Plano Luca Pacioli – O Paper Que Resultou no Plano Real

  

O Plano Real completa 20 anos, com os elogios de sempre da imprensa tucana e a modéstia singela dos seus formuladores.

O Plano Luca Pacioli foi uma proposta que serviu de inspiração para o Plano Real.

Foi elaborado por Professores de Contabilidade da USP, daí o nome Luca Pacioli. Não tinha autor e circulou anonimamente.

Anonimamente porque este professores sabiam que ninguém do governo jamais implanta ideias dos outros, especialmente de contadores. 

Circulou a partir de 1992 nos meios acadêmicos e entre alguns jornalistas, como Ricardo Galuppo da Veja, e Roberto Muylaert da TV Cultura.

Este inclusive o entregou pessoalmente a FHC, para alertar das modificações incorretas introduzidas no Real e que não existiam na ideia original.

Como por exemplo o artigo 8 do Plano Real. Enquanto todos os setores da economia eram obrigados a usarem a URV, o setor financeiro teve mais 4 meses de lucros inflacionários, a seguir:

 § 1º – Os cheques, notas promissórias, letras de câmbio e demais títulos de crédito e ordens de pagamento, continuarão a ser expressos exclusivamente em cruzeiros reais, até a emissão do Real.

Enquanto o Plano Luca Pacioli rezava:

F. Todos os depósitos e contas bancárias serão convertidos em dólar no primeiro dia do plano, primeiro de junho. Todos os DOCs e transferências bancárias serão feitos em dólar. Os bancos perderão os seus ganhos inflacionários, e as pessoas deixarão de perder 1% ao dia, resgatando a confiança e credibilidade do sistema financeiro.

Preocupado com o que Roberto Muylaert apontava, FHC até pediu nomes de Contadores de Custos proeminentes, que assustadoramente nenhum havia sido até então consultado, e os nomes do Prof. Eliseu Martins e do Prof. Antoninho Marmo Trevisan foram adiantados e devidamente anotados por FHC, mas não procurados.

Não se sabe qual “mutação” do Plano Luca Pacioli foi usada pela equipe e quem a apresentou, ou se foi somente uma daquelas coincidências, “estava no ar”. 

Estava no ar entre contadores, mas seu ponto inovador, que diferia radicalmente de todos os outros três planos fracassados, é que argumentava que um país precisava primeiro ter uma Contabilidade Forte e não uma Moeda Forte para acabar com a inflação, tese de todos os planos anteriores. 

“Não é a moeda de um país que precisa ser forte. É a contabilidade de uma nação que deve ser forte e precisa.

Todo país requer um sistema de referência confiável, que permita aos indivíduos registrar e comparar preços.”  Plano Luca Pacioli

Foi esta ideia “inovadora” que resultou na URVinização nos quatro meses que anteciparam a troca da moeda de Cruzado para Real.

Nenhum outro plano tinha sequer pensado nisto antes. 

Inovadora está entre aspas, porque contadores de multinacionais fazem um Plano Real todo dia. É algo corriqueiro. Óbvio.

Multinacionais sempre contabilizam em dólar, e portanto sempre tiveram uma contabilidade forte e estável, apesar de operarem num país de moeda fraca, o próprio Real de hoje. Assustador é que nenhum dos formuladores do Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Collor, pensaram nisto antes. 

Escreve Gustavo Franco em 20 anos do real:  

“Depois de 20 anos, a adoção generalizada da URV ainda está cercada de uma aura de mistério e fascinação”

De fato. Ninguém sabe até hoje de quem é aquele Plano anônimo. A tática do anonimato deu certo. 

Miriam Leitão e Maria Clara do Prado, nos seus livros sobre o Real, nunca mencionaram que contadores, como Antonio Lopes Sá, assessor do Itamar, discutiam entre si o Plano Luca Pacioli.

Achar que Itamar deu carta branca a FHC para fazer um plano deste é subestimar o então Presidente, mineiro e desconfiado como todos. 

