferença.

Como é possível a todos os jornalistas e economistas ignorarem esta notícia?

Em fevereiro, março e abril de 2004, com o repique da inflação, o fenômeno se repete.

O governo pagou quase nada de juro real descontado o imposto de renda e a inflação, e nenhum economista e jornalista comenta?

Novamente a tal cegueira causada pelo nominalismo econômico.

Não é à toa que está começando a haver uma saída de capital do Brasil, ninguém quer receber zero ou quase zero de juros reais.

Em vez de 9% do PIB, como afirmaram Meirelles, Alencar, Sayad, Ivoncy Iochpe, Gilberto Dupas e Celso Ming, e outros nominalistas, para citar artigos publicados nestes últimos meses, pagamos em 2003 somente 0,5% do PIB, uma ninharia.

Em vez de 16,5% ao ano, o juro real pago em 2003 cai para 0,5% ao ano, melhor investir nos Estados Unidos.

Em suma, a origem da estagnação é esta.

Ninguém sabe qual vai ser o juro real antes de comprar um título do governo.

Por isto eu nunca compro, não sou um especulador, isto deixo para os economistas.

Abra o caderno de Economia de qualquer jornal brasileiro e procure qual é a taxa real oferecida pelo governo para os próximos 6 a 12 meses. VOCÊ NÃO ENCONTRARÁ ESTE VALOR.

Ninguém sabe, por isto nem aplica em títulos, só especula.

O governo brasileiro paga quatro riscos à toa:

1. O risco de não saber o juro real antes da aplicação, o que aumenta os juros em 2 a 3 pontos percentuais.

2. O risco de não saber a efetiva taxação, que é calculada sobre o valor nominal e não sobre o juro real, mais 1% de risco.

3. O risco dos índices de inflação serem manipulados, porque no Brasil eles não são auditados por auditores independentes, e aí o investidor coloca mais 1% para se garantir.

4. O risco do índice IGP-M não espelhar a inflação do investidor, e aí o investidor coloca 1% extra só para se garantir, agravado pelo amadorismo das ponderações do IGP e IGP-M.

Bastaria lançar um título com juros reais fixos, taxar somente o juro real, auditar os índices de inflação para não serem manipulados como no passado e criar índices de inflação confiáveis, que reduziríamos em 4 a 5 pontos percentuais os juros deste país.

Um outro leitor me sugeriu que toda esta desinformação econômica é deliberada, faz parte de uma conspiração nominalista. A maioria dos economistas brasileiros é ou quer trabalhar num banco, e adora especular com as incertezas geradas pelo nominalismo.

Se for assim, então não me resta nada além de aderir.

Portanto, esqueçam tudo que eu escrevi acima.

O GOVERNO NÃO ARRECADA IMPOSTO DE RENDA SOBRE OS JUROS QUE PAGA, NEM A DÍVIDA INTERNA É CORROÍDA PELA INFLAÇÃO.

REPITO, NÃO EXISTE IMPOSTO DE RENDA NA FONTE NESTE PAÍS, NEM INFLAÇÃO. O BANCO CENTRAL SEMPRE PERDE DOS ESPECULADORES NUNCA GANHA. REPITO, NUNCA GANHA.

E OS INVESTIDORES CONHECEM O JURO REAL QUE RECEBERÃO E FAZEM AS DECISÕES MONETÁRIAS CORRETAS ENTRE POUPAR OU CONSUMIR, COMO REZA A CARTILHA DO MONETARISMO ECONÔMICO.

O que ainda não entendo, e me pergunto: o que os nominalistas pretendem com toda esta desinformação?

