Semelhanças e Diferenças na Privatização do PT


Quanta besteira está sendo dita com relação às concessões dos aeroportos pela Dilma.

É de assustar a falta de conhecimento de pessoas importantes que participaram do Governo e que revelam que não entenderam o que fizeram.

O PT aprimorou em várias coisas que critiquei no passado sobre a privatização tucana (1), e melhorou o processo.

Vejamos as diferenças com o PSDB.

1. O PT “privatizou” por 40 anos a administração de aeroportos que eram 100% estatais. Dizer que foi uma concessão de 40 anos não é um argumento tão forte assim.

A grande diferença é que o PSDB “privatizou” a Vale e a Telebras que nem eram Estatais.

83% do capital da Vale e Telebras já era privado.

Fruto de abertura de capital ao setor privado destas duas empresas, mas que ditatorialmente as ações PN eram recusadas do direito a voto e tag along.

Hipocrisia estatal. Quero seu dinheiro, mas cale a boca.

2. O PT “obrigou” o investidor a comprar 51% da empresa, o bloco de controle.

O PSDB vendeu o “bloco de controle” de  somente 17% da Vale e Telebras a um grupo minoritário, de amigos da casa. Era de fato um bloco “controlador” porque 83% não tinha direito de voto.

No caso da Vale, Fernando Henrique Cardoso ligou para o Benjamin Steinbruch pedindo que fizesse número, porque até aquele dia só o Antonio Ermírio havia se interessado.

Faltou obviamente planejamento, porque leilão de um daria o que falar.

No caso da telefonia, um desconhecido maior ainda – Daniel Dantas, acabou levando uma das empresas “controlando” 100% da empresa de telefonia com menos de 1% da ações.

Bem diferente do que ocorreu com a privatização do PT que o comprador de fato comprou 51% da empresa, mesmo que em prestações.

Dantas conseguiu controlar com 1% graças a uma engenharia econômica de holding acima de holdings, empréstimos e acordos de acionistas. Foi muito esperto, por sinal.

Neste sentido o PSDB de fato “privatizou”, permitindo enormes empresas estatais na mão de um único indivíduo desconhecido, ao invés de democratizar o capital, pulverizando o capital entre milhares de acionistas.

Como rezava a Lei da Desestatização, que merece ser relida.

Eu não teria “privatizado”, e sim mantido os 17% e dado a administração para os 83% dos majoritários, o que seria eticamente correto, dando o direito de voto.

Ou registrando as empresas no Novo Mercado que ajudei a criar, sem precisar de leilões.

Neste sentido, a privatização dos aeroportos do PT foi superior à do PSDB.

O PSDB é que deveria aprender com o PT, e não o contrário como escreveram FHC, Globo e Pedro Malan.

3. O edital exigia experiência comprovada na área de aeroportos. (Pode-se discutir quão experiente de fato são os ganhadores.)

Mas no caso do PSDB, as empresas foram entregues para pessoas físicas, declaradamente sem nenhuma experiência no setor.

Daniel Dantas era até aquela data desconhecido gestor de um fundo de investimento, não de uma empresa de telefonia.

Benjamin Steinbruch era do setor metalúrgico, e teve duas semanas para montar a sua oferta de compra e estudar sobre o setor.

4. Na privatização do PT, o Governo ficou com 49% da empresa com o objetivo de surfar a melhoria administrativa que deverá ocorrer, podendo vender daqui a cinco anos os 49% por um valor ainda maior.

O PSDB vendeu tudo e não aproveitou dos ganhos de eficiência administrativa que foram colossais, o que levou a acusações de que o PSDB vendeu barato.

Neste sentido o PT estará calçado, se vendeu barato, o que não parece, pelo menos poderá recuperar na venda dos 49% restantes.

Vejamos agora as semelhanças:

1. Ambos os partidos são ideologicamente contra privatizações.

O PT não se “converteu” ao PSDB, porque nem o PSDB era convertido.

Quem é ideologicamente a favor da privatização jamais usaria o termo privatização.

Usaria o termo desestatização, termo inclusive usado na Lei da Desestatização, que rege o processo.

O PT e o PSDB só desestatizaram porque precisavam de caixa, ou porque não tinham caixa para fornecer 200 milhões de celulares ou ampliar os aeroportos vendidos.

A maior prova disto é que foi Collor quem criou o Programa Nacional de Desestatização (PND), usando o termo com o qual ele era ideologicamente alinhado.

