Inovação,
criatividade e sofisticação têm sido apontadas como as principais
qualidades para o sucesso empresarial em quase todos os livros
de administração publicados pelo mundo afora. Em países onde
todo consumidor já tem televisor, rádio, carro e computador,
a única forma de fazer dinheiro é tornar obsoleto o produto
que as pessoas têm em casa. Por isso, criam-se produtos cada
vez mais luxuosos, sofisticados e, portanto, mais caros.
No Brasil, infelizmente ou felizmente, a maioria dos consumidores
ainda não comprou o seu primeiro produto. Os brasileiros e,
diga-se de passagem, 83% da população do mundo. A receita
para o sucesso precisa ser outra.
Nada de produto sofisticado que encareça o preço, ou opcionais complicados. A última coisa que alguém que nunca guiou quer é um carro que vá de 0 a 200 quilômetros por hora em um segundo. Nada que tenha um manual de 100 páginas, os produtos terão de ser simples e amigáveis.
Em 1993 propus esta estratégia num livro prevendo que, com
a vinda do real, "o novo padrão industrial brasileiro será
voltado às faixas de renda mais baixa da pirâmide econômica,
ou seja, ao mercado de produtos populares". "Nossa indústria
precisa adequar sua produção ao nível de renda do país, e
não vice-versa". "Produtos menos sofisticados e mais condizentes
com a nossa realidade. O carro popular a 12.000 reais no Brasil
está longe de ser popular." "Carro popular deveria ser uma
lambreta ou uma bicicleta com motor."
Pequenos empresários que se enveredaram por esse caminho saíram-se
bem. Quem continuou na mesma tecla de produtos para a classe
média amargou prejuízos e inadimplências. Um dos grandes problemas
deste país é a nossa má distribuição da renda. Mas não é só
a renda que é mal distribuída, a produção também o é. Praticamente
50% da população brasileira produz o que somente 10% consegue
consumir. Por essa razão não temos escala, não temos competitividade
internacional, não temos tecnologia.
A Fiat do Brasil, campeã em produzir carros populares, detém
diversas patentes internacionais na área de motores de 1.000
cilindradas, algo que poucos brasileiros sabem. O que faz
todo sentido enquanto americanos e alemães dominaram nos motores
de 3.000 cilindradas e 5.000 cilindradas.
A Gessy Lever introduziu no Brasil um sabão em pó 50% mais
barato, que demandou 42 modificações estruturais, muitas aprendidas
por técnicos que pesquisaram por dois anos a Índia. Tentar
competir mundo afora com produtos sofisticados é suicídio,
por uma razão muito simples. Um trabalhador alemão da Mercedes,
que vai ao trabalho com sua Mercedes usada, sempre fará um
carro melhor que um trabalhador brasileiro que vai de ônibus
da mesma marca. Hoje a qualidade total requer um nível de
dedicação e esmero por parte do trabalhador que só será possível
alcançar se este for capaz de comprar o produto que ele próprio
fabrica. Parece uma frase de Karl Marx, mas é puro bom senso.
Uma aliança como a ALCA, dificilmente dará certo para o Brasil.
Sempre seremos fornecedores de componentes e matérias- primas.
Uma política industrial voltada para os mercados de baixa
renda daria ao Brasil escala para exportar para outros países
de baixa renda, como a Índia, a China, a Turquia, enfim, o
resto do mundo. Que por sinal são os países que mais crescem.
A globalização estaria a nosso favor e não contra, como agora.
Propus recentemente no Índia Economic Summit, da World Economic
Forum, em vez da ALCA, o início de discussões de uma BRINDIA,
Brasil e Índia. O Brasil exportando para a Índia produtos
populares com marcas próprias, as que sabemos fazer melhor
do que eles e vice-versa.
Essa política industrial infelizmente tem um defeito. Não
é moderna, os livros traduzidos nem a comentam, é "made in
Brazil", "é um retrocesso" como criticou um economista brasileiro.
A tecnologia de produção e os materiais podem e precisam ser
modernos, os produtos de fato não são. Mas não podemos esquecer
que a economia americana originalmente também começou com
produtos populares, os da época. Mania brasileira de querer
queimar etapas a qualquer custo.
Leia também Sempre Compre A Vista
Editora Abril, Revista Veja, edição 1953, ano 33, nº 24, 14 de junho de 2000, página 20
