Fiquei intrigado com uma pesquisa da CNT/Sensus que mostra que 40% dos brasileiros conhecem uma ou mais pessoas desempregadas.
Este dado é sério, porque parece influenciar o padrão de consumo da pessoas: quem teme perder o emprego não compra a prazo.
Agora vamos fazer alguns cálculos econômicos.
O brasileiro conhece, em média, 100 pessoas, (jovens brasileiros conhecem cerca de 200, como se pode perceber pelo Orkut). Por outro lado, sabemos que o desemprego médio no Brasil é de 10%.
Todo brasileiro portanto conhece 10 pessoas desempregadas em média.
A pesquisa da CNT, então, deveria apontar 100% na resposta à pergunta "você conhece alguma pessoa desempregada?". Você conhece não somente uma pessoa, mas, sim, 10 - ou seja, um valor 1000% maior.
Ocorre que somente 39,6% responderam afirmativamente.
O que está errado nesta pesquisa da CNT?
É uma questão clássica de ponto de vista (ou "framing"), como aponta Rodolfo Araújo.
Vejamos este mesmo problema do ponto de vista do desempregado.
Quem disse que ele conhece 100 pessoas, como todo mundo?
Fizemos uma hipótese simplista no início, achando que todos somos iguais. E se ele conhecer somente 4 pessoas, e não 100?
10% de desempregados irão conhecer 39,6 pessoas em média - ou seja, o número apontado pela Census.
Quando o pesquisador da CNT vier perguntar a 100 pessoas, empregadas ou não, se elas conhecem alguém desempregado, somente 39,6 pessoas vão dizer que sim, os conhecidos dos desempregados.
Os números agora batem com a pesquisa CNT. As pessoas conhecem somente 40% de desempregados, porque os desempregados têm muito menos conhecidos e amigos do que a média.
Se isso for verdade, as conclusões são complicadas e politicamente incorretas.
O desempregado, com todo o respeito e com óbvias exceções, pode ser alguém que não tem muitos amigos e contatos para ajudá-lo a encontrar um novo emprego.
Pode não ter o "networking" que lhe permita arrumar rapidamente um novo emprego. Ou, ele pode ser alguém com dificuldade de relacionamento, razão pela qual foi ele o despedido, e não o seu colega incompetente e puxa-saco.
Isso pode parecer que se está "culpando a vítima", mas, em ciência, é necessário seguir em frente.
Mas vamos parar para pensar. Talvez o problema é que as soluções neo-keynesianas como seguro-desemprego, estímulos fiscais e econômicos não funcionam, como de fato muitas vezes ocorre, quando o que precisamos são estímulos psicológicos.
Em vez de mais medidas econômicas, os desempregados, uma parte deles pelo menos, precisa de "coaching", terapia psicológica, aprendizado de técnicas sociais, e assim por diante.
O problema é que ele, o desempregado, não se coloca disponível para ser contratado; ele conhece menos pessoas do que a maioria da sociedade.
Em todo caso, antes que saiam me criticando, especialmente se você é um destes desempregados, explique então por que a pesquisa CNT não aponta 100% de respostas, se sabemos pelo IBGE que "somente" 10% dos brasileiros estão desempregados, e a maioria das pessoas, em média, conhece muito mais do que 4 pessoas sem emprego.
E diga também: por que ninguém da CNT percebeu algo errado nas respostas se todo mundo sabe que somente 10% das pessoas estão, de fato, desempregadas, tornando a pesquisa desnecessária?
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