É Hora de Votar no Melhor Conto Curto. Coloquei uma pesquisa ao lado, para todos votarem O Finalista do Concurso Conto Curto.
Como todos sabem, a Academia Brasileira de Letras decidiu criar um concurso parecido - Concurso de Microcontos - dia 15 de março de 2010, e como ela tem mais recursos financeiros e credibilidade do que eu, vou parar este concurso por aqui. A partir de agora enviem os textos para a ABL.
Escolha o seu Finalista. Comente e vote no final da leitura.
No Hospital
O sujeito era jogador de futebol e foi ao hospital visitar um colega de profissão.
Enquanto conversava observou os movimentos rápidos de uma enfermeira que usava um uniforme verde.
Houve um interesse mútuo na troca de olhares.
O visitante se engraçou com a magrinha. Deu um jeito de descobrir o horário de saída dela e puxou conversa.
Na época não havia as “marias chuteiras”. Mas, casualmente o seu nome era Maria.
Hoje ele não tem a mesma velocidade com a bola, nem os mesmos cabelos.
Ela não é mais magrinha.
Mas foi assim que eu nasci.
A Roda
- Tem escrito?
- Depois de ler “A História é Outra”, de Fritz Lieber, decidi-me a produzir apenas literatura para robôs. Funções em vez de personagens, narrativa supersônica, raptos de energia!
- Mas... Existem robôs leitores?
- Ora! Até Balzac já foi para o código binário! É inevitável a ascensão de um mercado novo e dinâmico, ao contrário do público humano, cuja mente tacanha patina para alcançar, no máximo, P. C. Coelho e Bruna Hang Ten.
- Então, a criatura ultrapassará o criador?
- Estamos tentando isso desde a invenção da roda, se não me engano.
Casal Que Evolui
- Meu noivo era gordo quando nos conhecemos há seis anos. Comia mal, era sedentário, fumava, bebia muito. Vivia cansado e estressado; não suportava nem uma caminhada. Hoje eu o transformei, está lindíssimo, caminha todos os dias, voltou a jogar tênis, parou de fumar e raramente bebe.
- Ai amiga, tome cuidado. Você pode ter criado um monstro... As vagabundas devem estar de olho nele agora. Eu fiz o contrário com meu marido. Há quatro anos ele era um gato e esportista em forma. Hoje tem uma barriguinha e fuma uma cigarrilha que espanta qualquer vadia, ahahahah...
- Você levou muito a sério a frase “até que a morte os separe”!
Dos defeitos...
Nos conhecemos em um bar furreca, daqueles que de fato atraem os tipos mais capengas e danificados.
No entanto, ela era linda e destoava do lugar. Quedei-me apaixonado e depois de trocarmos alguma correspondência revelei-lhe o intento do meu cortejo:
"Quero me casar com você."
Ao que ela elegante e desdenhosamente replicou:
"Estás apaixonado? Mas nada tu sabes dos meus terríveis defeitos!"
Pois lhe devolvi:
"Deixa que eu já te ame assim? Conhecendo os defeitos primeiro, ninguém se apaixona por ninguém."
O Velho
De dentro de seus oitenta e sete anos, ele fecha os olhos para se proteger da algaravia dos netos no corredor da casa, que ele construiu quando ainda era vivo. Não se atreve a ordenar que parem, temeroso que o escorracem. Também de nada adiantaria pedir a intervenção dos mais velhos, que vieram passar o feriado de Finados e nunca mais saíram. Ultimamente, filhos, netos e bisnetos se confundem. Já não sabe mais quem é quem, quem é o quê. Mistura os nomes e as idades, chega a desconhecer o que foi história e o que foi sonho, o que foi verdade e o que foi inventado. Precisa ficar atento para que não desarrumem os livros de poesia na estante cinza, os seus preferidos. Também desconfia que descobriram o esconderijo das revistas pornográficas. Há anos convertera-se em um eunuco, praticamente, mas mantinha o hábito de conservar coisas que amara durante a vida – inclusive livros e mulheres de papel. No final de cada tarde se recolhe, deita-se na cama de onde raramente sai. E a cada manhã, quando é o primeiro de todos a abrir os olhos insistentes, repete a mesma pergunta: “será que ainda falta muito?”
