Milton and Anna: Regarding the Great Depression. You’re right, we did it. We’re very sorry.
But thanks to you, we won’t do it again”. Ben Bernanke

Como queda de um avião, o colapso de um sistema financeiro mundial tem várias causas complexas.

Portanto, cuidado com análises simplistas feitas por acadêmicos que não entendem e nem querem entender como bancos e o setor imobiliário funciona. 

“Foi o piloto!” (Bush),

“Foi o avião!” (o capitalismo),

“Foi o combustível!” (a ganância dos bancos),

“Foi o motor!” (a alavancagem do sistema),

“Foi a comida!” (os bônus dos gestores).

Existem inúmeras causas, o que torna o diagnóstico de fato muito difícil e vou ajudar o leitor a separar o joio do trigo criando quatro categorias de causas.

1. Medidas de socorro equivocadas.

A maioria das análises econômicas feitas até agora por Paul Krugman, Martin Wolf do Financial Times, por exemplo, são do tipo “se o piloto tivesse arremetido na última hora nada teria ocorrido”, ou “se eu tivesse no comando…”

São análises injustas e não comprováveis.

Jamais saberemos se as “alternativas” propostas  surtiriam efeito melhor.

2. Por que as medidas de segurança e de prevenção falharam?

Aviões possuem inúmeros sistemas de segurança criados para uma série de possíveis eventualidades, que neste caso falharam.

Por quê? 

O sistema financeiro americano tem como mecanismo de segurança o Banco Central com cláusula de independência.

Independência para poder fazer o que for preciso, sem consultar ninguém, e rapidamente.

Sistema que fracassou apesar da promessa de Ben Bernanke ao seu mentor Milton Friedman, de que isto jamais iria de novo acontecer.

“I would like to say to Milton and Anna: Regarding the Great Depression. You’re right, we did it. We’re very sorry.
But thanks to you, we won’t do it again”. Ben Bernanke

http://www.federalreserve.gov/BOARDDOCS/SPEECHES/2002/20021108/default.htm

 3. Qual foi o problema original, a primeira causa que foi piorando sem ser detectada?

Que problema que ainda não foi detectado, e foi piorando sem ninguém perceber?

Ganância, lucro, bônus, alavancagem sempre existiram, mas o quê, de fato, empurrou o sistema para o abismo?

O erro da Basileia

Há 20 anos escrevo que os Acordos da Basileia, ratificados pelo Brasil, (bancos somente podem emprestar 12 vezes seu capital corroído pela inflação) foi o que lentamente destruiu os bancos comerciais e permitiu o crescimento dos bancos de investimento (sem regulamentação). 

Querem agora regulamentar os bancos de investimentos com a mesma regra estapafúrdia, que só irá piorar a situação.

Por isto, o Bancos Americanos travaram. 

Não podem expandir crédito, pelo contrário, precisam contrair crédito (12 x a inflação de 2008), uma vez que não tiveram lucros no ano que poderiam contrabalancear este regulamento.

O segundo motor desta crise, a causa principal, foi criado pelo Legislativo americano em 1913 que permite deduzir da renda tributável, os juros da compra de casa própria – da casa de campo e até de um veleiro. Mais importante, é dedutível somente se for uma dívida securitizada. 

Mortgage interest is tax deductible only if the debt you acquire is secured debt – meaning your home is pledged as collateral on the debt.”

Exemplo Real: Um brasileiro morando em Chicago comprou em 2003 uma casa de US$ 1.000.000,00 com juros de 6,5% ano. Isto permite reduzir da sua renda tributável de US$ 220.000,00 em US$ 65.000,00 de juros.

Ou seja, renda tributável passa a ser US$ 155.000,00, colocando-o numa alíquota mais baixa de imposto, e economizando quase US$ 20.000 por ano, US$ 600,000 em 30 anos, para quem não fizer o cálculo corretamente.

Uma oferta difícil de recusar. Um aluguel custaria bem mais.

Equivale a morar numa casa sem pagar aluguel.

Quanto maior a sua dívida imobiliária, maior será o seu subsídio de juros dedutíveis. 

Quem estimulou a ganância do sistema? Não foram os bancos, o capitalismo, a ganância, os bônus, foram os políticos e o Governo. Pior, quanto maior a sua dívida imobiliária, maior será o seu subsídio de juros dedutíveis.

Por isto, os americanos se endividam até o teto na área imobiliária. Você faria o mesmo.

There are no cows more sacred in the tax code than the deductions for mortgage interest and property taxes. Together, they add up to at least a $275 billion annual subsidy for housing and homeowners.”, New York TImes

Por isto Bancos que exigiam 30% de entrada perderam mercado para bancos que exigiam somente 10% ou até zero, gerando instabilidade financeira. 

Criaram uma “política econômica de incentivo à “casa própria”, com o apoio do setor bancário e imobiliário e dos Neo-keynesianos, que sempre apoiam medidas a favor do pleno emprego. 

O incentivo de US$ 275 bilhões por ano ao longo de 30 anos, equivale a um subsídio total US$ 9.3 trilhões, ou 50% do valor da dívida imobiliária americana.

Quando se compra imóvel, 50% ou mais é pago pelo governo. Ricos que pagam 45% de imposto, recebem 80% da casa grátis do governo.

Só que privilegiaram casas com dívida. 

Casa comprada à vista não tem subsídio. Um absurdo econômico monumental, que cria crises de endividamento por definição.

O problema é que os benefícios estavam sendo fornecidos pelo governo, o que permitiu bancos e agentes incompetentes lucrar com venda de dívidas imobiliárias.

Quem é o verdadeiro culpado nesta história?

Por que isto fica escondido do leitor americano e brasileiro. Por que jornalistas econômicos silenciam, quando sua obrigação é informar? 