Continua Gustavo Franco:  

“Entre os especialistas(sic) o Real é lembrado como uma das experiências de estabilização mais engenhosas que a humanidade já conheceu”.

Não entre os modestos contadores de multinacionais, que faziam isto todo dia. E notem o ato falho de Gustavo Franco: uma das experiências (novas usando seres humanos) mais engenhosas. Economia brasileira tem sido uma série de experiências econômicas usando seres humanos sem prévio consentimento. 

Não, o Plano Luca Pacioli não foi uma experiência nova usando seres humanos. Foi algo já feito e testado por contadores de multinacionais, daí a certeza de seu sucesso por parte dos tais professores.  

Todos os outros planos de combate à inflação, Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Collor, partiam da premissa que o país precisava de uma Moeda Forte, que a inflação era causada por uma Moeda Fraca que ninguém mais confiava, e por isto a insistência de juros altos. E, no caso do Real, a malfadada âncora cambial.

Mas como se vê no artigo de Gustavo, que sequer captou o espírito do Plano e continua a insistir na necessidade de uma moeda forte, agora definida como estável. 

A URV era uma “moeda estável”, ou uma unidade de conta protegida da inflação”, diz Franco.

Não, não foi isto que a URV proporcionou ao Brasil.

A URV proporcionou o que multinacionais sempre tiveram, uma contabilidade forte num país de moeda fraca.

Isto por sinal trazia uma vantagem competitiva às multinacionais, que continuavam a se concentrar nos seus negócios.

Nas empresas brasileiras com contabilidade fraca, elas se concentravam em ganhar com a inflação. Tanto é que o Diretor Financeiro foi o rei neste período, o que não ocorria com as multinacionais que mantinham foco no seu negócio.

Tragicamente, o Plano Real somente permitiu ao povo brasileiro uma contabilidade forte por quatro meses.

Pedro Malan iria mais tarde, como parte do Plano Real, proibir as empresas brasileiras de usar uma contabilidade forte, proibindo a indexação da contabilidade das empresas, achando que contabilidades fortes causam inflação. 

Fica tragicamente claro que os formuladores copiaram a Plano Luca Pacioli sem entender a sua essência, somente a sua mecânica. 

E nem a mecânica acertaram, pois a ideia de que os preços em Reais seriam a média dos quatro meses anteriores em URVs foi um erro monumental, razão do pedido para que FHC conversasse com Contadores de Custos que saberiam a fórmula correta. O anonimato dos autores originais se provou um erro, mas talvez sem eles o plano nunca teria sido copiado. 

Se você é um historiador, economista ou contador de custos, vale a pena analisar exatamente onde os dois planos diferem entre si.

Para ver onde ele foi deturpado e que setores foram favorecidos, como o Setor Financeiro que já vimos antes.

O Plano Real, ao contrário do Plano Pacioli, estendeu mais quatro meses de lucros de float e lucros inflacionários. 

Percebe-se pela sua leitura que o Plano Luca Pacioli era conceitualmente superior e muito mais internamente consistente que o Plano Real.

O Plano Real seguiu ipsis litteris de A até H como se pode notar, mas não aceitaram os itens I e J, razão dos problemas que temos até hoje.

Notem uma frase do Plano Luca Pacioli  “devolver ao povo brasileiro a noção de preços, do que realmente é caro e barato“, usada por FHC no anúncio do Plano Real. 

 Aqui transcrevo o Plano Luca Pacioli original, que desmistifica o que a imprensa tucana fala do Plano Real. Num artigo próximo falarei dos oito erros do Plano Real que perduram até hoje, e que fazem do Plano Real um fracasso a longo prazo, apesar do seu sucesso a curto prazo. Aguardem. 

PLANO LUCA PACIOLI

A inflação destrói todo tipo de referencial de caro e barato, o que por si a realimenta.

Uma das razões para se eliminar a inflação é justamente resgatar o referencial de preços ao sistema de produção.