Não para fazer caixa para o seu Governo, mas para acabar com a indicação política de gestores, a corrupção nos departamentos de compras e investimentos, a falta de auditoria e governança, o fim do controle de uma empresa negando direito de voto a 83% dos acionistas, incompatível com democracia.

3. Ambos, o PSDB e PT, deixam claro que poderão voltar atrás, já que “privatizar” dentro do ideário coletivo é favorecer alguém em detrimento da sociedade.

O próprio PT deixa isto claro ao usar o termo concessão. Depois da melhoria administrativa, os aeroportos voltarão para o Estado.

3. Ambos, PT e PSDB, venderam o que já existe para fazer caixa.

Mas o que o Brasil precisa é de 25 novos aeroportos em cidades que ainda não os têm. Precisamos de novas estradas e novas siderúrgicas.

Ao vender o que já existe, o PT e o PSDB retiram da sociedade justamente os recursos que existiam para investir em novos aeroportos, para serem investidos nos que já existem.

O PT neste caso retirou 25 bilhões, que NÃO mais serão usados para construir 25 novos aeroportos no Brasil.

Um novo aeroporto em cidades médias custaria no máximo 1 bilhão cada, e de fato desenvolveria o Brasil.

É o que eu teria feito, desenvolvimentista que sou.

Preferiria manter os três aeroportos na mão do Estado, mesmo continuando a serem mal administrados, para poder usar os 25 bilhões que o setor privado dispunha para criar 25 aeroportos novos e desenvolver o país fora do eixo São Paulo – Brasília.

Existem tantos recursos assim para investir em aeroportos no Brasil? Não.

Alguém comentou sobre os 25 aeroportos que agora não serão construídos?

Sim, este blog que você felizmente acompanha.

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12 Comments on Semelhanças e Diferenças na Privatização do PT

  1. Sim Gustavo,
    99% das empresas brasileiras não tem BNDES
    BNDES só é necessario quando se vende uma estatal já existente, a um grupo de amigos sem dinheiro, como no caso do aluno do Mario Henrique Simonsen, que fixou bilionário.
    O objetivo é sempre fazer caixa para o Estado, normalmente quebrado, e não aumentar o numero de aeroportos, siderurgicas, estradas , enfim.
    Desestatizar para fazer caixa, reduz os recursos disponiveis para criar novas empresas.
    Você está do lado de quem ?

  2. Em todo o mundo civilizado, privatização é para tirar o Estado da jogada. No nosso papís feudal, onde impera o capitalismo de estado, ocorre o contrário.
    Privatizar significa manter o controle “por fora” pelo Estado, que ainda financia a compra dos ativos públicos para os amigos.
    Nessas condições mamatescas, eu me candidataria a ser dono de aeroporto.

  3. Pergunta: nos casos mencionados existiria privatização sem a mesada da “mamãe” BNDES?
    um simples Sim ou Não já basta..

  4. Só vejo semelhanças entre PSDB e PT nas suas privatarias:
    1ª) Ambos não tem ideologia nenhuma. O PSDB vendeu estatais para fazer queima de arquivo de um longo passado de patifarias. O PT vendeu os principais aeroportos por desespero, porque sabe que jamais será capaz de administrar coisa alguma. Optou por tirar de si a culpa do caos aéreo que haverá em 2014, ano de Copa e eleições;
    2ª) Nenhum dos dois partidos estava interessado em fazer caixa para o país, só “caixinha” (mesmo porque o dinheiro arrecadado não dá pra cobrir 2 meses de juros da dívida pública);
    3ª) Ambos deram o dinheiro do BNDES para financiar a compra das ações e ambos não permitiram que o povo adquirisse o patrimônio público que estava sendo alienado;
    4ª) Os dois partidos, espertamente, mantiveram o controle “por fora” das empresas privatizadas via fundos de pensão, entidades em que cabe ao Presidente indicar a maioria dos dirigentes;
    5ª) PT e PSDB não tiveram o menor pudor de entregar o controle de setores estratégicos para fichas sujas. (Vai ser um espanto geral, quando o povo acordar e descobrir nas mãos de quem está o controle dos principais aeroportos.)
    Pra completar, lembro que a GOL pertence a um sujeito acusado de diversos crimes, inclusive assassinatos. A TAM publica seus mandamentos em relatório anual; o primeiro deles é “Nada substitui o lucro”. É de se pensar como gente dessa laia trata a manutenção dos aviões.