Um Reflexo Difuso
-Margarida! Chamou o homem, sem que visse qualquer reação por parte da mulher à sua frente. Ela tocava pensativa uma lápide e lia o epitáfio de um túmulo: AQUI JAZ VIOLETA BRÁS, UMA PESSOA QUE NÃO SE ESQUECERÁ JAMAIS. A mulher enterrada ali fora irmã gêmea dela. O homem pousou a mão sobre o ombro da dama reflexiva. -Vocês se pareciam tanto fisicamente, mas, diferente de ti, Violeta tinha um péssimo caráter, lembra como te invejava? Considerava-se imortal, mas um infarto ceifou a vida dela na viagem que vocês fizeram à Paris. Agora, vamos para nossa casa, amada esposa. -disse, acariciando a face enigmática da dama. Ela arremessou sob o túmulo uma flor solitária que denunciava sua identidade oculta, obtida após o uso de um veneno que afetara um coração e de uma simulação de personalidade. Margarida estava morta. Ela, Violeta, era imortal.
G. Lúcio De Franciscis dos Reis Piedade Filho
Vórtice
Chove no gueto escuro. Ao lado do telefone, espero a ligação que não receberei. Latas de cerveja em todo canto. O cinzeiro transborda. Aprisionado entre quatro paredes, sou um imbecil que procura algo decente na televisão. As horas passam. Grades na janela agravam a insanidade. Com alucinógenos correndo nas veias já não gozo de prazer. A masturbação é só uma brincadeira vazia. Sobre a mesa uma faca de pão. Ao sétimo círculo do inferno? O paraíso é um mito de tolos. O sangue nunca foi tão doce. Então fecho os olhos. Como o mundo é bonito.
H. Kate Lúcia Portela de Assis
Por um sorriso de criança...
Mãe e filho entram no supermercado. Na fila de um dos caixas, um pouco distante de ambos, duas mulheres falam alto. - O que está havendo ali, mamãe? A mãe observa bem a cena. - Uma briga. A criança olha de novo e não acredita. - Não, mamãe, não é briga, não. As mulheres estão sorrindo, olha lá! A mãe admira a inocência da criança. - Filho, são sorrisos de deboche. Um dia você vai entender... A criança reflete um pouco. - Já entendi, mamãe. Alguns adultos fazem o sorriso perder toda a graça!...
Tudo que vai...
Ouviu um barulho atrás de si e olhou pelo retrovisor. Uma ambulância piscava e gritava com sua sirene irritante para que ele desse passagem. O homem sorriu e continuou em seu ritmo. O motorista da ambulância começou a buzinar. Mas ele não deu passagem, gostava de ver os outros ir irritados. Pareciam animais, era engraçado. Só quando finalmente virou em uma rua, a ambulância pôde passar. Quando chegou à casa de seus pais encontrou seu pai chorando. -Pai, o que aconteceu? - indagou assustado. -Sua mãe, filho. A ambulância não chegou a tempo dessa vez.
A Garotinha
A garotinha entrou no quarto da tia. -Olá titia, como está sua perna, melhorou? A pequenina não conseguia mais aguentar ver sua tia daquele jeito, com a perna direita quebrada e paralisada. Estava erguida sobre uma corda até o telhado. A queda de moto deixou aquela marca escura que parecia não querer sarar mais. Seis meses haviam se passado e a esperança de Kelly também. -A tia vai ficar boa no dia do Papai Noel chegar – disse a garotinha pondo a mão direita sobre a perna de Kelly e saiu do quarto. Cinco noites antes do Natal, Mônica, a irmã mais velha de Kelly a acompanhava, no quarto, lendo um livro, quando sentiu um sono repentino. Ela caiu de lado no sofá. Kelly também se sentiu apagando. Sentiram-se como se estivessem anestesiadas. De repente as duas começaram a ouvir algo diferente: uma música tocada com harpas. Viram luzes entrarem no quarto. Pareciam nuvens que foram em direção à perna machucada de Kelly que a sentiu queimar um pouco. Alguns minutos depois elas estavam acordadas e se perguntando se ouviram e viram mesmo aquilo tudo. Disseram que sim. Cinco noites depois, Kelly andava, novamente. Foi o Natal mais feliz da garotinha.
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