É tão generalizada a visão de que os homens na maior
parte são egoístas, gananciosos e só pensam em si que fico até
constrangido em tentar mostrar alguns fatos e dados que colocam essas
generalizações ofensivas em xeque. Antigamente, um dos critérios que as
mulheres usavam para escolher seus pares era justamente a generosidade
masculina. Elas ficavam muito atentas para detectar homens generosos,
aqueles que pagavam a conta num jantar (dele e dela). Aqueles que as
levavam a lugares caros, um teatro ou concerto, os que davam flores
todos os dias, jóias e presentes caríssimos. Elas sabidamente
procuravam um par que estivesse ganhando muito mais do que precisava
para viver sozinho. Que tivesse excedentes quando solteiro e, por
conseguinte, dinheiro de sobra para cuidar de mais pessoas no futuro.
Portanto, casavam-se com homens que não iriam se sentir mais pobres
depois da lua-de-mel e que não reclamariam todos os dias dos gastos da
mulher. Casavam-se com homens acostumados a gastar mais com os outros
do que consigo.
Não é coincidência que
"generosidade" advenha do próprio termo "gênero". Pode-se argumentar
que a generosidade masculina é uma conseqüência da ação feminina, que
não é mérito dos homens. Mas afirmar que os homens são todos canalhas e
egoístas como encontramos em alguns textos acadêmicos não confere com
os fatos. Infelizmente, esse método de seleção passou a ser considerado
politicamente incorreto. A generosidade masculina passou a ser
considerada mais uma forma de opressão machista ou uma forma de suborno
para obter algo em troca. Ativistas defenderam o direito de igualdade
na hora de pagar as contas, em vez de defender a generosidade
recíproca, ou o altruísmo recíproco, que seria a causa mais correta.
Hoje, a maioria das mulheres trabalha, e o critério agora vale para os
homens também. Certamente, eles estão atentos àquelas que gastam bem
menos do que ganham, que dão presentes caríssimos ao namorado, que
pagam o jantar para ambos, em vez de simplesmente dividir a conta.
As mulheres de hoje foram induzidas a se casar com homens menos
generosos, egoístas de fato, e o resultado está aí. O número de
casamentos fracassados e divórcios não parou de subir nos últimos
trinta anos. A briga de casal por causa de dinheiro é uma das três
principais razões para a separação. Mas há uma segunda conseqüência
ainda mais nefasta. Os homens passaram a gastar não mais com as
mulheres por quem se apaixonam, mas consigo. Passaram a comprar canetas
Montblanc, sapatos e roupas de grife, em vez de rosas e presentes caros
para elas. Continuaram tentando mostrar às mulheres que eles ganham
muito mais do que precisam para viver, razão pela qual as mulheres os
adoram mesmo assim. Continuam usando o mesmo critério de seleção, mas
de uma forma equivocada.
Em nome de uma ideologia, transformaram o homem generoso de antigamente
no homem narcisista de hoje. Toda essa ostentação e esse consumo
supérfluo não são fruto do "capitalismo neoliberal" nem do "mercado de
consumo", mas de uma visão equivocada do que é "politicamente correto"
nas relações de gênero. A generosidade masculina deixou de ser o
critério de seleção que era. Em suma, deu-se um tiro no pé. A nova
geração de mulheres saiu perdendo, pois, uma vez casadas, descobrem que
terão enormes dificuldades em convencer seus mauricinhos a trocar
aquele Audi A4 por um carrinho de bebê quando a paternidade chegar. Se
você pretende se casar com um homem inteligente, competente e generoso
e que não vai controlar eternamente os seus gastos, procure os homens
sob a ótica antiga. Aqueles que ganham mais do que precisam para viver,
os que são extremamente generosos com relação ao dinheiro. Hoje, o
mesmo critério se aplica a uma mulher. Você terá um marido ou esposa
inteligente, um pai carinhoso e uma mãe precavida, uma vida financeira
sem sustos e, o mais importante, sem dívidas para infernizá-los.
Stephen Kanitz
Editora Abril, Revista Veja, edição 1983, ano 39, nº 46, 22 de novembro de 2006, página 22

Recent Comments