Nunca se pensou o contrário: Resgatar o referencial de preços como uma precondição para a eliminação da inflação.

Não é a moeda de um país que precisa ser forte.

É a contabilidade de uma nação que deve ser forte e precisa.

Todo país requer um sistema de referência confiável, que permita aos indivíduos registrar e comparar preços.

Não que nossos economistas não soubessem disso, mas achavam que a única saída era lutar por uma moeda forte, o que traria como consequência uma contabilidade forte. Nunca deu certo.

Ao devolver ao povo brasileiro a noção de preços, do que realmente é caro e barato, esta é a precondição para o combate à inflação.

Apesar de se noticiar que o pão subiu 28% no mês, nenhum leitor é capaz de dizer se de fato o preço do pão é mais caro ou mais barato do que um ano atrás, uma situação que por si só gera inflação.

Devolver à economia uma proporcionalidade entre os preços, entre o pão e o leite, e que reflita a relativa escassez dos produtos entre si.

Os congelamentos de preços fizeram justamente o contrário, distorceram o mecanismo de preços como efetivos sinalizadores da escassez dos produtos.

O plano que resolveria estas questões e tiraria pelo menos a inflação inercial funcionaria em linhas gerais assim:

A. Dia primeiro de setembro, por exemplo, uma data previamente divulgada com um mês de antecedência, todos os preços seriam transformados em dólar.

Os preços não seriam congelados, seriam simplesmente cotados em dólar, ao nível de mercearia e supermercados inclusive.

O pagamento seria em cruzeiros pela taxa de câmbio do dia anterior.

Não seria uma dolarização da moeda, como na Argentina, o dólar não circularia, nem parcialmente.

Nem tampouco seria uma âncora cambial, onde contratos em cruzeiros possuiriam cláusula de correção cambial, por não se tratar de um indexador de contratos financeiros.

Não é a estabilidade da moeda que se procura aqui, mas a estabilidade da forma pela qual os preços são contabilizados.

O que se procura é resgatar a estabilidade dos preços e não da moeda, resgatar a noção de caro e barato, elemento fundamental para uma estabilização efetiva da economia.

B. Num primeiro momento os preços em dólar deverão cair, na medida que as empresas criarem confiança de que não se trata de um congelamento, nem a preparação de um congelamento do câmbio. O governo atual possui credibilidade para tanto. Caso contrário haverá uma pequena inflação inicial nos preços em dólar.

A tendência porém é de queda. Supermercados por exemplo, que embutiam cinco dias de inflação para produtos que ficavam cinco dias nas prateleiras, embutirão somente um dia de inflação, por utilizarmos o câmbio do dia anterior. Isto significaria uma queda dos preços em dólar de 4%.

Os preços a prazo cairão 30%, uma vez que em dólar o preço a prazo é praticamente igual ao preço à vista. Não haverá por esta razão perigo de uma inflação em dólar. O câmbio não será congelado.

C. No terceiro ou quarto mês, dependendo da reação popular, as pessoas voltarão a ter uma noção de preços.

Voltarão a ter a noção de que um hamburguer custa entre 2,80 a 3,10 dólares, dependendo do local. Voltaremos a ter esta noção de preços sem traumas e congelamentos artificiais.

D. No quarto mês ocorre o ponto diferente do plano.

Cria-se uma moeda nova, o cruzeiro verde, ou outro nome apropriado.

O hamburger de 2,80 dólares passa a custar 2,80 CVs. As notas de cruzeiros antigos deixam de ter valor, e ao contrário dos planos anteriores, não poderão ser usadas.

Precisarão ser trocadas efetivamente nos bancos por cruzeiros verdes à taxa de câmbio do dia D da conversão. Exemplo: 1 cruzeiro verde para cada 87 cruzeiros antigos.

E. A reforma monetária é a parte final do plano, não a parte inicial do plano, como foi feito erradamente nos demais planos.