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Nominalismo Econômico e Superestimação da Inflação https://blog.kanitz.com.br/nominalismo-economico-e-superestimacao-da-inflacao/ https://blog.kanitz.com.br/nominalismo-economico-e-superestimacao-da-inflacao/#respond Mon, 27 Feb 2017 12:31:00 +0000 http://blog.kanitz.com.br/?p=14131 A Razão da Persistência da Inflação A maioria absoluta das pessoas está convicta de que os índices de preços no Brasil são ligeiramente subestimados. Uma inflação real de 9% acaba sendo calculada como 8,97% e assim por diante. Talvez seja por isto que ninguém jamais considerou a possibilidade dos índices de preços, por alguma razão, […]

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A Razão da Persistência da Inflação

A maioria absoluta das pessoas está convicta de que os índices de preços no Brasil são ligeiramente subestimados.

Uma inflação real de 9% acaba sendo calculada como 8,97% e assim por diante.

Talvez seja por isto que ninguém jamais considerou a possibilidade dos índices de preços, por alguma razão, serem superestimados.

Suponha leitor, por um momento, que esta hipótese seja verdadeira.

Que uma inflação real de 8%, seja publicada como 10%.

Nestas condições, nenhum plano, por melhor que fosse, conseguiria debelar a inflação.

Uma inflação real de 8%, ao ser publicada como 10%, aumentaria o patamar da inflação numa espiral incontrolável.

Além disso, o governo estaria pagando ao longo do tempo um juro real sobre a dívida de 2% acima do necessário, pressionando o deficit e afundando inexoravelmente as finanças públicas.

O diagnóstico porém, seria de que o deficit público é o causador da inflação, não a metodologia de cálculo.

Há algum tempo já se suspeita de que os índices de preços são mal calculados.

Gasta-se em média US$ 20.000 por mês, para se calcular um índice, entre custos de pesquisadores, digitadores etc.

Valor muito baixo para se ter um índice com a segurança e qualidade necessária para a situação brasileira.

Devemos estar perdendo 10% do PIB ou em torno de US$ 50 bilhões de dólares com a ineficiência gerada pela inflação.

Índices onde o custo de elaboração é de somente US$ 20.000 devem conter imprecisões aceitáveis quando a inflação é reduzida, mas extremamente danosas quando a inflação é elevada.

Este arquivo mostra uma das imprecisões que ocorre quando a inflação é elevada e que acarreta uma superestimação da inflação.

Existem dezenas de causas já conhecidas que geram inflação, todas já do conhecimento da nação e já combatidas no passado.

De nada adianta persegui-las se os índices de inflação superestimam a realidade.

Não é difícil imaginar que uma nação, que por alguma razão superestime a inflação, jamais conseguirá debelar esta inflação qualquer que seja o número de planos.

Iremos provar que quando a inflação aumenta, os índices gerais de preços são superestimados.

Quando a inflação cai, os índices são subestimados, existindo portanto uma simétrica.

A razão não é metodológica, mas sim epistemológica.

Os índices são calculados segundo a escola nominalista de economia, que usam valores nominais e não valores reais nos seus cálculos.

O nominalismo não somente é responsável por parte das pressões inflacionárias bem como um aumento desnecessário da taxa real de juros.

A variável que explica a superestimação da inflação no Brasil chama-se prazo de crédito, que é o período de tempo que as empresas industriais concedem aos seus clientes para pagar as suas compras ou duplicatas.

A média no Brasil é de 28 dias, mais ou menos.

Para os nominalistas, o preço a prazo aumenta o índice porque eles usam os valores nominais sem trazer os dados ao seu valor presente na data da coleta do preço.

Os realistas, ao usarem coordenadas reais, não precisam trazer a valor presente porque este procedimento já está embutido na metodologia realista.

No nominalismo econômico, os índices de preços no Brasil acabam captando os preços a prazo, preços que somente serão pagos 28 dias após a coleta de preços.

Isto simplificando ao extremo, significa que os índices de preços acabam incluindo hoje os preços de amanhã.

Se a taxa de inflação for estável, tudo bem.

Mas se a taxa for crescente, a inflação é superestimada e faz com que o patamar da inflação se eleve sem parar.

Se a taxa for decrescente, como ocorre logo após um congelamento, ou depois do Plano Real, a taxa da inflação é subestimada.

O índice de 0% em março de 1986, ou no início do Plano Real eram um mito.

