O Julgamento Final

 

Você acredita que depois da morte, todos nós ficaremos numa fila na porta do céu, e seremos admitidos ou não dependendo de um julgamento final?

Você acredita que doze arcanjos irão questionar os seus atos em vida, e determinar se você fez o que fez porque era ingênuo ou mal intencionado?

Por que você escondeu o presente da sua irmã no Natal de 1978?

Por que mentiu para o seu chefe em 1987?

Lamento dizer que você terá sim um julgamento final mas será aqui na Terra.

E será muito antes de você morrer.

Você será julgado pela qualidade dos seus filhos.

Vocês será julgado aqui na Terra se sua filha ficou grávida e não sabe quem é o pai.

Seus amigos irão todos comentar se o seu filho foi expulso da escola por consumir drogas.

Todos vão notar que sua filha não conseguiu emprego.

É disto que seus amigos estarão lhe julgando.

Ele ficou rico, mas veja o que deu dos filhos dele.

Se você acha que não existe justiça social neste mundo, então analise estes dados coletados por Markov sobre mobilidade social.

Leva nove gerações para uma família passar da classe mais pobre para a classe mais rica.

Mas, leva somente quatro gerações para fazer o caminho inverso.

É a famosa frase pai rico, filho nobre, neto pobre.

Do que adianta você ser um magnata e ter netos ou bisnetos pobres quatro gerações mais tarde?

Veja o que ocorreu com os bisnetos do Conde Matarazzo.

Por isto, pais de uma certa idade param de contar vantagens sobre si nas festas e reuniões, e passam a contar vantagens dos filhos.

Meu filho entrou no IBMEC, minha filha foi promovida a gerente, meu filho recebeu um prêmio de melhor filme de curta metragem“, e assim por diante.

Pais no final da vida sabem que serão julgados pela qualidade dos filhos e por isto já estão fazendo o necessário merchandising.

Na realidade, o pior julgamento final não será feito pelos seus amigos e inimigos.

O julgamento final mais severo e destrutivo será feito por você mesmo.

E o critério que mais lhe incomodará não será o seu patrimônio acumulado, seus quadros na parede, seus livros que ninguém mais lê, seus amigos dos quais metade já morreu.

Chegar ao fim da vida e só então perceber que sua vida foi no fundo um fracasso, é o pior julgamento final possível.

É devastador.

Devastador porque aos 60 anos você não tem mais pique, energia, oportunidade, nem tempo suficiente para mudar o rumo das coisas.

Irá viver mais 20 anos sabendo que errou, não há pior inferno do que isto.

Você tomou as decisões erradas, perseguiu objetivos equivocados, optou por becos sem saída.

Erik Erikson, no livro que já citei, fala desta última fase da vida, que ele chama de Serenidade ou Desespero.

Aos 60 anos você olha para o seu passado, e somando os prós e os contra chega a conclusão que a vida foi bem vivida, você fez basicamente o que queria, conseguiu na medida do possível o que desejava.

Mas nem todos chegam a esta conclusão.

Daí vem o desespero, o julgamento final negativo e sem tempo para mudar o rumo.

Muitos pais já sabem que o julgamento final de suas vidas depende do sucesso de seus filhos.

Com o aumento da longevidade do ser humano, lamento dizer que o julgamento final passará a ser ainda mais devastador e complicado.

Você se julgará pelo sucesso não de seus filhos, mas de seus netos.

E a única coisa que você passará aos seus netos são os valores que você passará para os seus filhos e que eles absorverão como seus.

Estes valores são complicados hoje em dia, porque passamos a ser uma sociedade sem valores, uma sociedade até contra os valores considerados hoje tradicionais ou pequenos.

Valores vindos dos próprios pais significam os preceitos e regras que ao longo dos milênios se provaram acertados para que no fim da vida você possa julgá-la positivamente.

Algo Para Se Pensar.

 

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