Em 2003, escrevi um artigo intitulado Estamos Emburrecendo, em que mostro que cada um de nós está rapidamente emburrecendo na medida em que o conhecimento dobra a cada seis meses.
Estamos, como sociedade, ficando cada vez mais inteligentes, mas individualmente, estamos mais burros. Santos Dummont, hoje, seria incapaz de fazer um Boeing 777.
A ideia do Obama e de seus keynesianos é que um Supervisor Mor, com mais poderes do que Ben Bernanke, será capaz de supervisionar o sistema financeiro. Santa arrogância!
"O problema é que os hedge funds, as companhias de seguro, os bancos de investimentos e os derivativos não estavam sendo supervisionados, só os bancos comerciais e a bolsa".
Achar que um neo-keynesiano saberá prever o comportamento de empresas sofisticadas, controlando-as, sem ter feito um MBA, sem conhecer administração, sem ter um QI de 1300, é de uma arrogância intelectual assustadora.
Parte desta crise é justamente devida ao fato de Ben Bernanke não entender de empresas, de não ter percebido que o Lehman Brothers havia criado uma "BMF" interna, exclusiva, e que se tornara o market maker dos CDS, os Credit Default Swaps.
Quando o Lehman quebrou, arrastou todos os comprados e vendidos que se viram credores de uma massa falida.
Guido Mantega também não percebeu que privatizar a Bolsa e a BMF no Brasil foi um erro monumental. Não percebeu que certas instituições não podem ser privatizadas, como custódias de ações.
Só administradores econômicos ou economistas administrativos, percebem esses detalhes. Você confia toda a sua carteira de ações a uma empresa privada cujo dono você sequer conhece? É o que fizeram com sua carteira de ações.
O Pacote Financeiro do Obama é simplesmente "mais da mesma coisa". Analisemos alguns dos propósitos apregoados.
1. "Fortalecer as exigências de capital dos bancos".
Continua o mesmo erro de "limitar empréstimos bancários a um certo número X de vezes o capital dos bancos, SEM CORRIGIR estes valores pela inflação do período".
Obama e seus neo-keynesianos poderiam ter estudado o Brasil, que até 1995 tinha a regra correta "X vezes o capital corrigido pela inflação do período".
Essa regra foi eliminada no Brasil quando o governo congelou nosso sistema de empréstimos e a capacidade de financiamento do Brasil ao nível monetário de 1995, inaugurando a era dos Bancos de Serviços.
Hoje, nossos bancos cobram todos os serviços porque a sua capacidade de empréstimo foi congelada por Malan nos níveis de 1995, sem correção dos 300% de inflação desde então. Assustador.
2. "Criar uma agência de proteção ao consumidor e fortalecer a proteção ao investidor".
Ou seja, não aprenderam nada com o caso Madoff, cujos malfeitos ninguém nada percebeu por 20 anos.
Mas agora, graças a Obama, um professor com PhD em Yale sentando em Washington irá conseguir. Nem um PhD em administração em Harvard, nem ninguém, conseguirá.
Os bandidos sempre terão mais incentivos - e serão mais inteligentes - do que administradores e economistas que não conseguiram se empregar em Wall Street e tiveram que aceitar a segurança de um cargo público.
Portanto, a minha crítica é esta. O mundo corporativo é dinâmico demais para qualquer um entender. Como o avião da Boeing. Não haverá ser humano capaz de dizer: "Aquele novo fundo está tramando uma nova sacanagem, vamos impedi-los enquanto há tempo".
O foco regulatório, na minha humilde opinião, deveria ser em cima das profissões, e não sobre as instituições.
Eu não sei que novos tipos de negócios serão criados nos próximos 50 anos, nem seus nomes. Digamos que consigamos prever que serão basicamente fundos balanceados, ou hedge funds com variância invertida. E daí? Isso basta? Como supervisioná-los se você sequer sabe o que irão fazer ou "tramar"?
O que eu sei é que essas novas instituições precisarão de administradores, contadores, auditores, fiscais e economistas.
Eles é que estão precisando de mais supervisão. Contadores que não corrigem os resultados pela deterioração da inflação é que são culpados, em parte, pelo que acontece desde 1995 no nosso sistema bancário.
Nenhum contador brasileiro - nenhum Professor de Contabilidade brasileiro - protestou quando Pedro Malan acabou com a Contabilidade brasileira, proibindo que os efeitos da inflação fossem registrados.
Se os contadores tivessem proibido os economistas de calcularem a inflação, "porque ela perpetuaria a inflação", haveria uma grita geral entre os economistas. Mas, quando nosso governo proibiu que contadores calculassem corretamente o lucro, o patrimônio e os ativos das empresas, congelando-os a níveis de 1995, ninguém protestou.
No caso do Madoff, ficou claro que os auditores da Madoff não estavam sendo supervisionados. No caso da MCI e da Enron, ficou claro que os auditores estavam ganhando nas consultorias e, portanto, reduzindo os padrões de auditoria.
E, entraram em consultoria porque auditoria estava perdendo dinheiro. Isso eu sei há mais de 20 anos, mas Ben Bernanke e os neo-keynesianos não possuem um único artigo ou paper exigindo intervenção do Estado para que auditores pudessem ser rentáveis novamente na sua profissão, a fim de não comprometer a qualidade. Como o salário mínimo para auditoria.
As agências de risco começaram a fazer consultoria e a cobrar das empresas avaliadas, e não dos investidores interessados, o que, para um advogado, seria um caso claro de conflito de interesses.
Contadores, auditores e agências de risco é que precisam de um órgão de supervisão governamental, acabando com o controle exclusivo dos pares, como é feito hoje.
Como você, como presidente do Conselho Regional de Contabilidade, irá criar exigências maiores aos contadores se são eles que te elegem para presidente?
Nenhum cientista político jamais escreveu um paper sobre estas obviedades. Isso porque estamos emburrecendo. Nenhum cientista político consegue entender tudo, inclusive como contadores elegem seus presidentes.
Por isso, estas minhas ideias jamais serão levadas para frente. Sequer pretendo escrever um paper, porque as chances, hoje em dia, de ele ser lido por quem deveria ser são praticamente nulas.
Só existe uma única supervisão que funcionará daqui para a frente. A sua.
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