Na realidade a inflação foi de 5%, mas sob o efeito da subestimação, a inflação publicada saiu 0%.

A tabela I ilustra este fenômeno claramente, apesar de ser uma simplificação de como as empresas estabelecem os seus custos de vendas.
Vejamos exatamente o que ocorre num país com aumento de taxa inflacionária.

A inflação, pelas dezenas de razões já apontadas pela literatura, sobe de 1% em novembro para 4,5% no mês de dezembro. Os juros passam de 3% a 6,6% ao mês.

A matéria prima dos fabricantes passa de Cz$ 100 para Cz$ 104,5. Como o prazo de crédito é de 28 dias, as despesas financeiras dependem somente da taxa de juros, e o preço final sai exatamente por Cz$ 110,9.

Apesar da inflação usada neste cálculo de preços ter sido de somente 4,5%, os órgãos divulgadores da inflação irão comparar os preços de Cz$ 102,0 do mês de novembro e Cz$ 110,9 de dezembro e captar uma inflação de 7,9%, superestimando a inflação, que por DEFINIÇÃO foi só de 4,5%.

superestimacao1
A bola de neve está montada. A caderneta é em seguida corrigida em 7,9% + 0,5% e o resto da economia também, gerando uma espiral inflacionária sem fim.

Previsão feita em agosto de 1986 para o Plano Cruzado.

Inflação reprimida de 3,5% gera boa parte da inflação do período.

superestimacao2
O insucesso do Plano Collor, não esperado pelo Presidente Collor, e por ninguém em tão curto prazo, é explicado por este efeito. O Plano Collor mexeu com as duas variáveis importantes deste fenômeno: A taxa de juros e o prazo de crédito, que de 15 dias antes do Plano, foi para 45 a 60 dias em média, depois do plano.

Era uma única forma das empresas começarem a vender. Isto, pelo exposto, acarretou uma superestimação ainda maior da inflação.

Quanto maior o prazo de crédito, maior a superestimação. Em um segundo momento, o Banco Central aumentou as taxas de juros dentro da linha monetarista.

Veja uma simulação do efeito de um aumento de juros:
superestimacao3

A aceleração da inflação nos meses de outubro, novembro e dezembro, que sempre ocorre na economia brasileira, é explicada pelo discreto aumento do prazo de crédito dado pelas empresas no final do ano para incentivar as vendas de Natal, e que a escola nominalista acaba não percebendo porque usa valores nominais independente do prazo de crédito concedido, um verdadeiro absurdo para um economista da escola realista.

Mas por ser uma premissa tão básica de cada escola, é quase impossível criticar um nominalista porque ele enxerga o mundo de forma nominal. Ele jamais admitirá que ele enxerga o mundo de forma equivocada.
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Aumentando o prazo de Crédito
Normalmente antes do Natal o prazo aumenta 4 dias.
No Plano Collor o prazo passou de 15 para 60 dias.
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superestimacao4

A simulação do Plano cruzado foi extraída de um relatório elaborado em junho de 1986, para o Ministério do Planejamento, apontado os prováveis rumos do Plano Cruzado, caso a superestimação da inflação não fosse sanada.

O assustador é observar da espiral inflacionária que esta superestimação da inflação brasileira gera, fruto de um único aumento de 3,5% da inflação no mês de Dezembro, que termina em 27,9% no mês de Julho.

A inflação prevista pela simulação e a inflação que realmente ocorreu no período são muito semelhantes.

As simulações que fizemos do Plano Bresser e Plano Verão mostram sempre a mesma coisa: a superestimação da inflação brasileira, é a grande culpada pelo fracasso dos planos, muito mais do que o deficit público, a falta de competitividade ou a margem de lucro.

Sem dúvida, existe uma variável nova que não aparece na literatura econômica americana por duas razões: a primeira, porque a maioria das empresas americanas vende à vista, o comprador é financiado pelos bancos, não pelo vendedor.

Todos os economistas americanos são nominalistas, razão da enorme influência da escola nominalista no Brasil, mas neste aspecto o nominalismo não gera tantas distorções como aqui.