Embora o plano tenha alguns outros detalhes que veremos em seguida, percebe-se que não houve congelamento, e ao mesmo tempo os preços relativos da economia se ajustaram nos três primeiros meses do plano, ao contrário dos outros planos, onde os preços relativos de dispersaram.

A população adquiriu um sentimento de valor e preços sem um custo maior para a economia e sem o artificialismo do congelamento de preços.

A inflação inercial foi eliminada sem grandes traumas. Não há a circulação de duas moedas ao mesmo tempo.

Provavelmente este plano não eliminará a retomada da inflação, pois todas as causas ainda não foram eliminadas. Mas ao contrário dos outros planos, este não gera inflação reprimida, que normalmente explodia na parte final dos outros planos, no descongelamento.

Estaremos reduzindo a inflação de 30% para 1% ao mês, patamar inclusive apropriado para levar as demais medidas a bom termo.

Vamos continuar.

F. Todos os depósitos e contas bancárias serão convertidos em dólar no primeiro dia do plano, primeiro de junho. Todos os DOCs e transferências bancárias serão feitos em dólar. Os bancos perderão os seus ganhos inflacionários, e as pessoas deixarão de perder 1% ao dia, resgatando a confiança e credibilidade do sistema financeiro.

Não haverá necessidade de correr para ativos reais, nem colocar em fundos indexados.

G. Todos os pagamentos serão feitos em cruzeiros. Todas as retiradas bancárias serão feitas em cruzeiros, convertidos à taxa de câmbio do dia anterior. A moeda nacional continua o cruzeiro. Aos bancos será permitido cobrar uma taxa de serviço entre compra e venda, para amenizar e reduzir as resistências ao plano. Em troca terão de arcar com os prejuízos possíveis de um descolamento e descasamento entre ativos e passivos nos três meses da fase de transição.

H. Os contratos a rigor não precisarão ser refeitos. Bastaria converter a UFIR, o IGP-M, e a maioria dos indexadores de contratos de aluguel etc. Não será necessário refazer todos os contratos. Os contratos indexados em IGP não precisariam ser indexados pelo dólar. Este plano é um plano contábil mais do que outra coisa. Ele se estende a toda economia, o que já ocorre no setor de imóveis, carros importados, consultaria, etc.

I. Depois da conversão de cruzeiros para cruzeiros novos, mantém-se intacto os mecanismos de correção monetária. Tiramos somente a inflação inercial e ainda não é o momento de destruir as pontes como nos planos anteriores. Provavelmente este plano terá de ser efetuado mais de uma vez, num processo de sintonia fina. Nosso primeiro passo é efetuar a sintonia bruta, para depois efetuar a sintonia fina.

J. A forma de acabar com a indexação não passa pela sua eliminação pura, como foi feito em alguns planos anteriores. A eliminação da indexação se faz pela dilatação do período de indexação, de mensal para bimensal, para semestral, para anual e assim por diante.

Os depósitos à vista crescerão e o recolhimento compulsório ao Banco Central idem. O Governo reduzirá a sua dívida onerosa, boa parte desta dívida em outros países é simplesmente moeda. Isto deverá reduzir o deficit público pela metade, boa parte causado pelos juros elevados da dívida pública.

Os bancos que perdem assim o seu lucro inflacionário, poderão aumentar o seu float para uma semana ou até duas, como ocorre nos Estados Unidos, auxiliando neste intento de transformar dívida em moeda em circulação.

K. O índice geral de preços passa a ser coletado com base nos preços a vista das principais matérias primas o IGP/C. C de Contábil.  Isto elimina as distorções dos índices coletados, que superestimaram a inflação nos demais planos, e causaram a sua derrocada.

Ao contrário do que se pensa, o que fracassou nos demais planos foi o efeito de superestimação da inflação que ocorre na saída de um congelamento, e que gerou uma rápida bola de neve de inflação ascendente.

A maioria dos economistas atribui esta escalada da inflação ao fracasso dos inúmeros planos, e não a um erro na metodologia empregada na coleta de preços que não prevê nem congelamentos nem descongelamentos.

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