O imposto de Renda americano permite deduzir o juro nominal e não somente o juro real. Juro nominal é normalmente 3 vezes maior que o juro real. O que significa que os contribuintes estão deduzindo parte da casa, e não somente os “juros”.  

Mais um erro cometido pelos Monetaristas da Escola de Chicago, ao usar o juro nominal como sendo juro.

 1

Quando se usa o juro nominal a prestação não é corrigida. Pelo contrário, é corroída ano após ano. Novamente o mesmo problema.

Paga-se uma prestação absurdamente elevada no início, tipo US$ 800 por mês, e no final de 30 anos uma prestação totalmente corroída pela inflação, tipo US$ 200,00, um erro monumental. Paga-se muito quando se é jovem e pobre, e paga-se pouco quando você é mais velho e ganha muito mais. Daí decorre os elevados índices de inadimplência. No Brasil fizemos algo mais inteligente, até manipularem os índices de correção monetária. A prestação era constante de Cr$ 380,00 em termos reais, pela duração do contrato.

Como os americanos usam o método de Tabela Price, prestação constante e não amortização constante, a parcela de juros nas primeiras prestações é quase 90% juros, totalmente dedutíveis e vai caindo ao longo dos anos.
2
Fonte:  National Association of Home Builders

Por isto não é verdade que os pobres estavam “perdendo” suas casas a bancos sem escrúpulos. Os primeiros anos de prestação era 90% juro e somente 10% “casa”.

Como a inflação aumenta o valor da casa, de tempos em tempos o americano implora ao Banco uma segunda e terceira hipoteca, única forma de continuar a farra da dedução dos juros nominais do imposto de renda.Americano usa esta segunda hipoteca para comprar carro com juro e amortização subsidiados. Se comprasse direto não teria juros dedutíveis.

Por que ninguém no Brasil pede uma segunda hipoteca de uma casa quase quitada? Porque nossos juros não são dedutíveis.

Regulamentação a Ser Implantada.

1. A primeira providência que precisamos tomar para que possamos ter um sistema financeiro mundial mais seguro e para que esta crise não venha de novo acontecer é eliminar este subsídio de incentivo a casa própria baseado em dívidas. Ao longo dos próximos 10 anos para não gerar uma recessão.

Economistas administrativos, aqueles que entendem como bancos e empresas de construção funcionam, precisam pressionar o governo Americano a corrigir estas distorções, mais um subsídio americano inaceitável, para não colocar novamente em risco as finanças mundiais. A Escola de Chicago e os Keynesianos nunca reclamaram desta prática, e nunca reclamarão.

2. Se isto for inaceitável ao poderoso setor Imobiliário Americano, pelo menos limitar esta dedução fiscal ao juro real.

3. Terceiro, proibir esta dedução nas segundas e terceiras hipotecas, já que a moradia já foi comprada e está quase quitada.

4. Quarto, incentivar moradia popular reduzindo impostos sobre insumos, e não estimulando americanos a contrair dívida, quanto mais dívida melhor.

5. Proibir financiamentos tipo “interest Rate Only” ou Tabela Price, que nada tem a ver com o ciclo de recebimentos dos tomadores ao longo dos 30 anos do financiamento.

6. Introduzir Contabilidade em Termos Reais, onde valores contábeis não são corroídos pela inflação. Parte do descrédito entre Bancos é que nenhum confia mais nos balanços dos outros, e com razão.

7. Criar cursos de Economia Administrativa, para formar gestores da área econômica que entendam como empresas, bancos e neste caso o setor imobiliário funcionam. Hoje, quem não entende de Administração não entende de Economia.

 Por que este problema se alastrou? Mesmo subsidiando o setor imobiliário e praticamente forçando todo americano a se endividar, por que somente agora o problema estourou?

1. Porque em 2000, 2001, 2002, o FED imprimiu um juro real negativo. O termo confunde as pessoas, porque negativo significa que você recebe juros em vez de pagar juros.

A partir de 2000, para cada US$ 100.000 de dívida imobiliária você recebia US$ 2500 por ano em vez de pagar US$ 2500 de juro por ano ao banco. Inacreditável! Joe Garcia entende de economia muito mais do que Milton Friedman. E ainda se abate o juro nominal do imposto de renda como despesa dedutível, quando na realidade o governo lhe deu uma receita fiscal.

Isto incentivou ainda mais os americanos, especialmente de renda mais baixa, a procurar bancos e tomar empréstimos hipotecários.

2. Em 1999, o governo Clinton pressiona a Fannie Mae para dar mais empréstimos para a população de baixa renda.

http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9C0DE7DB153EF933A0575AC0A96F958260

3. E para finalizar o desastre, a lei americana, como aqui, permite ao tomador de empréstimo imobiliário devolver a casa se o valor dela for menor do que o empréstimo, sem ter que arcar com os 28 anos de pagamentos restantes.

Se nada disto for escrito nos livros de história, teremos a repetição desta crise, mais regulamentação com regras equivocadas “corroídas pela inflação”, mais poderes para o Banco Central, e daqui 50 anos vão dizer “we are sorry”.

Os verdadeiros culpados desta política econômica de incentivo à moradia estão lhe confundindo acusando os outros. Os inocentes que serão presos e declarados culpados poderão ser vocês, e poderemos ter mais uma crise destas no futuro.

Creative Commons License
A Crise de 2008 – A Visão Administrativa by Stephen Kanitz is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Brazil License.
Short URL: http://j.mp/10Mw6O7

Share

ADMINISTRAÇÃO ECONÔMICA ECONOMIA ECONOMIA ADMINISTRATIVA

About Author

Stephen Kanitz

(0) Readers Comments

Comments are closed.