A razão é que as taxas de juros e a inflação nos Estados Unidos são muito baixas, e a superestimação é mínima, especialmente com inflações mais ou menos estáveis, onde diminuições de preços se intercalam com aumentos.

Este fenômeno ocorre especialmente nos países de inflação elevada, como a nossa.
superestimacao5

Inflação superestimada em 6 meses = 0.1

Esta superestimação é acentuada depois de um congelamento. O efeito é diretamente proporcional ao salto inicial da inflação pós-congelamento.

E por azar, o salto proporcional de 1% para 3% é muito maior do que o salto de 13% para 14%, por exemplo. Por isto, este fenômeno é particularmente nefasto nos períodos de descongelamento.

Antes dos choques heterodoxos, este fenômeno existia, mas a inflação subia gradualmente embora de forma constante. A próxima simulação mostra porque a superestimação naquela época não era tão transparente.

superestimacao6

Inflação superestimada em 6 meses = 7.1

Embora a simulação aponte para uma superestimação de somente 7,1%, a menor até agora com exceção à simulação americana, na realidade o efeito era muito menor, uma vez que o ciclo de indexação na época era semestral e não mensal como agora.

Mesmo assim, em anos de maxi-desvalorizações, os efeitos da superestimação eram bem nítidos.

A título de ilustração, a simulação seguinte mostra que em épocas de inflação declinante o índice é subestimado.

Isto ocorreu e ocorre na inflação seguinte a um congelamento de preços.

Apesar dos aumentos de véspera, a inflação do mês seguinte normalmente é bastante reduzida, contrariando o bom senso.

A causa é a redução dos valores dos preços a prazo, que subestima desta vez o índice geral de preços.

superestimacao7

Vejamos o efeito de uma redução do prazo de crédito.

O índice de preços perde parte de seu efeito acelerador, uma vez que os índices se tornam mais próximos da realidade por serem menos superestimados.

Este fenômeno ocorre sempre que a inflação começa a perder controle, quando as empresas por cautela reduzem drasticamente os prazos de crédito.

Esta redução fornece um suspiro de uns dois meses na aceleração inflacionária, algo várias vezes observado na economia brasileira.

superestimacao8

Existem diversas soluções para resolver este problema, que como tudo na vida, são relativamente fáceis depois de se detectar o cerne da questão.

Mas sua aceitação e, portanto implantação, é que apresenta grandes problemas porque a maioria dos nossos economistas é da escola nominalista e não da escola realista que contabiliza os dados econômicos pelos seus valores reais e não nominais.

Primeiro, porque implica em mudar o cálculo do índice.

Para quem não está absolutamente convicto do fenômeno, significará manipulação do índice e não adequação do índice à realidade.

Pessoas mais simples, jornalistas e os próprios nominalistas, acreditam que os valores nominais é que são os corretos, apesar de estarem associados a prazos diferentes de crédito.

Calculando-se o índice usando o valor presente dos preços, ou pelo método realista, obteríamos os seguintes resultados:

superestimacao9

A inflação seria corretamente calculada, e nas condições atuais se tornaria uma inflação inercial de 4,5%, embora não necessariamente.

Uma vez debelado este problema de superestimação, os planos para sanear as causas primárias da inflação poderão ter sucesso.

Simulação acima do prazo de crédito igual a prazo zero é equivalente a venda à vista.

superestimacao10

O efeito exposto é obviamente bem mais complexo e as implicações bem mais sutis, os meandros desta superestimação bem mais sinuoso e as consequências bem mais obscuras.

Os prazos de crédito não são uniformes, os salários nem sempre aumentam mensalmente, os impostos geram distorções especiais e uma simulação perfeita requer muito mais variáveis do que mostramos neste trabalho.

Mesmo assim, as simulações mostram que uma inflação adicional de somente 3,5% é capaz de gerar uma superestimação de inflação da ordem de 48% no prazo de seis meses.

Mais do que o deficit público e outras causas comumente apontadas como sendo o foco do processo brasileiro.