  5. Sobre o diagnóstico eu concordo, mas discordo aqui: “não aproveitou dos ganhos de eficiência administrativa que foram colossais,” O PSDB ‘lucrou’ com o aumento na arrecadação de impostos que veio com a ‘melhoria’ na administração, digo melhoria por que considero monopólios na prática e com dinheiro do BNDES. Não que eu esteja dizendo que não deveria ter ocorrido a desestatização (como o professor bem diz) mas com tanta ‘ajuda’ até eu dou lucro. No caso dos aeroportos é simples: Se der lucro ótimo se não der o governo ajuda de alguma outra forma, tipo um pré-sal aéreo.

  6. Realmente foi um avanço entre a desestatização petista em relação à desestatização tucana.
    Ao longo do tempo (14 anos) foi possível aprimorar o modelo tucano tanto com os erros deste quanto com erros no mundo inteiro. Deve-se levar em consideração que a situação brasileira na época (alto endividamento, governo sem caixa, risco de inflação…) exigia ações rápidas para manter a economia estável e funcionando e não tiro os méritos dos governantes na época, já que a receita econômica era justamente se livrar de ativos.
    Os dois lados tem seus méritos, seus benefícios e suas falhas. O grande problema do modelo tucano foi deixar a sociedade à parte de possíveis aportes posteriores de capital, o que diluiu as ações dos acionistas minoritários. Já o modelo petista não deixa claro para os investidores o tamanho da intervenção estatal.
    O grande

  7. A concorrência vem derrubando os preços da telefonia, logo o custo diminuiu e a qualidade aumentou em relação ao passado estatal.
    Todos foram beneficiados, donos de linhas telefônicas ou não.

  8. Kanitz. Eu não entendi a relação entre a venda dos atuais e impossibilidade de construir outros 25. Tens uma fonte para eu saber mais?

  9. Jairo. As Teles só pararam de tirar dinheiro de quem não tem telefone ou usa telefone com cartão. Todos os demais te dirão o contrário.
    E não estou brincando.

  10. Sr. Kanitz,
    Não importa se o termo é privatizãção ou desestatização, o fato é que tanto a Vale quanto as Teles, antes de serem privatizadas, davam prejuizo para os contribuintes e, depois de serem vendidas pararam de tirar dinheiro nosso. Sim… o seu também. O fato do governo ficar com 49% dos aeroportos privatizados é uma opção muito boa, porem há o risco de o negocio não vingar e ter de arcar com os prejuizos. Veja o o exemplo dos aeroportos Argentinos, assim como a privatização das rodovias que estão com seu cronogramas todos a atrasados em função do pedágio barato. Ninguem faz milagre.

  11. A sua análise é muito boa, só acho que uma comparação de um empresa 17% estatal com uma 100% estatal tem que ter ponderações. A margem de ganho do PSDB era bem menor desde o começo.Mas acho que a iniciativa de privatizar ou desestatizar, não importa o nome, foram benéficas nos 2 casos. A única diferença a favor do modelo petista foi a possibilidade dos 49% públicos se valorizarem com a melhora da gestão,mas reitero isso só foi possível porque o governo era 100% dono. Agora o grande defeito é a necessidade do dinheiro vir do BNDES. Se há dinheiro privado sobrando na praça para investir porque o governo precisa subsidiar a compra?
    Por fim já que você tocou no ponto do governo ganhar dinheiro com as empresas dos aeroportos, gostaria que você comentasse futuramente 2 pontos: a possibilidade do governo se endividar para comprar ações na bolsa (já que a bolsa rende mais do que os títulos públicos) e a possibilidade do Brasil se inspirar na previdência social de Cingapura, onde os aposentados são donos da dívida pública do país.

  12. Não concordo que a Infraero vai “surfar” na onda da administração eficiente dos novos aeroportos. Ela vai contribuir, isso sim, com a costumeira ineficiência estatal. Exemplo: o que acontece se o controlador quiser demitir um funcionário incompetente da Infraero? Ele será provavelmente transferido de aeroporto, mas continuará um problema.
    A ideia de vender os 49% estatais em um segundo momento, quando o preço das ações será muito melhor, é ótima, mas não vai acontecer. O PT manteve 49% nas mãos do estado por ideologia, não por pragmatismo.
    Eu sou da turma que acha que certos setores devem sair da mão do estado para sempre, independente de haver capacidade estatal de investimento ou necessidade de vender patrimônio para pagar dívidas. Devem ser privados pois assim é mais democrático e eficiente. Portanto, eu preferia que os aeroportos tivessem sido vendidos, não concedidos. Além disso, precisamos de leis que facilitem a criação e administração de aeroportos 100% privados. Isso ajudaria no caso dos 25 novos aeroportos citados.

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