Alexandre de Barros, cientista político preocupado com as transições Tancredo e Collor, escreveu um artigo contra a Ministra Dilma, no Estado de São Paulo. Nele, referiu-se à doença da Dilma nos seguintes termos:
"Correremos o risco de viver anos em sobressalto, porque crises [de sucessão], depois que começam, adquirem dinâmica própria. E nunca sabemos quando nem como terminam".
Pede a desistência da Dilma porque a "eventual candidata a presidente Dilma não tem o direito ético de empurrar 185 milhões de brasileiros para o possível desperdício dos sacrifícios que todos fizemos durante os mandatos de Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula".
Alexandre de Barros comete dois erros.
1) Todo Presidente tem uma probabilidade de falecer durante seu mandato. Morrer é um fato da vida, como diz o clichê - especialmente na idade avançada dos candidatos.
Serra tem uma probabilidade atuarial de falecer em 8 anos de governo (com reeleição) da ordem de 27%, segundo o IBGE. Sem considerarmos os riscos de queda de avião, a que Presidentes estão sujeitos numa probabilidade mais elevada que uma pessoa normal.
Por ser do sexo masculino e mais velho do que Dilma, Serra tem, aliás, o dobro de chances de vir a falecer no cargo quando comparado a Dilma - algo que o cientista político não menciona no seu artigo.
Dilma tem somente 14% de chance de vir a falecer naturalmente enquanto no cargo, por ser mais jovem e mulher. Com o diagnóstico de sua doença, as chances certamente aumentam. Mas em que percentual? Considerando as chances de cura (segundo relato) da ordem de 90%, e os 5 anos de sobrevida no caso de não-cura, Dilma pode ainda ter mais chances de completar o mandato do que Serra.
Portanto, a sua doença não é uma razão para pedir a desistência de sua provável candidatura.
Como Barros, eu também dou palestras para investidores, e me lembro de ter calculado a probabilidade de Tancredo vir a falecer enquanto no cargo.
O resultado era de 28%, para um período de somente 4 anos, porque Tancredo tinha 75 anos.
Na época, ninguém pediu para que ele desistisse da sua candidatura "por empurrar 150 milhões para o sacrifício" do governo Sarney.
Calcule a sua probabilidade de chegar a uma idade avançada no nosso site Estatísticas Econômicas. Temos uma tabela de expectativa de vida para mulheres e homens. Você viverá muito mais tempo do que a expectativa que você aprende nas escolas.
2) O segundo erro de Alexandre de Barros é não perceber que o problema não é a possibilidade de falecimento, e sim o partido do Vice.
O problema de Jânio Quadros, Tancredo, FHC e até de Lula é que seus vices foram ou são de outro partido - e com potencial de darem uma guinada, assustando investidores. Tancredo, FHC e Lula tinham vices de direita, o que acalma neste aspecto. Mas Jânio tinha Jango, e, de fato, se criou uma crise institucional.
Quem está agindo corretamente é Aécio Neves, que luta para ser vice do Serra, apesar dos desmentidos. O problema é que uma chapa puro-sangue, ou seja, democrática, perde espaço de televisão. Mas traria menos traumas no caso de uma transição em meio de mandato.
Esse negócio de vice de outro partido só reforça a ideia que muitos partidos têm: de que o melhor dos mundos é ser aliado: sem ser oposição nem ter que meter a mão na massa e assumir responsabilidades.
Em administração, não existe isso de o Presidente da empresa ser de um partido e o vice e a diretoria serem de outro. São sempre chapas puro-sangue.
