Aos 88 anos, Peter Drucker escreveu um artigo em que apresentava um princípio simples de administração e contabilidade, que infelizmente poucos usam na suas vidas pessoais.
Peter Drucker sugeria corretamente que se anotasse num pedaço de papel todas as razões que nos levaram a tomar cada decisão importante na vida. Um pró-memória, uma ata de reunião.
Quando a decisão provasse ter sido equivocada, você poderia analisar o seu processo decisório, e aprender porque suas decisões nem sempre foram as melhores.
Ou então, você descobriria que todas as razões que te levaram a comprar ações na Bolsa, por exemplo, continuam válidas. São os outros -- ou o “mercado” -- que estão equivocados. Como ocorre agora.
Quais foram as razões que levaram Brasil e Paraguai a celebrarem o acordo de Itaipu? Seria importante o Presidente do Paraguai revê-las antes de nos acusar de espoliadores.
Provavelmente, jamais saberemos o que se passou exatamente, mas irei imaginar duas negociações possíveis na época.
Um dia, nosso Embaixador em Assunção pede uma audiência como o ditador do Paraguai e faz a seguinte proposta:
Brasil: “Sr. Presidente, gostaria de propor a construção de Itaipu, que nos permitiria gerar 40 megawatts de energia, semeando riqueza e progresso nos nossos dois países.
“Dividiremos a energia de forma justa e igualitária, bem como os custos e os investimentos, 50% para cada país: uma proposta dentro do espírito cooperativista e de equidade social que sempre uniu nossos dois países”.
Paraguai: “Lamento informar que não temos o menor interesse. O Paraguai somente precisará de 20 megawatts daqui a 200 anos. Temos investimentos muito mais urgentes a fazer do que esse. Nem pensar. Passem bem”.
Dois meses depois, nova conversa, com outra abordagem.
Brasil: “Sr. Presidente, temos um investimento interessante a propor ao Paraguai. A construção de Itaipu, que exigirá 20 bilhões de investimento, 90% dos quais podem ser financiados pelo Banco Mundial e por bancos no exterior.
“O Projeto de Viabilidade Econômica, elaborado pelos nossos melhores economistas, projeta um retorno de 25% ao ano, um retorno fantástico aos cofres públicos do Paraguai. Não há proposta capitalista mais interessante do que essa”.
Paraguai: “Conheço esses tais Projetos de Viabilidade Econômica. Quem me garante que Itaipu não custará o triplo do estimado, que não demorará 10 anos a mais do que o previsto para ser construída e que os juros internacionais não subirão para 19% ao ano, implicando uma recessão no Brasil que postergaria em 20 anos essa tal rentabilidade de Itaipu? Nem pensar: o risco é muito elevado. Passem bem“.
E agora? Como negociador do Brasil, o que você faria para convencer o Paraguai a permitir que o Brasil utilizasse a corrente de um rio que nos separa, para gerar energia de que só o Brasil precisa?
O Paraguai obviamente não precisa da energia que o mesmo rio poderia fornecer, nem quer nem pode assumir os riscos do negócio.
Um administrador teria proposto alugar o terreno à margem esquerda do Paraguai por 50 anos, bem como as terras alagadas, propiciando uma bela receita para o governo do Paraguai, sem risco financeiro algum.
O Paraguai estaria, portanto, alugando suas terras, e não construindo uma usina e vendendo a energia futura de que ele jamais precisaria.
As razões do Paraguai para rejeitar a proposta brasileira estavam corretas, como a história acabou provando. Itaipu custou o dobro (senão mais), o juro internacional subiu para 19%, o Brasil quebrou, e a recessão de 20 anos tornou Itaipu superdimensionada e subutilizada até recentemente.
É muito fácil agora que o pior já passou, depois que o Brasil quebrou em 1982, depois que pagamos o triplo pelos juros, nos acusar de estarmos espoliando o Paraguai.
Do ponto de vista marxista, o preço justo é sempre o valor de uso, que, no caso da água que passa ao largo do Paraguai, é praticamente zero.
O preço justo, portanto, seria o preço do aluguel das terras no Paraguai, e nunca o atual preço da energia elétrica no Brasil.
O mais triste dessa história é que a tese do novo presidente do Paraguai se baseia no “direito de propriedade”, pela terra e queda d’água que Deus lhes deu de mão beijada. Não há discurso mais neoliberal do que esse.
Espero que o João Stedile e o MST convençam seus companheiros do Paraguai que cobrar pelo direito de propriedade vai contra tudo que a Teologia da Libertação pregou até hoje e que nós, brasileiros, somos sim um povo sem energia. Podiam defender uma reforma aquática, para tornarmos os rios produtivos.
No fundo, o Paraguai fechou um negócio sem nenhum risco: tudo seria pago pelo Brasil e toda a energia seria comprada pelo Brasil por um preço pré estabelecido, tudo isso num arranjo que apenas lhe geraria lucro. Lucro esse possivelmente igual ao preço do aluguel das terras.
Caso contrário, o Paraguai teria quebrado junto com o Brasil, com consequências muito mais nefastas. Pena que ninguém segue o conselho de Peter Drucker, para poder ler anos depois porque governos anteriores tomaram as decisões que tomaram.
