Muitas pessoas acham erroneamente que jornalistas
são, por definição, negativos, o pessoal do contra — e que, por isso, a
imprensa privilegia más notícias. 
Embora alguns jornalistas optem de fato pela má
notícia, existe um outro fenômeno que afeta os leitores, um fenômeno chamado a
ilusão do acaso. Quem explica isso é o estatístico Nassim Taleb, autor do livro
"Iludido pelo Acaso".
Embora ele não trate de jornalismo, mas do
mercado de ações, mostrarei aqui a analogia com jornalismo — isso se vocês
tiverem paciência, porque a lógica é, de fato, complicada. Mas vale a pena!
O mercado de ações americano sobe há mais de 40
anos a uma taxa média de 12% ao ano, lembrando-se de que média é media. Metade
dos anos ele valoriza mais do que isso (uma excelente notícia), a outra metade
ele cresce menos (o que continua sendo boa notícia, com exceção das poucas
vezes em que a rentabilidade é negativa e você perde dinheiro). Apesar da
volatilidade diária, olhando uma única vez por ano, você verá mais boas
notícias do que notícias ruins.
Isso porque o mundo está melhorando lentamente,
dando dois passos para frente e um para trás. Se você observar sua carteira de
ações uma única vez por ano, em 40 anos você terá 93% de boas notícias:
você ficou mais rico. Mas em 7% das vezes, ou 3 anos dos
No entanto, 33 % das vezes você terá uma má
notícia: a Bolsa caiu e você empobreceu naquele semestre. Quem criou a frase
dois passos para frente e um para trás deveria ler jornal a cada trimestre, que
era a periodicidade de muitos almanaques da época. Como temos um gene de
pessimismo, uma má notícia nos afeta
Bolsa
Em
Alta Em Queda
Todo ano
93.00%
7.00%
Todo Mês
67.00%
33.00%
Toda Semana 59.00%
41.00%
Todo Dia 54.00%
46.99%
Cada Minuto 50.17%
49.83%
Fonte:
Fooled by Randomness, p. 57
Se você observar suas ações todo dia, como todo
jornalista econômico faz, a situação ficará feia. 54% das vezes você terá boas
notícias — a Bolsa subiu! E em 46% das vezes, você ficará infeliz...
E como ninguém mantém esta contabilidade
rigorosa, a sensação poderá ser de empate — ou até de que você, na média, perde
dinheiro.
As oscilações de curto prazo da Bolsa, que
chegam a ser mais ou menos 3%, ofuscam o lento crescimento de longo prazo
de 0,056% ao dia. O 0,056% é quase imperceptível “a olho nu”, mas, depois de
200 pregões, chega aos nossos 12% ao ano.
No dia a dia, você só vê a volatilidade do curto
prazo, e não a tendência de longo prazo. Você está sendo iludido pelo acaso,
iludido pelas pequenas flutuações normais do dia a dia. Por isso, corretor de
ações não é rico, day traders normalmente perdem dinheiro, especuladores pagam
mais em corretagem do que ganham.
Por isso, tantos jornalistas econômicos e a
maioria dos brasileiros acham que a Bolsa é um cassino, que é pura especulação,
que é coisa para jogadores. Aqueles que mantêm uma “distância sadia” da Bolsa,
aqueles que compram e ficam, e só olham as 93% de observações anuais, terão a
visão que poucos têm — de que aplicar na Bolsa é relativamente seguro e de que
só dá alegrias em 93% das vezes. É devido a essa ilusão do acaso que 98%
dos brasileiros deixam de investir na categoria mais rentável do mundo,
rendendo 12% ao ano
Ultimamente, a situação ficou anda pior. Quem
olhar pela internet a cada minuto, algo que só a nova geração teve o
privilégio de experimentar, verá a Bolsa subir 50% das vezes e cair 49%
das vezes. O crescimento histórico fica totalmente imperceptível.
O que tudo isto tem a ver com jornalismo?
Se a Bolsa incorpora todas as notícias boas e más
do momento, isso significa que 50,1% das notícias são, de fato, boas para a
Bolsa e que os outros 49,9% são notícias negativas, ao ponto de derrubar a Bolsa.
Por isso, ela oscila de minuto a minuto, dia a dia.
Ou seja, se você quiser investir na Bolsa sem
ficar com a sensação de que ela é um cassino, o melhor é não ler o noticiário
econômico. Multo menos pela internet.
Refazendo a tabela de Taleb para o jornalismo
teríamos a seguinte distribuição
más
notícias
boas notícias
jornalismo on line
50%
50%
jornalismo diário
46%
54%
jornalismo semanal
41%
59%
jornalismo
mensal
33%
67%
jornalismo
anual
7%
93%
Ou seja, quem lê notícias diariamente será muito
mais pessimista do que alguém que lê uma revista semanal como a Veja ou uma
revista mensal como Época Negócios.
Otimistas são aqueles que lêem as edições de
final de ano, cheias de esperanças e de dados de tendências para o ano seguinte, e
aqueles que assistem uma vez por ano a uma palestra minha ou de outros
economistas positivos como Octávio Barros ou Ricardo Amorim.
Por isso, jornalistas diários são mais pessimistas do que colunistas semanais, que por sua vez são mais pessimistas do que colunistas mensais.
Em momentos de crise, tendemos a aumentar a freqüência que procuramos notícias, o que só piora a situação.
Se você observar a Bolsa todo ano, terá 93% de
alegrias, como normalmente se faz com renda fixa e imóveis. Nem existem
cotações diárias para imóveis e renda fixa. Se existissem, as notícias não
seriam boas. Imóveis, como carros, desvalorizam ano após ano devido a idade e
obsolescência do imóvel.
O jornalismo que dá certo é aquele que não se
permite ser "Iludido pelo Acaso". É aquele que coloca a notícia no
contexto, que aponta as tendências de longo prazo, que ignora marolas e
concentra no horizonte que nem sempre aparece numa tempestade.
O jornalismo que dá certo é o que este site
pretende ajudar a criar. Se você tem um blog de notícias, continue a publicar
as más noticias que surgem para não ser tachado de otimista, mas contextualize
com as análises que faremos aqui sobre O Brasil Que Dá Certo. Apesar dos pesares do dia a dia.
Stephen Kanitz
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