O Livro do Janot. A Economia do Compadrio.

Terminei a leitura do livro de Rodrigo Janot. Vale a pena ser lido, e mais uma vez surge, como conclusão, a mesma visão equivocada da Esquerda de como o mundo moderno funciona.

Nesse caso ele chama de “sistema fechado” que criamos no Brasil entre empresários e governo, onde ninguém mais entra nem sai.

“Os velhos empresários financiam as campanhas eleitorais dos políticos, e o governo lhes fornece reservas de mercado.”

Por meio do Ministério da Economia, com proteção tarifária, a famosa política de substituições de importações, subsídios do BNDES, taxação reduzida, Zona Franca de Manaus. Por isso economistas são tão poderosos no Brasil, fazem parte desse “sistema”.

Tudo feito com acordos no “fio de bigode”, que são essencialmente contratos de longo prazo que não podem ser colocados no papel por serem crimes, atentados à democracia, e assim por diante.

Essa é também a visão de Dias Toffoli, Jaques Wagner, Fernando Henrique Cardoso, Luciano Coutinho, Guido Mantega, Bresser Pereira. Eu suspeito que até o Moro pensa assim.

Um mundo dominado por empresários cujo único objetivo é tirar renda do Estado.

Por isso a Esquerda quer um Estado Forte, agências reguladoras, as 10 Medidas, um Banco Central independente, etc., etc., para controlar esses empresários do mal.

O erro desse diagnóstico é não entender como o resto do mundo mudou e o Brasil não.

O Brasil não fez a transição da empresa familiar para a empresa profissional de capital aberto e democrático.

Onde todo trabalhador, fornecedor, cliente e investidor pode ser acionista.

Empresas controladas por um Conselho de Administração, e não pela segunda e terceira geração de uma mesma família.

empresas familiares podem fazer acordos no “fio de bigode”, a essência da Economia do Compadrio.

Por isso, mesmo depois de tudo que ocorreu, o “sistema fechado” decidiu devolver a Odebrecht nas mãos da família, em vez de obrigar a democratização e pulverização de seu controle.

Esse para mim é o mais absurdo desfecho dessa história toda.

Nós administradores não faríamos acordos “fio de bigode”.

Primeiro por ética profissional, curso que até 1945 era obrigatório no curso de Administração.

Segundo, porque políticos nem confiariam num acordo “fio de bigode” com um Administrador profissional que pode ser demitido a qualquer momento pelo Conselho de Administração.

Por isso só se faziam acordos com empresários, sabendo que filhos e netos iriam respeitá-los como se fossem escritos em pedra.

O erro do Marcelo Odebrecht foi justamente “registrar os acordos fio de bigode” numa planilha eletrônica, fugindo da essência do termo.

Talvez porque eram tantos que nem ele era capaz de guardá-los na sua própria memória, e precisou da memória do computador.

Por essa visão equivocada a nossa Esquerda, até aquela bem-intencionada, não consegue fazer progredir esse país.

Porque ainda não perceberam que a saída não é esse Gramscismo, cujo objetivo é colocar um membro da Esquerda em cada cargo governamental, só para enfrentar empresários do mal.

Leia a literatura americana, inglesa, alemã, onde você sequer encontra o termo “empresários”, e sim “managers” e “management“.

Administradores jamais fariam acordos “fio de bigode”.

Primeiro porque o fruto do acordo jamais reverteria para nós e sim aos acionistas, porque na empresa familiar ambas funções se confundem.

A grande consequência, percebo hoje, de termos proibido o ensino de administração no Brasil a partir de 1945, contida na Lei 7988/45, não foi a postergação somente da empresa familiar.

Foi a falta de disseminação desses conhecimentos básicos de Administração que teríamos divulgado a políticos, Presidentes da República, jornalistas, engenheiros, advogados, economistas, contadores, Procuradores da República de como o Brasil deveria ter sido administrado todos esses anos.

Por isso ninguém se deu conta, que a devolução da empresa mais corrupta de história para a mesma família de sempre, significa que os acordos “fio de bigode” irão continuar por muito mais tempo nesse país.

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7 Comments on O Livro do Janot. A Economia do Compadrio.

  1. Nada é tão preto no branco. O conceito que utilizas de “empresa familiar” abarca um universo bastante grande de empresas e é desprovido de sentido prático. A empresa familiar, como qualquer empresa, tem que ofertar serviços ou produtos, ou ambos, para o mercado, assim como grandes redes que só têm profissionais em seus quadros. A variável “familiar” nada diz sobre qualquer vantagem ou desvantagem no gerenciamento de uma empresa.