Uma vez identificado o problema, a solução se torna mais fácil de ser apresentada. Várias são as possibilidades:

A- Calcular os preços pelos valores a vista, trazendo a valor presente os preços do atacado.

Os reajustes de salários não mais seriam efetuados pelos preços do varejo. A justificativa política é de que o consumidor deve colaborar no esforço de combate à inflação, procurando o preço mais barato.

Isto já ocorre na prática, uma dona de casa quando compra um eletrodoméstico, pesquisa onde está mais barato.

A grande disparidade de preço existente no varejo advém do fato de que os preços maiores são normalmente os comprados há 26 dias.

Como ambos estão ainda dentro do prazo de crédito do fornecedor, não há necessidade de reajustes por causa da inflação.

Estas remarcações somente ocorrem para os estoques já pagos, e portanto pertencentes ao capital de giro da empresa e não do fornecedor.

B- Conscientizar o varejo a adotar um sistema de “mark-up” sobre o valor presente das compras e não pelos valores nominais constantes nas notas fiscais.

C- Mudar o sistema de cálculos do ICMS e IPI para que incida sobre o valor presente dos preços, pelas mesmas razões expostas acima.
Os índices de preço foram elaborados em épocas diversas das atuais e não é uma questão de afirmar que os índices são mal calculados, nem que a metodologia é causadora da inflação.

Muitos índices adotam os preços no varejo, que teoricamente não deveriam embutir valores a prazo.

O varejo não possui sistemas de contabilidade de custos a valor presente, nem comumente adota “mark-ups” sobre o valor da nota de compra.

É desta forma que os preços a varejo acabam captando o valor a prazo de crédito.

O importante é calcular os índices que captem a inflação real, e não achar culpados pelas distorções que a própria inflação causa no sistema econômico brasileiro.

A grande resistência da escola nominalista é ter que reconhecer que por 200 anos eles usaram o termômetro errado para medir a inflação.

Diagnosticaram febre quando muitas vezes o paciente estava com temperatura normal, e deram uma série de remédios econômicos desnecessários e que resultaram sem dúvida em vidas humanas e sofrimento humano desnecessário.

Os nominalistas jamais admitirão seus erros do passado, por isto teremos de esperar que toda esta geração seja substituída pela nova geração de economistas, que sabem manejar uma planilha econômica, que entendem de finanças, que são realistas na sua visão de mundo, galgarem os postos do poder e modificarem a forma de calcular os índices e de contabilizar os dados econômicos brasileiros.

Artigo escrito em 1986.

Link para download do Modelo Excel: Superestimação da Inflação

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Para quem é formado em Engenharia, Arquitetura, Matemática, Contabilidade e Administração, leia a prova dos 9 por que aumentar os juros no Brasil não baixa a inflação, pelo menos não quanto o esperado.

Uma das variáveis críticas desta Planilha é inflação real, que Contadores de Custo usam para determinar preço, neste caso 4,5% no mês.

Como este produto só tem matéria prima que subiu 4,5%, dividindo o preço a vista de R$ 104,50 por R$ 100,00 você teria a inflação correta do mês, 4,5%.

Mas se você vender a prazo, o preço muda, e se você aumentar os juros de 2% para 3% o preço muda mais ainda, o traço em vermelho.

Nestas alturas devo ter perdido 90% dos meus leitores, e 100% dos economistas que ainda me seguem.

Mas o preço a um prazo de 28 dias sobe para R$ 111,90 embora como já provei, o seu valor presente é de R$ 104,50 o que reflete a verdadeira inflação do mês.

Agora a prova.

Use a calculadora do seu celular, divida os preços a prazo de dezembro pelos de novembro, e você obtém um aumento de preço de 8,9% e não de 4,5%, mostrando como o IBGE e outros superestimam a inflação.

Estamos em novembro pessoal, razão desta minha insistência para que alguém mais competente do que eu explique para nossos políticos, nossos jornalistas, a Dilma, o Levy, antes do circo pegar fogo.

 

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