    O vício, os negócios por debaixo do pano, enfim, o mau-caratismo pode aflorar em qualquer um, sejam eles profissionais ou não. Ao presumir que os “profissionais” são portadores mais de virtudes que de vícios, o que fica claro da definição que faz de empresa familiar, fica sem explicação o fato de onde é que os profissionais adquiririam essa ética que tanto fala, se a educação moral se aprende mesmo é no seio familiar. Cursos de ética de nada adiantam se os que os ministram e os que os ouvem sequer tiveram um mínimo treinamento para entendê-la. São, em larga medida, inúteis.

    Ademais, ao menos no Brasil, essa facilidade em se desfazer de incompetentes e imorais que dilapidam o patrimônio empresarial não é tão viável assim. Não é tão preto no branco. Se o indivíduo, membro da família que fundou e que administra e empresa, ou o administrador profissional contratado, já estão lá fazem anos a fio, e só depois de um bom tempo se consegue perceber seu mau caráter, gerencialmente pode ser mais racional simplesmente mantê-lo na empresa. Os custos, a quantidade de caixa a ser dispendido para se desfazer de um vagabundo, sejam eles oriundos da “empresa familiar” ou da empresa profissional, podem ser tantos que não valha a pena tomar a decisão moral e correta que é a de demiti-los.

    A Enron não era uma empresa familiar, mas isso não a impediu de ser gerenciada por inescrupulosos.A Arthur Andersen, que prestava auditoria e consultoria para a Enron seguiu esse cliente para o buraco. Até então era considerada por todos pelo seu profissionalismo incontestável. Worldcom, mesma coisa. Tyco, mesma coisa. No caso da Tyco, onde estava o profissionalismo da PwC, auditora da Tyco, que não foi competente o suficiente para descobrir uma falcatrua de mais de US$ 600 milhões? Porque os gerentes profissionais da Sadia e da Aracruz resolveram ficar brincando com câmbio, ao invés de focar no gerenciamento das atividades-fim da empresa que os contratou? Por que se deixaram cegar por operações financeiras? Onde é que se acha o profissionalismo virtuoso nesses casos?

    Virtude ou vício, competência ou a falta dela, podem ser encontrados em qualquer tipo de empresa, sejam elas administradas por profissionais ou por famílias.

  2. Kanitz, concordo com quase tudo que você esccreveu. Tb sou adm e economista. Veja não consigo ver alguém de Esquerda, que seja de verdade esquerdista que possa ser bem intencionado. Seu Ethos não permitirá nunca essa “boa intenção”

  3. Meu caro Kanitz tudo seria mais fácil de solucionar se fosse restrito a uma simples terminologia…você acha mesmo que os gringos citados por não ter em seu vocabulário a palavra empresário e management não tem empresas corruptas? Ingenuidade…ahaha…aí concordo com você quando cita que o problema da lava jato foi devolver a Odebrecht quebrada e destruída aos seus antigos controladores. Isso sim é um novo esquema de corrupção…o MPF trabalhou para os interesses americanos que patrocinou a destruição da maior empresa de engenharia que não era americana para continuar lucrando nas reconstruções dos países que o Estado americano destrói com suas guerras…ou você acha que os americanos só lucram vendendo material bélico a amigos e inimigos? Ledo engano, o maior negócio é refazer a infraestrutura dos países arrasados e destruídos…acho que está na hora de uma Lava Jato no próprio MPF.

  4. Boa reflexão. Se de um lado a empresa embrionária deveria ter todo apoio para o crescimento e fortalecimento, parece que depois de adquirir certo, talvez US$ 1 bilhão , deveria obrigatoriamente ser transformada em empresa de capital aberto, passando a ser do povo… pois afinal a riqueza vem do povo e ou da natureza e para ele, povo, deve voltar ou ser compartilhada. Poderia ter uma lei assim.

  5. Não fosse sua obstinação pela lei 7988/45 concordaria 100% com seu post . Porque não declara a realidade de que congresso desde estes tempos , e políticos profissionais sempre foram em mais de 70% advogados de formação e que leis e suas brechas fazem parte de um interesse maior de deixar caminhos abertos para a corrupção e manter impunidade garantida para todos os participantes do esquema citado ? O esquema de compadrio nasceu na colonia com império reforçando e basicamente em proprietários agrícolas e latifundiários ou protegidos da coroa. A industrialização no Brasil é fenômeno significativo a partir dos anos 40 e a liderança foi de europeus imigrantes que já tinham forte noção de administração , ao menos , com conhecimentos da época. Corrupção não tem nada a ver com administrador pois muitos deles foram ou estão corruptos hoje. Mas os sitema fechado existe e vale tanto a direita quanto a esquerda e mais , o PT gostou e usou ao extremo , por isso estamos na lona !

  6. Concordo plenamente. A parte mais deficiente da Lava Jato, em suas sentenças, é justamente a de não ter um dispositivo que incentiva a transformação de empresas familiares corruptas em empresas profissionais.

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